Um exercício útil
Manhã
Nas Meditações (Livro
V : 1), Marco Aurélio, anotava suas reflexões estóicas, e é notória proximidade
com Epictetus e Sêneca.
“De
manhã, quando te levantas contra vontade, pensas: Levanto-me para cumprir a
minha tarefa de homem. Por que hei de afligir-me, visto que vou fazer
justamente aquilo para que nasci e para o que fui mandado a este mundo? Fui
porventura criado para me conservar no quente, deitado debaixo de cobertores? —
É mais agradável. — Nasceste, pois, para te entregares ao que é mais agradável?
Em suma, nasceste para a passividade ou para a ação? Repara como plantas,
pássaros, formigas, abelhas fazem cada qual o seu trabalho e concorrem quanto
podem para manter o equilíbrio do mundo. Só tu estarias dispensado da tua
tarefa e terias o direito de te furtar ao que manda a natureza? — Também
devemos descansar. — É justo; mas ao repouso também a natureza impõe um limite,
como ao comer e ao beber; e tu ultrapassas tal limite, vais além do que é
necessário, enquanto na ação, no esforço, te conservas aquém do possível.”
Noite
“Todas
as noites, pego emprestado dos Anciãos uma técnica cujos três passos
constituem para mim a melhor maneira de manter um diário; Acho eficaz para
encerrar o dia e planejar o próximo [...].
Todas
as noites, sento-me em um lugar tranquilo para revisar meu progresso e me faço
três perguntas simples, que podem ser formuladas da seguinte forma:
- Hoje, quais foram minhas boas ações? (Eu reflito sobre meu progresso pessoal, realização de meus principais objetivos e como me comportei com os outros.)
- Onde foi que eu errei? (Penso nos lapsos, nas falsas promessas que fiz ou nas pessoas que negligenciei.)
- Como posso melhorar amanhã? (Pensando nos outros, em minhas metas para o dia e corrigindo erros do passado.)
Pessoalmente,
este exercício noturno permitiu-me acompanhar o meu progresso,
responsabilizar-me pelos meus atos e, espero, agir melhor com o meu
próximo. Por que não tentar ?”
...
Uma reflexão, entre as que
acho belíssimas e costumo associar com a que segue abaixo, em que se lê os
preceitos seguintes:
“Não deixe teu sono cair sobre seus olhos lassos
Antes de
ter pesado todos os atos do dia:
Em que
falhei? Que fiz, qual dever omiti?
Começa
por aí e prossegue o exame: após o que
Condena
o malfeito, alegra-te pelo Bem.” [1]
...
Antes de ir para a cama,
portanto:
Reflita sobre as coisas
mais importantes que aconteceram no dia que encerrou e o que de mais importante
relaciona-se com uma ética pessoal.
Pergunte a ti mesmo:
- O que fiz errado?
- O que fiz certo?
- E o que ainda precisa ser feito?
...
Acrescento ainda, nessa
mesma perspectiva, numa outra abordagem para uma “visão de mundo” (Weltanschauung),
temos as seguintes questões:
“Qual
o meio prático mais eficaz que tem o homem de se melhorar nesta vida e de
resistir à atração do mal?[2]
“Um
sábio da Antiguidade vo-lo disse: Conhece-te a ti mesmo.”
a)
- Conhecemos toda a sabedoria desta máxima; porém a dificuldade está
precisamente em cada um conhecer-se a si mesmo. Qual o meio de consegui-lo?
“Fazei
o que eu fazia quando vivi na Terra: ao fim do dia, interrogava a minha
consciência, passava revista ao que fizera e perguntava a mim mesmo se não
faltara a algum dever, se ninguém tivera motivo para de mim se queixar. Foi
assim que cheguei a me conhecer e a ver o que em mim precisava de reforma.
Aquele que, todas as noites, evocasse todas as ações que praticou durante o dia
e inquirisse de si mesmo o bem ou o mal que fez, rogando a Deus e ao seu anjo
guardião que o esclarecessem, grande força adquiriria para se aperfeiçoar,
porque, crede-me, Deus o assistiria. Dirigi, pois, a vós mesmos perguntas,
interrogai-vos sobre o que tendes feito e com que objetivo procedestes em tal
ou tal circunstância, sobre se fizestes alguma coisa que, feita por outrem,
censuraríeis, sobre se obrastes alguma ação que não ousaríeis confessar.
Perguntai ainda mais: “Se aprouvesse a Deus chamar-me neste momento, teria que
temer o olhar de alguém, ao entrar de novo no mundo dos Espíritos, onde nada
pode ser ocultado?” Examinai o que pudestes ter obrado contra Deus, depois
contra o vosso próximo e, finalmente, contra vós mesmos. As respostas vos
darão, ou o descanso para a vossa consciência, ou a indicação de um mal que
precise ser curado.
“O
conhecimento de si mesmo é, portanto, a chave do progresso individual. Mas,
direis, como há de alguém julgar-se a si mesmo? Não está aí a ilusão do amor-próprio
para atenuar as faltas e torná-las desculpáveis? O avarento se considera apenas
econômico e previdente; o orgulhoso julga que em si só há dignidade. Isto é
muito real, mas tendes um meio de verificação que não pode iludir-vos. Quando
estiverdes indecisos sobre o valor de uma de vossas ações, inquiri como a
qualificaríeis, se praticada por outra pessoa. Se a censurais noutrem, não a
podereis ter por legítima quando fordes o seu autor, pois que Deus não usa de
duas medidas na aplicação de Sua justiça. Procurai também saber o que dela
pensam os vossos semelhantes e não desprezeis a opinião dos vossos inimigos,
porquanto esses, nenhum interesse têm em mascarar a verdade, e Deus muitas
vezes os coloca ao vosso lado como um espelho, a fim de que sejais advertidos
com mais franqueza do que o faria um amigo. Perscrute, conseguintemente, a sua
consciência aquele que se sinta possuído do desejo sério de melhorar-se, a fim
de extirpar de si os maus pendores, como do seu jardim arranca as ervas
daninhas. Faça o balanço de seu dia moral, como o comerciante faz o de suas
perdas e seus lucros; e eu vos asseguro que a primeira operação será mais
proveitosa do que a segunda. Se puder dizer que foi bom o seu dia, poderá
dormir em paz e aguardar sem receio o despertar na outra vida.
“Formulai,
pois, de vós para convosco, questões nítidas e precisas e não temais
multiplicá-las. Justo é que se gastem alguns minutos para conquistar uma
felicidade eterna. Não trabalhais todos os dias com o fito de juntar haveres
que vos garantam repouso na velhice? Não constitui esse repouso o objeto de
todos os vossos desejos, o fim que vos faz suportar fadigas e privações
temporárias? Ora, que é esse descanso de alguns dias, turbado sempre pelas
enfermidades do corpo, em comparação com o que espera o homem de bem? Não
valerá este outro a pena de alguns esforços? Sei haver muitos que dizem ser
positivo o presente e incerto o futuro. Ora, esta exatamente a ideia que
estamos encarregados de eliminar do vosso íntimo, visto desejarmos fazer que compreendais
esse futuro, de modo a não restar nenhuma dúvida em vossa alma. Por isso foi
que primeiro chamamos a vossa atenção por meio de fenômenos capazes de
ferir-vos os sentidos e que agora vos damos instruções, que cada um de vós se
acha encarregado de espalhar. Com este objetivo é que ditamos O Livro dos
Espíritos.”
______.
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