domingo, 8 de fevereiro de 2026

ANOTAÇÕES SOBRE PERFECTIBILIDADE, DIGNIDADE HUMANA E AS PAIXÕES EM KANT

(IMAGEM: "Salomon Koninck: de Kluizenaar. ca. 1643. Gemäldegalerie Alte Meister, Dresden." In: Pinterest")

ANOTAÇÕES SOBRE DUAS QUESTÕES

1. "[...] o homem é obrigado a reconhecer praticamente a dignidade da humanidade em todos os outros homens, portanto, radica nele um dever que se refere ao respeito que se tem necessariamente de mostrar por todo outro homem.” (KANT, Metafísica dos Costumes, 462, §38)

E, recentemente li, uma obra que tenta responder algumas questões que de certa forma parecem não contempladas na discussão kantiana sobre o  da “dignidade humana”: Dignidade e Autonomia na Filosofia Moral de Kant” O autor tenta responder à questão sobre como aplicar as reflexões kantianas às reflexões atuais sobre pessoas com limitações físicas ou intelectuais. 

2. Uma reflexão. “Faça uma prática dizer a todas as impressões fortes: ‘Uma impressão é tudo o que você é’. Em seguida, teste e avalie com seus critérios, mas um principalmente: pergunte: ‘Isso é algo que está ou não está sob meu controle?’ E se não é uma das coisas que você controla, diga: ‘Então não é minha preocupação’. (EPICTETO. D. II, 18)

Portanto, cabe-nos concentrar a atenção no que está sob nosso controle, a Natureza cuida do que está longe do nosso poder.

3. E, SOBRE A PERFECTIBILIDADE

Ademais sobre essas buscas, acrescentei alguns trechos d "Antropologia de um ponto de vista pragmático" (KANT, 2006) sobre a perfectibilidade no ser humano:

“Desenvolvimento até a perfeição[1]

§25 d

Uma série contínua de representações sensíveis sucessivas e diferentes segundo o grau tem, se a seguinte é sempre mais forte que a anterior, um extremo de tensão (intensio): aproximar-se dele é estimulante, ultrapassá-lo, relaxante (remissio). No ponto, porém, que separa ambos estados está a acabamento (maximum) da sensação, que tem por conseqüência a insensibilidade, portanto, a falta de vida.

Se se quer manter viva a faculdade de sentir, não se deve começar pelas sensações fortes (pois estas nos fazem insensíveis para as seguintes), mas de preferência privar-se delas no início e administrá-las com parcimônia para poder ascender cada vez mais alto. O pregador começa, na introdução, com uma fria instrução do entendimento, que induz a tomar em consideração o conceito de um dever; insere então um interesse moral nas divisões de seu texto e termina, na aplicação, movendo todos os móbiles da alma humana mediante as sensações que podem dar ênfase àquele interesse.

Jovem homem! Evita a saciedade (da diversão, do excesso, do amor e semelhantes), se não com o propósito estóico de se abster completamente dela, ao menos com o fino propósito epicurista de ter a perspectiva de uma fruição sempre crescente. Essa parcimônia com o pecúlio de teu sentimento vital te fará realmente mais rico pelo retardamento do prazer, ainda quando no fim de tua vida devas ter renunciado em grande parte ao uso dele. A consciência de ter a fruição em seu poder é, como tudo o que é ideal, mais fecunda e muito mais ampla que toda satisfação dos sentidos porque esta é ao mesmo tempo consumida e, assim, subtraída à massa do todo.”

Das paixões § 80

possibilidade subjetiva do surgimento de um certo desejo, que precede a representação de seu objeto, é propensão (propensio); - a coação interna da faculdade de desejar para possuir esse objeto, antes de conhecê-lo, é instinto (como impulso de acasalamento ou impulso paternal dos animais de proteger suas crias etc.). - O desejo sensível que serve de regra (hábito) ao sujeito chama-se inclinação (inclinatio). - A inclinação pela qual a razão é impedida de comparar essa inclinação com a soma de todas as inclinações em vista de uma certa escolha, é a paixão (passio animi). Percebe-se facilmente que as paixões são altamente prejudiciais à liberdade, porque se deixam unir à mais tranqüila reflexão e, portanto, não devem ser inconsideradas como a afecção, nem tampouco turbulentas e passageiras, mas podem deitar raízes e coexistir mesmo com a argumentação sutil-, e se afecção é uma embriaguez, paixão é uma doença que tem aversão a todo e qualquer medicamento e, por isso, é muito pior que todas aquelas comoções passageiras da mente, que ao menos estimulam o propósito de se aperfeiçoar; ao contrário destas, a paixão é um encantamento que exclui também o aperfeiçoamento.

Designa-se a paixão com a palavra mania (ambição, sede de vingança, desejo de poder etc.), exceto a do amor, quando não se está enamorado. A causa é que esse último desejo simultaneamente cessa quando satisfeito (mediante o gozo), ao menos em relação à mesma pessoa, e portanto pode-se apresentar como paixão um estar apaixonadamente enamorado (enquanto a outra parte persiste na negativa), mas não o amor físico, porque este não contém um princípio constante em relação ao objeto. A paixão pressupõe sempre uma máxima do sujeito, de agir segundo um fim que lhe é prescrito pela inclinação. Está, portanto, sempre ligada à razão do sujeito: não se podem atribuir paixões aos meros animais nem tampouco aos puros seres racionais. Visto que nunca são plenamente satisfeitas, a ambição, a sede de vingança etc. fazem por isso mesmo parte das paixões, como doenças contra as quais só existem meios paliativos.”

Divisão das paixões [...] §81

Elas são divididas em paixões da inclinação natural (inatas) e paixões da inclinação procedentes da civilização dos seres humanos (adquiridas). As paixões do primeiro gênero são a inclinação à liberdade e a inclinação sexual, ambas ligadas a afecção. As do segundo gênero são a ambição, desejo de poder e cobiça, que não estão ligadas à impetuosidade de uma afecção, mas à persistência de uma máxima dirigida a certos fins. Aquelas podem ser denominadas inflamadas (passiones ardentes); estas, como a avareza, paixões frias (frigidae). Mas todas as paixões são sempre desejos dirigidos apenas de homens a homens, não a coisas, e sem dúvida se pode ter muita inclinação a utilizar um campo fértil ou uma vaca, mas não afecção (que consiste na inclinação à comunidade com outros), e muito menos uma paixão.”

homem diligente, deve portanto, lutar para evitar as oscilações da paixões.

Ademais:

“[...] ser humano pode exercer domínio sobre si mesmo se ele quiser?

Immanuel Kant, nas "Lições de ética", responde que:

"De fato, parece acontecer dessa forma, porque isso parece depender do homem. [...] Ora, o domínio sobre si mesmo depende da força do sentimento moral. Podemos muito bem nos autogovernar se enfraquecermos as forças opostas.

E, na Questão 909, no LE, lemos também:

Poderia sempre o homem, pelos seus esforços, vencer as suas más inclinações?

“Sim, e por vezes fazendo esforços bem pequenos. O que lhe falta é a vontade. Ah! Quão poucos dentre vós fazem esforços!

Grifo e destaques meus) 

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[1] KANT. Antopologia de um ponto de vista pragmático. 2006.

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