quinta-feira, 18 de março de 2021

REFLEXÃO MATINAL LXXIV: FUGINDO DE CAMINHOS QUE NÃO LEVAM A LUGAR NENHUM

 

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Essa foi a primeira atividade do dia: refletir sobre “Chemins qui ne mènent nulle part”. ("caminhos que não levam a lugar nenhum"), depois, uma palestra e, em seguida, retorno às leituras... Assim... 

Continuando a leitura desse livro do Galeno; seguindo com releituras da temática, nas obras dos estoicos e na TCC. E, fugindo dos caminhos que não levam a lugar nenhum

Se queremos, portanto, mudar nossos hábitos, “curar as paixões, devemos criar uma nova atmosfera interior.

O primeiro passo é não começar, jamais, tentando mudar o mundo ou as demais pessoas. Em seguida, nossa prioridade deve ser encontrarmos um espaço de tranquilidade interior, aprendermos mais sobre nós mesmos.

Isso inclui tentar reconhecer e compreender limites e imperfeições.

Mas, principalmente, a “aplicação dos princípios”

“Jamais, a respeito de coisa alguma, digas que “a perdi”, mas que “a restitui”. Teu filho morreu: foi restituído. Tua mulher morreu: foi restituída. “A propriedade me foi retirada”: pois bem, também ela foi restituída. “Mas é sórdido quem me retirou a propriedade”. O que te importa por meio de quem Aquele que te ofereceu a pediu de volta? Na medida em que te são dados, usa os objetos do mesmo modo que alguém que ocupa algo que pertence a outro, como os viajantes numa hospedaria.” (EPICTETUS, Encheirídion, XI).

E, acrescento mais um pequeno texto aqui, seguindo em bom tom "estoico", com mais essa “reflexão matinal”. Pois, como tem ocorrido após afastar-me de certas temáticas que não levaram a lugar nenhum desde que com elas havia me ocupado. Não tenho dúvidas, foi um desvio oportuno. Ter reconfigurado as reflexões em outro patamar tem sido “existencialmente” fundamental e altamente benéfico.

A vida, como em certa medida, tenho praticado, um pouco contemplativa, deve conduzir-se sob alguns pilares previamente pensados e, em silêncio reflexivo. São momentos em que a luta por aperfeiçoamento ganha contornos de avaliação, de exame constante da condição humana, que só pode ser buscada na temporalidade do pensamento próprio. Pensar o inefável, apontado por Sêneca e outros estoicos em geral; a vida examinada como na recomendação de Sócrates; seus fundamentos, podem ser alcançados e apreendidos em partes, nos limites de cada um e de forma sempre fragmentada; no entanto, estes pequenos encontros dão-nos oportunidade de busca de nós mesmos, do reencontro com nosso lugar, nosso “local of control”, tarefa de cada um no universo.

Portanto, segue-se, uma reflexão sobre a "aplicação dos princípios", como "primeiro e mais necessário tópico em Filosofia":

 

“[52.1] Ὁ πρῶτος καὶ ἀναγκαιότατος τόπος ἐστὶν ἐν φιλοσοφίᾳ ὁ τῆς χρήσεως τῶν δογμάτων, οἷον τὸ μὴ ψεύδεσθαι· ὁ δεύτερος ὁ τῶν ἀποδείξεων, οἷον πόθεν ὅτι οὐ δεῖ ψεύδεσθαι· τρίτος ὁ αὐτῶν τούτων βεβαιωτικὸς καὶ διαρθρωτικός, οἷον πόθεν ὅτι τοῦτο ἀπόδειξις; τί γάρ ἐστιν ἀπόδειξις, τί ἀκολουθία, τί μάχη, τί ἀληθές, τί ψεῦδος; [52.2] οὐκοῦν ὁ μὲν τρίτος τόπος ἀναγκαῖος διὰ τὸν δεύτερον, ὁ δὲ δεύτερος διὰ τὸν πρῶτον· ὁ δὲ ἀναγκαιότατος καὶ ὅπου ἀναπαύεσθαι δεῖ, ὁ πρῶτος. ἡμεῖς δὲ ἔμπαλιν ποιοῦμεν· ἐν γὰρ τῷ τρίτῳ τόπῳ διατρίβομεν καὶ περὶ ἐκεῖνόν ἐστιν ἡμῖν ἡ πᾶσα σπουδή· τοῦ δὲ πρώτου παντελῶς ἀμελοῦμεν. τοιγαροῦν ψευδόμεθα μέν, πῶς δὲ ἀποδείκνυται ὅτι οὐ δεῖ ψεύδεσθαι, πρόχειρον ἔχομεν.”

Tradução:

 

“[52.1] O primeiro e mais necessário tópico da filosofia é o da aplicação dos princípios, por exemplo: “Não sustentar falsidades”. O segundo é o das demonstrações, por exemplo: “Por que é preciso não sustentar falsidades?” O terceiro é o que é próprio para confirmar e articular os anteriores, por exemplo: “Por que isso é uma demonstração? O que é uma demonstração? O que é uma consequência? O que é uma contradição? O que é o verdadeiro? O que é o falso?” [52.2] Portanto, o terceiro tópico é necessário em razão do segundo; e o segundo, em razão do primeiro – mas o primeiro é o mais necessário e onde é preciso se demorar. Porém, fazemos o contrário: pois no terceiro despendemos nosso tempo, e todo o nosso esforço é em relação a ele, mas do primeiro descuidamos por completo. Eis aí porque, por um lado, sustentamos falsidades e, por outro, temos à mão como se demonstra que não é apropriado sustentar falsidades.”

 

São estes os caminhos na luta pela aquisição das virtudes, para os quais o caminho escolhido aqui, pelo autor dessa página, é o da Filosofia.

Uma boa reflexão acerca da nossa condição humana nos mostra que coisas que consideramos nossas, na verdade, são “empréstimos” da vida. Existencialmente, essa constatação não pode nos perturbar, nos tirar do nosso “local of control” ao “perdermos” coisas ou pessoas. Recomenda Epicteto e outras tradições filosoficas aqui indicadas que, na verdade, nós as estamos restituindo. Não possuímos nada; como disse acima, tudo nos foi emprestado pela Vida.

______.

ARRIANO FLÁVIO. O Encheirídion de Epicteto. Edição Bilíngue. Tradução do texto grego e notas Aldo Dinucci; Alfredo Julien. Textos e notas de Aldo Dinucci; Alfredo Julien. São Cristóvão. Universidade Federal de Sergipe, 2012)

BECK, Judith S. Terapia cognitiva: teoria e prática. Porto Alegre, RS, 2997.

DINUCCI, A.; JULIEN, A. O Encheiridion de Epicteto. Coimbra: Imprensa de Coimbra, 2014.

DINUCCI, A. Fragmentos menores de Caio Musônio Rufo; Gaius Musonius Rufus Fragmenta Minora. In: Trans/Form/Ação. vol.35 n.3 Marília, 2012.

______. Introdução ao Manual de Epicteto. 3. ed. São Cristóvão: EdiUFS, 2012.

______. Epictetus Discourses. Trad. Dobbin. Oxford: Clarendon, 2008.

______. Testemunhos e Fragmentos. Trad. Aldo Dinucci; Alfredo Julien. São Cristóvão: EdiUFS, 2008.

______. The Discourses of Epictetus as reported by Arrian; fragments: Encheiridion. Trad. Oldfather. Harvard: Loeb, 1928.  https://www.loebclassics.com/GALENO. Aforismos. São Paulo: E. Unifesp, 2010.

GALENO. On the passions and errors of the soul. Translated by Paul W . Harkins with an introduction and interpretation by Walter Riese. Ohio State University Press, 1963.

GAZOLLA, Rachel.  O ofício do filósofo estóico: o duplo registro do discurso da Stoa, Loyola, São Paulo, 1999.

HADOT, Pierre. The inner citadel: the meditations of Marcus Aurelius. London: Harvard University Press, 2001.

______. A filosofia como maneira de viver: entrevistas de Jeannie Carlier e Arnold I. Davidson. (Trad. Lara Christina de Malimpensa). São Paulo: É Realizações, 2016.

______. Exercícios espirituais e filosofia antiga. Trad. Flávio Fontenelle Loque, Loraine Oliveira. São Paulo: É Realizações, Coleção Filosofia Atual, 2014.

HANH, Thich Nhat. Meditação andando: guia para a paz interior. 21. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2000.

_____. Silêncio: o poder da quietude em um mundo barulhento. Rio de Janeiro, RJ: Harper Collins, 2018.

KARDEC, A. Le Livre des Esprits. Paris, Dervy-Livres, s.d. (dépôt légal 1985). (O Livro dos Espíritos. Trad. Guillon Ribeiro, ______. O livro dos Espíritos. 93. ed. - 1. reimpressão (edição histórica). Brasília, DF: Feb, 2013.

ROBERTSON, Donald. The Philosophy of Cognitive Behavioural Therapy (CBT): stoic philosophy as rational and Cognitive Psychotherapy. Londres  :Karnac Books, 2010.

______. Pense como um imperador. Trad. Maya Guimarães. Porto Alegre: Citadel Editora, 2020.

______. How to think Like a roman emperor: the stoic philosophy of Marcus Aurelius. New York: St. Martin's Press, 2019.

MARCO AURÉLIO. Meditações. São Paulo: Abril Cultural, 1973.

SELLARS, J. The Art of Living: The Stoics on the Nature and Function of philosophy. Burlington: Ashgate, 2003.

 

quarta-feira, 17 de março de 2021

MEDITAÇÃO RETROSPECTIVA NOTURNA XLIV: "AS PAIXÕES E OS ERROS DA ALMA"

 

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Ainda a "cura das paixões":

Começando a ler hoje. reforço na recuperação...

Já, há algum tempo, reconfigurando abordagens teóricas, repensando na "aplicação de princípios"; vivendo e aprendendo.

Decidi enfrentar um antigo texto de um grande sábio, tentando ampliar o enfoque existencial num constante treino e esforços na direção da reformulação dos hábitos (ethos); na “cura das paixões”, prossigo.

E, incluo, mais uma vez, tais treinos e esforços; pressupostos os exercícios, retirando de cada releitura de um dos livros Pierre Hadot, hoje, como já fiz aqui nessa página, algo que ele chamou de “exercícios espirituais”.

Anoto a divisão dos “exercícios” que ele atribuía à maneira de filosofar estoica, em dois grupos:

  •  aqueles que desenvolvem a consciência de si direcionados a uma visão exata do mundo, da natureza e, 
  • aqueles que são orientados para a paz e tranquilidade interior (Inner Citadel).

Portanto, neste sentido, acrescentando Epicteto, que nas Diatribes I.I.4 e no Encheiridion, recomenda os “exercícios” para o bom uso das representações, que se examine sempre e as teste antes de qualquer assentimento ou rejeição.

E, acrescento ainda, a estes "exercícios", a leitura deste texto de Galeno:

 


DINUCCI, A.; JULIEN, A. O Encheiridion de Epicteto. Coimbra: Imprensa de Coimbra, 2014.

DINUCCI, A. Fragmentos menores de Caio Musônio RufoGaius Musonius Rufus Fragmenta MinoraIn: Trans/Form/Ação. vol.35 n.3 Marília, 2012.

______. Introdução ao Manual de Epicteto. 3. ed. São Cristóvão: EdiUFS, 2012.

______. Epictetus Discourses. Trad. Dobbin. Oxford: Clarendon, 2008.

______. Testemunhos e Fragmentos. Trad. Aldo Dinucci; Alfredo Julien. São Cristóvão: EdiUFS, 2008.

______. The Discourses of Epictetus as reported by Arrian; fragments: Encheiridion. Trad. Oldfather. Harvard: Loeb, 1928.  https://www.loebclassics.com/GALENO. Aforismos. São Paulo: E. Unifesp, 2010.

______On the passions and errors of the soul. Translated by Paul W . Harkins with an introduction and interpretation by Walter Riese. Ohio State University Press, 1963.

GAZOLLA, Rachel.  O ofício do filósofo estóico: o duplo registro do discurso da Stoa, Loyola, São Paulo, 1999.

HADOT, Pierre. The inner citadel: the meditations of Marcus Aurelius. London: Harvard University Press, 2001.

______. A filosofia como maneira de viver: entrevistas de Jeannie Carlier e Arnold I. Davidson. (Trad. Lara Christina de Malimpensa). São Paulo: É Realizações, 2016.

______. Exercícios espirituais e filosofia antiga. Trad. Flávio Fontenelle Loque, Loraine Oliveira. São Paulo: É Realizações, Coleção Filosofia Atual, 2014.

KARDEC, A. Le Livre des Esprits. Paris, Dervy-Livres, s.d. (dépôt légal 1985). (O Livro dos Espíritos. Trad. Guillon Ribeiro, ______. O livro dos Espíritos. 93. ed. - 1. reimpressão (edição histórica). Brasília, DF: Feb, 2013.

OBERTSON, Donald. The Philosophy of Cognitive Behavioural Therapy (CBT): stoic philosophy as rational and Cognitive Psychotherapy. Londres  :Karnac Books, 2010.

______. Pense como um imperador. Trad. Maya Guimarães. Porto Alegre: Citadel Editora, 2020.

______. How to think Like a roman emperor: the stoic philosophy of Marcus Aurelius. New York: St. Martin's Press, 2019.

MARCO AURÉLIO. Meditações. São Paulo: Abril Cultural, 1973.

SELLARS, J. The Art of Living: The Stoics on the Nature and Function of philosophy. Burlington: Ashgate, 2003.


ALLISON INTERPRETA O IDEALISMO TRANSCENDENTAL DE IMMANUEL KANT

 

 

“This landmark book is now reissued in a new edition that has been vastly rewritten and updated to respond to recent Kantian literature. It includes a new discussion of the Third Analogy, a greatly expanded discussion of Kant’s Paralogisms, and entirely new chapters dealing with Kant’s theory of reason, his treatment of theology, and the important Appendix to the Dialectic.

Praise for the earlier edition:

“Probably the most comprehensive and substantial study of the Critique of Pure Reason written by any American philosopher. . . . This is a splendid book.”― Lewis White Beck”

...

“This masterful study . . . will most certainly join the canon of required reading for future interpreters of Kant’s theoretical philosophy. Superbly organized and lucidly written.”―Garrett Green, Journal of Religion

“Este livro (referência), agora é relançado em uma nova edição que foi amplamente reescrita e atualizada para responder à literatura kantiana recente. Inclui uma nova discussão da Terceira Analogia, uma discussão amplamente expandida dos Paralogismos de Kant e capítulos inteiramente novos que tratam da teoria da razão de Kant, seu tratamento da teologia e o importante Apêndice da Dialética.

“Provavelmente o estudo mais abrangente e substancial da Crítica da Razão Pura escrita por qualquer filósofo americano... Este é um livro esplêndido. ”- Lewis White Beck

“Este estudo magistral. . . certamente se juntará ao cânone de leitura obrigatória para futuros intérpretes da filosofia teórica de Kant. Soberbamente organizado e escrito com lucidez. ” - Garrett Green, Journal of Religion.”

Agora Lançado em Português: "O idealismo transcendental de Kant: interpretação e defesa."

"O objetivo central desta obra é reabilitar o idealismo sob uma forma aceitável para a filosofia contemporânea. Allison apresenta a epistemologia de Kant como uma ruptura radical com as filosofias de seus predecessores racionalistas e empiristas. Nessa leitura, por negar a sujeitos finitos como nós qualquer participação em uma hipotética visão divina, de lugar nenhum, das coisas, o idealismo kantiano reconfigura completamente as normas e as formas do conhecimento."

______.

ALLISON, Henry F. Kant`s Transcendental Idealism: an interpretation and defense. Yale University Press, 2004.

______. O idealismo transcendental de Kant: interpretação e defesa. Petrópolis, RJ: Vozes, 2024.

KANT, Immanuel. Crítica da razão pura. 3. ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbekian, 1994.

______. Dissertação de 1770. De mundi sensibilis atque inteligibilis forma et principio. Akademie-Ausgabe. Trad. Acerca da forma e dos princípios do mundo sensível e inteligível. Trad., apres. e notas de L. R. dos Santos. Lisboa: Imprensa Casa da Moeda. FCSH da Universidade de Lisboa, 1985.

______. Prolegômenos a qualquer metafísica futura que possa apresentar-se como ciência. Trad. José Oscar de Almeida Marques. São Paulo: Estação Liberdade, 2014)

______. Prolegômenos a toda metafísica futura. Lisboa: Edições 70, 1982,

terça-feira, 16 de março de 2021

MEDITAÇÃO RETROSPECTIVA NOTURNA XLIII: “PASSOS PARA MODIFICAR OS DESEJOS” NO ESTOICISMO E NA TCC (II)

 

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Relendo antigas anotações:

"Tornar-se um estudante de filosofia na antiguidade não significava meramente aprender uma série de argumentos complexos ou o engajamento no debate intelectual. Antes, envolvia o engajamento em um processo de transformar o caráter (ethos) e a alma (psique), uma transformação que por sua vez transformaria o modo de vida (bios) do indivíduo." (SELLARS, 2003, p. 23)

Ainda segundo Sellars, Epictetus, por exemplo, descreve a filosofia da seguinte maneira: 

A filosofia não promete obter qualquer coisa exterior para o homem, pois se o fizesse ela estaria admitindo algo que se encontra fora de seu material apropriado (hules). Pois assim como a madeira é o material (hule) do carpinteiro, e o bronze o do estatuário, também a própria vida de cada indivíduo (ho bios autou hekastou) é o material da arte de viver (tes peri bion technes). (EPICTETUS, Discursos 1.15.2, apud SELLARS, 2003, p. 56)

Então, em meio a tanta confusão, momentos de profunda tristeza, donde sempre nos recuperamos e nos colocamos a pensar no hábito a que tantos se deixam seduzir (eu mesmo me deixei levar noutro tempo): do pessimismo, por um lado e do extremo esforço em "mudar o mundo" por outro lado.

Ora, na empreitada a que me dedico há algum tempo, é fundamental esquecer pessimismos e o desejo de mudar o que nos é externo, que está fora do nosso alcance. Como tenho postado aqui, e pratico: "medito andando" e decidi, há alguns anos, aprofundar sistematicamente uma intensa busca por "eustatheia" (tranquilidade) e "euthymia" (crença em si). É projeto em andamento “há séculos” que às vezes por descuido, foi interrompido. Mas, retomando sigo o conselho sugerido pelos estoicos; mais especificamente Sêneca, Epictetus e Marco Aurélio; entre os que vou acrescentando à medida que sigo nos estudos sobre o tema!

Sobre a mudança de hábitos antigos por novos hábitos (mais saudáveis), trabalho incessante e necessário. É bastante caraterística a reflexão proposta por Epictetus em relação ao hábito e o habituar-se a determinadas ações, segundo ele, estreitamente ligadas aos aspectos mentais de cada indivíduo. A preocupação sempre notada na leitura que se faz de sua obra, como acima, é a distinção entre o que é interno (encargos nossos) e o que é externo (não são encargos nossos), conforme (EPICTETUS, em Encheiridion, I.

Ou seja, não é necessário o reconhecimento nas opiniões alheias, mas nas próprias opiniões. Importante aqui, os hábitos novos entre os quais se refere: o autodomínio (enkrateia), a perseverança (karteria) e à paciência (anexikakia) também extraído do Encheirídion:

“Quanto a cada uma das coisas que sucedem contigo, lembra, voltando a atenção para ti mesmo, de buscar alguma capacidade que sirva para cada uma delas. Caso vires um belo homem ou uma bela mulher, descobrirás para isso a capacidade do autodomínio. Caso uma tarefa extenuante se apresente, descobrirás a perseverança. Caso a injúria, a paciência. Habituando-te desse modo, as representações não te arrebatarão.”

Ao voltar-se para si, é imperativo que se adote novos hábitos, mas contrários ao mero vício. O que se obtém de tais conselhos é que, estando ciente de que deseja a mudança, de que o vício incomoda, deve-se mudar de direção. Epictetus chega a propor que quem não se opõe a antigos hábitos, quem não os supera nem se torna filósofo.

É só uma reflexão pessoal. Mas, muito a fazer!

E, este é o livro de John Sellars, citado:









Para saber mais:

“It is a commonplace to say that in antiquity philosophy was conceived as a way of life or an art of living, but precisely what such claims amount to has remained unclear. If ancient philosophers did think that philosophy should transform an individual's way of life, then what conception of philosophy stands behind this claim? John Sellars explores this question via a detailed account of ancient Stoic ideas about the nature and function of philosophy. He considers the Socratic background to Stoic thinking about philosophy and Sceptical objections raised by Sextus Empiricus, and offers readings of late Stoic texts by Epictetus and Marcus Aurelius. Sellars argues that the conception of philosophy as an 'art of living', inaugurated by Socrates and developed by the Stoics, has persisted since antiquity and remains a living alternative to modern attempts to assimilate philosophy to the natural sciences. It also enables us to rethink the relationship between an individual's philosophy and their biography. The book appears here in paperback for the first time with a new preface by the author.”

SOBRE O AUTOR:

John Sellars is Senior Lecturer in Philosophy at the University of the West of England, in Bristol, and a member of Wolfson College, Oxford.


_____.

DINUCCI, A.; JULIEN, A. O Encheiridion de Epicteto. Coimbra: Imprensa de Coimbra, 2014.

DINUCCI, A. Fragmentos menores de Caio Musônio Rufo; Gaius Musonius Rufus Fragmenta MinoraIn: Trans/Form/Ação. vol.35 n.3 Marília, 2012.

______. Introdução ao Manual de Epicteto. 3. ed. São Cristóvão: EdiUFS, 2012.

______. Epictetus Discourses. Trad. Dobbin. Oxford: Clarendon, 2008.

______. Testemunhos e Fragmentos. Trad. Aldo Dinucci; Alfredo Julien. São Cristóvão: EdiUFS, 2008.

______. The Discourses of Epictetus as reported by Arrian; fragments: Encheiridion. Trad. Oldfather. Harvard: Loeb, 1928.  https://www.loebclassics.com/

GALENO. Aforismos. São Paulo: E. Unifesp, 2010.

______. On the passions and errors of the soul. Translated by Paul W . Harkins with an introduction and interpretation by Walter Riese. Ohio State University Press, 1963.

GAZOLLA, Rachel.  O ofício do filósofo estóico: o duplo registro do discurso da Stoa, Loyola, São Paulo, 1999.

HADOT, Pierre. The inner citadel: the meditations of Marcus Aurelius. London: Harvard University Press, 2001.

______. A filosofia como maneira de viver: entrevistas de Jeannie Carlier e Arnold I. Davidson. (Trad. Lara Christina de Malimpensa). São Paulo: É Realizações, 2016.

______. Exercícios espirituais e filosofia antiga. Trad. Flávio Fontenelle Loque, Loraine Oliveira. São Paulo: É Realizações, Coleção Filosofia Atual, 2014.

HANH, Thich Nhat. Meditação andando: guia para a paz interior. 21. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2000.

______. Silêncio: o poder da quietude em um mundo barulhento. Rio de Janeiro, RJ: Harper Collins, 2018.

HUIZINGA, Johan. Nas sombras do amanhã: um diagnóstico da enfermidade espiritual de nosso tempo . - Trad. Sérgio Marinho, Goiânia-GO: Editora Caminhos, 2017.

INWOOD, Brad. Reading Seneca: stoic philosophy at Rome. Oxford, Reino Unido: Clarendon Press, 2005.

IRVINE, William B. A Guide to the Good Life: the ancient art of Stoic joy. New York: Oxford University Press, 2009.

KARDEC, A. Le Livre des Esprits. Paris, Dervy-Livres, s.d. (dépôt légal 1985). (O Livro dos Espíritos. Trad. Guillon Ribeiro, ______. O livro dos Espíritos. 93. ed. - 1. reimpressão (edição histórica). Brasília, DF: Feb, 2013.

LEBRUN, Gérard. O conceito de paixãoIn: NOVAES, Adauto (org.). Os sentidos da paixão. São Paulo: Cia. das Letras, 1987.

ROBERTSON, Donald. The Philosophy of Cognitive Behavioural Therapy (CBT): stoic philosophy as rational and Cognitive Psychotherapy. Londres  :Karnac Books, 2010.

______. Pense como um imperador. Trad. Maya Guimarães. Porto Alegre: Citadel Editora, 2020.

______. How to think Like a roman emperor: the stoic philosophy of Marcus Aurelius. New York: St. Martin's Press, 2019.

SÊNECA, Lúcio Aneu. Cartas a Lucílio. 5. ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbekian, 2014.

____. Sobre a clemência. Introdução, tradução e notas de Ingeborg Braren. Petrópolis, RJ: Vozes, 2013.

____. Sobre a ira. Sobre a tranquilidade da alma. Tradução, introdução e notas de José Eduardo S. Lohner. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2014.

____. Tragedies I: Hercules, Trojan women, Phoeniciam women, Medea, Phaedra. Tradução de J. G. Fitch. Cambridge, EUA: Harvard University Press, 2002.  https://www.loebclassics.com/.

____. Tragedies II: Oedipus, Agamemnon, Thyestes, Hercules on Oeta, Octavia. Tradução de J. G. Fitch. Cambridge, EUA: Harvard University Press, 2004.  https://www.loebclassics.com/.

____. Moral Essays. Tradução de John W. Basore. Cambridge, EUA: Harvard University Press, 1985.  https://www.loebclassics.com/.

______. Sobre a brevidade da vida. Porto Alegre, RS: L&PM, 2007.

MARCO AURÉLIO. Meditações. São Paulo: Abril Cultural, 1973.

SELLARS, J. The Art of Living: The Stoics on the Nature and Function of philosophy. Burlington: Ashgate, 2003.

segunda-feira, 15 de março de 2021

REFLEXÃO MATINAL LXXIII: “PASSOS PARA MODIFICAR OS DESEJOS” NO ESTOICISMO E NA TCC

 


Foi essa a "meditação matinal" de hoje. 

Ao prokopton:

“Então, almejando coisas de tamanha importância, lembra que é preciso que não te empenhes de modo comedido, mas que abandones completamente algumas coisas e, por ora, deixes outras para depois. Mas se quiseres aquelas coisas e também ter cargos e ser rico, talvez não obtenhas estas duas últimas, por também buscar as primeiras, e absolutamente não atingirás aquelas coisas por meio das quais unicamente resultam a liberdade e a felicidade (EPICTETOEncheiridion. I,4).”

Par as meditações de hoje, tomei como base parte da obra Meditações“, do imperador Marco Aurélio; Livro IV. Escritas em 167 d.C., Marco Aurélio (121-180), em 12 livros com máximas direcionadas a reflexões sobre o autoconhecimento; sobre crescimento pessoal, acrescentando excerto de Epicteto, Pierre Hadot, Donald Rbertson.

“‘Ocupa-te de pouco’, diz ele, ‘para viveres satisfeito’  Não será melhor, afinal, ocupar-se do necessário e de tudo que a razão do vivente sociável por natureza decide e como o decide? Isso traz não só a satisfação do dever cumprido mas também a de ocupar-se de pouco. Se eliminarmos a maior parte de nossas palavras e ações, não farão falta, e nos sobrarão mais lazeres e sossego. Deves, por isso, de cada vez, lembrar a ti mesmo: Não será isto uma das coisas dispensáveis? Aliás, devemos eliminar não só os atos mas também os pensamentos desnecessários, pois assim tampouco os seguirão os atos que acarretam.”

E, ainda na esteira dos chamados “exercícios espirituais”, propostos por Hadot (2001), ligados ao que encontramos, em certa medida, com cuidado, na obra dos estoicos e de Epicteto: do “exercício da consciência de si", como um “exercício da atenção” a si mesmo. Em “Diatribes. Livro IV. XII), o capítulo inteiro é sobre a atenção (prosoché- περί προσοχῆς).

Foi neste sentido, minha “reflexão matinal” de hoje, que só anotei agora aqui no Blog. retomo ideias de um outro texto, que escrevi aqui no Blog. A anterior foi sobre a prosoché: uma “prática que silencia o ruído que existe dentro de nós”. Tantas "coisas podem nos distrair" Não são poucas as vezes em que nos deixamos arrastar pelo que já aconteceu num remoto passado ou por algo que não aconteceu ainda e, às vezes ne acontecerá. Prendemo-nos às "velhas memórias e experiências”.

Mais uma vez, reforçando para releitura e constantes "exercícios": se quisermos, portanto, mudar nossos desejos”, devemos criar uma nova atmosfera interior. Como prioridade devemos encontrar um espaço de tranquilidade interior, aprendermos mais sobre nós mesmos. Isso exige de nós e inclui tentar reconhecer e compreender nossos limites.

E,

“[LII.1] O primeiro e mais necessário tópico da filosofia é o da aplicação dos princípios, por exemplo: “Não sustentar falsidades”. O segundo é o das demonstrações, por exemplo: “Por que é preciso não sustentar falsidades?” O terceiro é o que é próprio para confirmar e articular os anteriores, por exemplo: “Por que isso é uma demonstração? O que é uma demonstração? O que é uma consequência? O que é uma contradição? O que é o verdadeiro? O que é o falso?” [LII.2] Portanto, o terceiro tópico é necessário em razão do segundo; e o segundo, em razão do primeiro – mas o primeiro é o mais necessário e onde é preciso se demorar. Porém, fazemos o contrário: pois no terceiro despendemos nosso tempo, e todo o nosso esforço é em relação a ele, mas do primeiro descuidamos por completo. Eis aí porque, por um lado, sustentamos falsidades e, por outro, temos à mão como se demonstra que não é apropriado sustentar falsidades

Como já disse acima, refleti aqui mesmo, no texto anterior,  e retorno à ideia de Pierre Hadot, para mais uma vez acrescentar reflexões sobre a “relação” entre “estoicismo e TCC”, anotando as "técnicas” da TCC, a partir das propostas de Ronald Robertson:

Enfim, no início deste texto, o que eu pretendia, basicamente, era anotar algumas ideias a partir de leitura de obras de Robertson (2020, p. 145-161 – Passos para modificar os desejos”), sobre essa relação estoicismo e TCC. Acrescentei aqui, alguns pontos em que o autor discute a importância que ele vê na Terapia Cognitivo-comportamental e por que os "psicoterapeutas modernos" deveriam ocupar-se mais com filosofia, especialmente filosofia antiga? E, por que os filósofos deveriam interessar-se por psicoterapia?

Para Robertson, portanto, há vários elementos de contato entre as duas áreas, ainda que bastante distintas entre si e que sem dúvidas, nem sempre foi clara tal distinção. Considera que, ao reconsiderar a sabedoria geralmente recebida sobre a história desses assuntos intimamente relacionados, podemos aprender muito sobre filosofia e psicoterapia, inclusive sobre concepções como "auto-ajuda" e "desenvolvimento pessoal". 

Portanto, o meu interesse pela obra de Donald Robertson e demais autores que citei brevemente, está totalmente ligado a essa relação entre as duas propostas e suas técnicas, as quais tenho estudado nos escritos da TCC em geral e nos Estoicos. A reflexão, então, pela manhã foi uma retomada da questão “passos para mudar os desejos” (Robertson, 2020, p. 145-149).

Primeira anotação recomenda:

“[...] você deve avaliar cuidadosamente seus hábitos e desejos em termos gerais: quando essas atividades realmente contribuem para sua felicidade no longo prazo ou pra sua satisfação com a vida?”

E, recomenda os seguintes passos:

  1. Avalie as consequências de seus hábitos e desejos para selecionar quais mudar.
  2. Identifique sinais de alerta iniciais para que você possa cortar desejos problemáticos pela raiz.
  3. Obtenha distância cognitiva separando seus sentimentos da realidade externa.
  4. Faça outra coisa e vez de praticar o hábito.
“[...] Reflita como você pode introduzir outras fontes de sentimentos positivos e saudáveis”

  1. Planeje novas atividades que sejam coerentes com seus valores íntimos.
  2. Contemple as qualidades que você adira nas outras pessoas.
  3. Pratique a gratidão pelas coisas que você já tem na vida.
Robertson (2020, p. 149), também lembra que “[...] os estoicos gostavam de dividir as decisões em dicotomias simples.” Por exemplo, em “escolha de Hércules (p. 127-129), da mesma forma, há dois caminhos a seguir:

  1. O caminho do vício, ou seguir desejos excessivos e emoções irracionais.
  2. O caminho da virtude, ou exercer a autodisciplina e seguir a razão e os seus valores verdadeiros na vida.

Esforço e prática constantes na condução dos estudos para, cada vez mais internalizar a convicção que a nossa real felicidade depende de uma escolha nossa, jamais de coisas externas. Dos acontecimentos externos, quase nada está sob nosso controle, portanto, nas adversidades, devido à não disciplina em termos de prosoché. Afastamo-nos da lei natural e adotamos julgamentos bastante equivocados sobre os eventos à nossa volta.

Treino e esforço, doravante, é necessário, na retomada da direção, de retorno à Lei. Só assim volveremos às bases mais sólidas para reformulação do nosso comportamento e,  como consequência, qualificaremos nossos hábitos. Sempre atentos e vigilantes, o prokopton sabe o que quer fazer a cada instante e, compreende o que está sob seu controle e o que não está. Viverá, assim, sua vida: tranquilamente. Neste caminho, tenhamos em mãos, palavras como as de Marco Aurélio:

“Os médicos têm sempre à mão os instrumentos e ferros para os casos imprevistos; assim tenhas tu perto os preceitos com que possas conhecer as coisas divinas e humanas e proceder em tudo, mesmo nos mínimos atos, como quem não esquece os liames mútuos destas ou daquelas” (Marco Aurélio, Meditações, III, 13).”

Dado, portanto, que o prokopton, ideia dos estoicos que já estudei aqui na página e é fundamental para a continuidade de quem está sempre a aprender, veja na filosofia dos estoicos, neste caso, uma arte de viver bem, para afastar-se dos "males", da desordem, da influência das paixões, dos desejos desequilibrados, e dos medos exagerados e injustificáveis.

A quem se pretenda dedicar a esse roteiro, fácil será perceber desde que se decida, que o homem é infeliz à medida que se empenha tresloucadamente na conquista de bens exteriores, que não pode alcançar e por fugir cegamente de “males” que são naturalmente inevitáveis. Ou seja, devemos aprender a ter autocontrole para que as coisas interiores nos façam mais bem que as exteriores que desejamos.

“As virtudes da coragem e da moderação melhoram nosso caráter e nossas vidas de modo geral quando são praticadas com sabedoria, enquanto a maioria das coisas que almejamos nos proporciona apenas prazer passageiro” (Robertson, 2020, p.148)

É esse sentido que Robertson destaca a pergunta dos terapeutas dirigidas a seus clientes: “Como estão indo as coisas em longo prazo”.

Aqui, segundo os estoicos e que refletimos essa manhã, em conjunto com ténicas de TCC, é necessário uma mudança no modo de olhar o mundo e nas ações, uma conversão: metanoia.

E, o caminho é reeducarmo-nos na busca do Bem que está ao alcance de cada um, para que, daí descubra que o que lhe sucede não é necessariamente um mal a paralisá-lo. Haverá o que lhe foge ao controle, como lemos em (Epicteto. Encherídion, I, 1). Isso é o que exige de cada um:  e por isso, o esforço, prática e “exercício” no que está sob seu controle: o interior. Esse o trabalho imediato. O que é exterior está para além do nosso controle.

Uma boa reflexão a ser feita mais vezes...

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BIBLIOGRAFIA E SUGESTÕES DE LEITURA

 

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 III SEMINÁRIO INTERNACIONAL DE FILOSOFIA – MEMÓRIA E FINITUDE - UFMG

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