Sobre a Prohairesis (προαίρεσις) e Akrasia (ἀκρασία)
Na obra de Epicteto podemos encontrar a definição de que um Bem maior que podemos buscar é a Prohairesis (προαίρεσις) faculdade de escolher racionalmente, a vontade, o caráter.
Aqui, inicio também uma pequena reflexão a partir da definição de Akrasia (ἀκρασία) que podemos pensar nela a partir do momento em que a prohairesis está perturbada por falsas impressões (phantasiai, na obra de Epicteto) de que algo externo a nós como a riqueza, o prazer, o medo da morte é de muito valor.
Isso, como consequência, faria com que a nossa "vontade enfraquece" impedindo o treinamento (exercício, segundo Hadot) em buscarmos aquilo que está em nosso controle (Cf. Encheiridion).
Assim, em meio a tantos revezes, cabe-nos prosseguirmos com os exercícios em andamento. Nisso, relembro Epicteto em (Diatribe III. XII. 3-4).
“Nem toda dificuldade e perigo é adequada para o treino, mas apenas aquela que é conducente ao sucesso em atingir o objeto de nosso esforço. E qual é o objeto de nosso esforço? Agir sem impedimento na escolha e na aversão. E o que isso significa? Nem falhar em conseguir o que desejamos, nem cair naquilo que queremos evitar.”
Dado que estabelecido está, há algum tempo, que seria necessário e constante o treino e os esforços, devemos insistir, na direção da reformulação dos hábitos (ethos), prossigamos.
Da releitura de Hadot, hoje, e sobre o que ele chamou de “exercícios espirituais”, anotamos a divisão dos exercícios estoicos em:
- aqueles que desenvolvem a consciência de si direcionados a uma visão exata do mundo, da natureza e,
- aqueles que são orientados para a paz e tranquilidade interior (Inner Citadel).
Epicteto, nas Diatribes I.I.4 e no Encheiridion, recomenda os exercícios de bom uso das representações, que se examine e as teste antes de qualquer assentimento ou rejeição.
“Pois quando uma vez você concebe um desejo por dinheiro, se a razão for aplicada para trazer a você para a concepção de um mal, tanto as paixões se acalmam quanto o princípio governante [razão] é restaurado à sua autoridade original.”
Tal disciplina nos exercícios tem por meta equilibrar as emoções e, para Epicteto são fundamentalmente essenciais para a formação da alma.
“O homem que se exercita contra tais representações externas é o verdadeiro atleta em treino. [...] Grande é a luta, divina é a tarefa; o prêmio é um reino, liberdade [ἐλευθερίας], serenidade [εὐροίας], paz [ataraxia].”
E, reafirma que é tarefa principal de quem pretenda reformular os hábitos:
"[...] se você tem uma febre da maneira certa, você desempenhará as coisas esperadas do homem que tem uma febre. O que significa ter a febre da maneira certa? Não culpar deus, ou homem, não ser esmagado pelo que acontece a você, esperar a morte bravamente, e da maneira certa, fazer o que é imposto sobre você.” (D. III.X.12-13)
Dadas tais recomendações, é perceptível para Epicteto que a disciplina e a adoção desses “exercícios” na busca de euroia, que a mudança dos hábitos a ponto de reformular a teoria em prática é processo lento e exige persistência. Por isso:
“Primeiro digira seus princípios, e então você terá certeza de não vomitá-los. [...] Mas depois que você tenha digerido estes princípios, mostre-nos alguma mudança em seu princípio governante [razão] que é devido a eles.” (D. III.XXII.3)
A proposta, portanto, é de alcançarmos o controle sobre nossos julgamentos, nossas escolhas (προαίρεσις) e assentimentos. Esforço válido e imprescindível, escapando da Akrasia (ἀκρασία) !
______.
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