terça-feira, 3 de março de 2026

REFLEXÃO VESPERTINA CLXII: O ENSINO DA ÉTICA E O ANEL DE GIGES (III)

 

Desenvolvendo...

Em grande medida, faço aqui, algumas anotações breves sobre a leitura de hoje. Nos textos lidos e relidos foi possível apesar de diversidade de abordagens perceber a importância das discussões ainda atualmente sobre "O que é Justiça", no Górgias; "O ensino da virtude" a partir do "Anel de Giges"

Revisitando esses temas acrescentando, portanto,  algumas anotações e utilizando novas referências!

1. A partir de releitura da Crítica da razão prática e da Metafísica dos costumes, principalmente a Parte segunda que trata da Doutrina da virtude. Estudando atentamente o capítulo mas, para esse texto, vou focar na Doutrina do métodos da ética, com especial atenção nos itens: “O ensino ético” e a “Ascese ética”

Ponto de partida:

Que a virtude tenha de ser adquirida (que não seja inata) é algo dado já em seu próprio conceito, sem que seja necessário referir-se a conhecimentos antropológicos provenientes da experiência. Pois a faculdade moral do homem não seria virtude se não fosse produzida por meio da firmeza de propósito na luta contra tão poderosas inclinações conflituosas. A virtude é o produto da razão prática pura, na medida em que esta, na consciência de sua superioridade (pela liberdade), adquire supremacia sobre aquelas.

Que a virtude possa e tenha de ser ensinada decorre de ela não ser inata, assim, a doutrina da virtude [Tugendlehre] é objeto de ensinamento. Entretanto, como a força para praticar as regras não é adquirida por meio do mero ensino sobre como devemos nos comportar para nos adequarmos ao conceito da virtude, os estoicos pensavam que a virtude não pode ser ensinada por meio de meras representações do dever, por meio de exortações (por paranese), mas tem de ser cultivada por meio da tentativa de combater o inimigo interior do homem (asceticamente), tem de ser exercitada; porque não se pode de imediato tudo o que se quer se antes não se tiver exercitado e praticado as próprias forças, mas para isso, certamente, tem-se de tomar a decisão completamente e de uma vez por todas, pois, do contrário, a intenção [Gesinnung] (animus), com uma capitulação com o vício para dele se afastar gradualmente, seria em si impura e mesmo viciosa, portanto, tampouco produziria virtude alguma (enquanto aquela que assenta em um princípio único).”

2. A reflexão aqui proposta é uma continuação de uma outra, iniciada em salas de aula, durante alguns anos, com o texto, também de Platão, o "Ménon" (70a - 74b), sobre o que é virtude (areté) e se esta pode ser "ensinada" ou é "inata". Sócrates e Ménon discutem sobre esta questão. 

A tentativa de aproximação entre dois textos de Platão, o "Ménon" e este, apresentado abaixo; "O anel de Giges", retirado da "República", (livros II e III) visa uma  reflexão, mais especificamente, sobre a prática da "Virtude".

Diferente de se pensar se é inata ou adquirida, a questão agora, no "Anel de Giges", é pensar se, sob certas condições, os homens agem em oposição ao que se espera de cada um.

Trata-se de Platão, na sua obra "A República" (Livro II e III, principalmente em 359b - 360a): "O mito do Anel de Giges" - em que se discute se "os homens só são justos porque temem o castigo. A conduta ética depende apenas do medo da punição?"

A partir do texto, reflitamos: 

"(359b-360a) Glauco: Vamos provar que a justiça só é praticada contra a própria vontade dos indivíduos e devido à incapacidade de se fazer a injustiça, imaginando o que se segue. Vamos supor que se dê ao homem de bem e ao injusto igual poder de fazer o que quiserem, seguindo-os para ver até onde os leva a paixão. Veremos com surpresa o homem de bem tomar o mesmo caminho que o injusto, este impulsionado a querer sempre mais, impulso que se encontra em toda natureza, mas ao qual a força da lei impõe limites. O melhor meio de testá-los da maneira como digo seria dar-lhes o mesmo poder que, segundo dizem, teve Giges, o antepassado do rei da Lídia. Giges era um pastor a serviço do então soberano da Lídia. 

Devido a uma terrível tempestade e a um terremoto, abriu-se uma fenda no chão no local onde pastoreava o seu rebanho. Movido pela curiosidade, desceu pela fenda e viu, admirado, um cavalo de bronze, oco, com aberturas. E ao olhar através de uma das aberturas viu um homem de estatura gigantesca que parecia estar morto. O homem estava nu e tinha apenas um anel de ouro na mão. Giges o pegou e foi embora. Mais tarde, tendo os pastores se reunido, como de hábito, para fazer um relatório sobre os rebanhos ao rei, Giges compareceu à reunião usando o anel. Sentado entre os pastores, girou por acaso o anel, virando a pedra para o lado de dentro de sua mão, e imediatamente tornou-se invisível para os outros, que falavam dele como se não estivesse ali, o que o deixou muito espantado. Girou de novo o anel, rodando a pedra para fora, e tornou-se novamente visível. Perplexo, repetiu o feito para certificar-se de que o anel tinha esse poder e concluiu que ao virar a pedra para dentro tornava-se invisível e ao girá-la para fora voltava a ser visível. Tendo certeza disso, juntou-se aos pastores que iriam até o rei como representantes do grupo. Chegando ao palácio, seduziu a rainha e com a ajuda dela atacou e matou o soberano, apoderando-se do trono. Vamos supor agora que existam dois anéis como este e que seja dado um ao justo e outro ao injusto. Ao que parece não encontraremos ninguém suficientemente dotado de força de vontade para permanecer justo e resistir à tentação de tomar o que pertence a outro, já que poderia impunemente tomar o que quisesse no mercado, invadir as casas e ter relações sexuais com quem quisesse, matar e quebrar as armas dos outros. Em suma, agir como se fosse um deus. Nada o distinguiria do injusto, ambos tenderiam a fazer o mesmo e veríamos nisso a prova de que ninguém é justo porque deseja, mas por imposição. A justiça não é, portanto, uma qualidade individual, pois sempre que acreditarmos que podemos praticar atos injustos não deixaremos de fazê-lo.

De fato, todos os homens creem que a injustiça lhes traz individualmente mais vantagens do que a justiça, e têm razão, se levarmos em conta os adeptos dessa doutrina. Se um homem que tivesse tal poder não consentisse nunca em cometer um ato injusto e tomar o que quisesse de outro, acabaria por ser considerado, por aqueles que conhecessem o seu segredo, como o mais infeliz e tolo dos homens. Não deixariam de elogiar publicamente a sua virtude, mas para disfarçarem, por receio de sofrerem eles próprios alguma injustiça. Era isso o que tinha a dizer.”

...

Acrescento ainda, um livro de Eduardo Gianetti que li, mais uma vez, recentemente: 

Uma reflexão a um só tempo acessível e erudita sobre a diferença entre ser e parecer.

A fábula de Giges, presente no segundo livro da República de Platão, na qual um camponês encontra um anel capaz de lhe conceder o poder da invisibilidade, é o tema do mais novo livro de Eduardo Giannetti.

Em uma análise do experimento mental de se viver sem impedimentos ou censura social, O anel de Giges nos convida a pensar a natureza de nosso comportamento para além de leis e amarras morais. Para tal, Giannetti examina os ideais de plenitude e felicidade das tradições filosóficas ocidentais e como as diferentes escolas de pensamento ético ― de Platão ao cristianismo, de Kant ao utilitarismo ― reagiriam diante do desafio do anel.
Neste livro, o autor de Autoengano volta a encorajar o leitor a desconfiar de si mesmo e se questionar sobre suas atitudes enquanto espectador de sua própria vida em circunstâncias inusuais: o que você faria se o anel chegasse às suas mãos?

3. Reflexão: Eis, portanto, bons textos sugeridos para reflexão sobre nossas atitudes.

A principal questão: o que nós faríamos se tivessemos um tal anel? 

A nossa resposta nos colocaria em cheque sobre como agiríamos ou devessemos agir?

Ora, Giges se apossa de algo que não lhe pertence, em seguida, percebendo o repentino poder, se corrompe. Seu lado "ruim" vem à tona. Nas mesmas condições, faríamos diferente?

Com a "história" de Giges, refletiríamos sobre o que criticamos nos outros. Se já percebessemos tal "inclinação"; tentaríamos corrigir em nós?

No fim da obra, Platão diz que devemos ser justos, "com anel ou sem anel", que as nossas escolhas revelam o que há de obscuro no que somos (ou parecemos ser). Bom refletirmos sobre isso!

E é por isso, prosseguindo e aproximando da nossa pesquisa mais diretamente, anoto a partir da Crítica da razão prática e da Religião nos limites da simples razão:

A doutrina da Religião nos limites da simples razão.

Dialética da razão prática pura em geral. O Sumo Bem.

Supressão crítica da antinomia da razão prática.

Os postulados da razão prática pura em geral.

 “O ensino ético” e a “Ascese ética”

4. Aqui, apontamentos sobre a Justiça:

Vejamos, ainda sobre esses temas já estavam presentes também no Górgias, do Platão:

"[478d-e] Sócrates: …Considerando-se dois doentes, seja do corpo ou da alma, qual o mais infeliz: o que se trata e obtém a cura, ou aquele que não se trata e permanece doente?

Polo: Evidentemente, aquele que não se trata.

Sócrates: E não é verdade que pagar pelos próprios crimes seria a libertação de um mal maior?

Polo: É claro que sim.

Sócrates: Isso porque a justiça é uma cura moral que nos disciplina e nos torna mais justos?

Polo: Sim.

Sócrates: O mais feliz, porém, é aquele que não tem maldade na alma, pois ficou provado que esse é o maior dos males.

Polo: É claro.

Sócrates: Em segundo lugar vem aquele que dessa maldade foi libertado.

Polo: Naturalmente."

SÓCRATES. In: Górgias.

______.

GIANETTI, Eduardo. O anel de Giges. São Paulo: Companhia das Letras, 2020.

KANT, Immanuel. Lições de ética. Trad. Bruno Cunha e Charles Fedhaus. São Paulo: Editora Unesp, 2018.

______. Fundamentação da metafísica dos costumes. Trad. Guido A. de. São Paulo: Discurso editoria: Barcarola, 2009.

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______. A religião nos limites da simples razão. Edições 70, Lisboa, 1992.

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______. República. 3. ed. Belém, PA: EDUFPA. Trad. Carlos Alberto Nunes, 2000.

______. Górgias. Tradução, ensaio introdutório e notas de Daniel R. N. Lopes. São Paulo: Perspectiva, 2020.

Para aprendizado. Link do Vídeo "Anel de Giges": https://www.youtube.com/watch?v=QqB-s0nvdUs

______.

SUGESTÕES BIBLIOGRÁFICAS

ARRIANO FLÁVIO. O Encheirídion. Edição Bilíngue. Tradução do texto grego e notas Aldo Dinucci; Alfredo Julien. Textos e notas de Aldo Dinucci; Alfredo Julien. São Cristóvão. Universidade Federal de Sergipe, 2012).

BORBA, Alexandre Ziani de; LOPES, Arthur. (Orgs.) Virtudes e vícios da mente humana: uma antologia de ensaios sobre caráter intelectual. Cachoeirinha, RS. Editora Fi, 2024.

COELHO, Humberto Schubert. O pensamento crítico: história e método. Juiz de Fora, MG: Editora UFJF, 2022.

BORGES, Maria. Borges. Razão e emoção em Kant. Pelotas, RS: Editora e Gráfica Universitária, 2012.

______. Emotion, Reason, and Action in Kant. Bloomsbury Academic, 2019.

CÍCERO. On ends (The Finibus). Tradução de H. Rackham. Harvard: https://www.loebclassics.com, 1914.

CUNHA, Bruno. A gênese da ética em Kant. São Paulo: Editora LiberArs, 2017.

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_______. Oeuvres et lettres. Org. André Bidoux. Paris: Gallimard, 1953. (Pléiade).

______. Discursos do Método; Meditações metafísicas; Objeções e Respostas; As Paixões da Alma; Cartas. (Introdução de Gilles-Gaston Granger; prefácio e notas de Gerard Lebrun; Trad. de J. Guinsberg), Bento Prado J. 3. ed. São Paulo: Abril Cultural, 1983 (Os Pensadores).

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______. O Encheirídion de Epicteto. Trad. Aldo Dinucci; Alfredo Julien. São Cristóvão: EdiUFS, 2012. (Edição Bilíngue).

______. Testemunhos e Fragmentos. Trad. Aldo Dinucci; Alfredo Julien. São Cristóvão: EdiUFS, 2008.

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________. Górgias, Eutidemo, Hípias Maior e Hípias Menor. Trad. Edson Bini. Bauru, SP: EDIPRO, 2007.

________. Mênon. Trad. Maura Iglésias. Rio de Janeiro: Ed. PUC-RIO; São Paulo: Ed. Loyola, 2001.

________. Górgias, Protágoras. 3. ed. Trad. Carlos Alberto Nunes. Edição bilíngue; Belém, PA, 2021.

________. Mênon, Eutidemo. 3. ed. Trad. Carlos Alberto Nunes. Edição bilíngue; Belém, PA, 2021.

________. República de Platão. Trad. J. Guinsburg. São Paulo: Perspectiva, 2012.

________. Teeteto. Trad. Adriana Manuela Nogueira e Marcelo Boeri. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2010.

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ROWE, C. J. Plato. Phaedo. Cambridge Greek and Latin classics, 2001.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

REFLEXÃO MATINAL CXXII: PROHAIRESIS (ΠΡΟΑΊΡΕΣΙς)E AKRASIA (ἈΚΡΑΣΊΑ)

1.  2.
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Desenvolvendo...

Sobre a Prohairesis (προαίρεσις) e Akrasia (ἀκρασία)

Na obra de Epicteto podemos encontrar a definição de que um Bem maior que podemos buscar é a Prohairesis (προαίρεσις) faculdade de escolher racionalmente, a vontade, o caráter.

Aqui, inicio também uma pequena reflexão a partir da definição de Akrasia (ἀκρασία) que podemos pensar nela a partir do momento em que a prohairesis está perturbada por falsas impressões (phantasiai - φαντασίαι, na obra de Epicteto) de que algo externo a nós como a riqueza, o prazer, o medo da morte é de muito valor.

Isso, como consequência, faria com que a nossa "vontade enfraquece" impedindo o treinamento (exercício, segundo Hadot) em buscarmos  aquilo que está em nosso controle (Cf. Encheiridion). 

Assim, em meio a tantos revezes, cabe-nos prosseguirmos com os exercícios em andamento. Nisso, relembro Epicteto em (Diatribe III. XII. 3-4).

Nem toda dificuldade e perigo é adequada para o treino, mas apenas aquela que é conducente ao sucesso em atingir o objeto de nosso esforço. E qual é o objeto de nosso esforço? Agir sem impedimento na escolha e na aversão. E o que isso significa? Nem falhar em conseguir o que desejamos, nem cair naquilo que queremos evitar.”

Dado que estabelecido está, há algum tempo, que seria necessário e  constante o treino e os esforços, devemos insistir, na direção da reformulação dos hábitos (ethos),  prossigamos. 

Da releitura de Hadot, hoje, e sobre o que ele chamou de “exercícios espirituais”, anotamos a divisão dos exercícios estoicos em:

  • aqueles que desenvolvem a consciência de si direcionados a uma visão exata do mundo, da natureza e, 
  • aqueles que são orientados para a paz e tranquilidade interior (Inner Citadel).

Epicteto, nas Diatribes I.I.4 e no Encheiridion, recomenda os exercícios de bom uso das representações, que se examine e as teste antes de qualquer assentimento ou rejeição.

“Pois quando uma vez você concebe um desejo por dinheiro, se a razão for aplicada para trazer a você para a concepção de um mal, tanto as paixões se acalmam quanto o princípio governante [razão] é restaurado à sua autoridade original.”

Tal disciplina nos exercícios tem por meta equilibrar as emoções e, para Epicteto são fundamentalmente essenciais para a formação da alma.

O homem que se exercita contra tais representações externas é o verdadeiro atleta em treino. [...] Grande é a luta, divina é a tarefa; o prêmio é um reino, liberdade [ἐλευθερίας], serenidade [εὐροίας], paz [ataraxia].”

E, reafirma que é tarefa principal de quem pretenda reformular os hábitos:

"[...] se você tem uma febre da maneira certa, você desempenhará as coisas esperadas do homem que tem uma febre. O que significa ter a febre da maneira certa? Não culpar deus, ou homem, não ser esmagado pelo que acontece a você, esperar a morte bravamente, e da maneira certa, fazer o que é imposto sobre você.” (D. III.X.12-13)

Dadas tais recomendações, é perceptível para Epicteto que a disciplina e a adoção desses “exercícios” na busca de euroia, que a mudança dos hábitos a ponto de reformular a teoria em prática é processo lento e exige persistência. Por isso:

Primeiro digira seus princípios, e então você terá certeza de não vomitá-los. [...] Mas depois que você tenha digerido estes princípios, mostre-nos alguma mudança em seu princípio governante [razão] que é devido a eles.” (D. III.XXII.3)

A proposta, portanto, é de alcançarmos o controle sobre nossos julgamentos, nossas escolhas (προαίρεσις) e assentimentos. Esforço válido e imprescindível, escapando da Akrasia (ἀκρασία) !

______.

ARRIANO FLÁVIO. O Encheirídion. Edição Bilíngue. Tradução do texto grego e notas Aldo Dinucci; Alfredo Julien. Textos e notas de Aldo Dinucci; Alfredo Julien. São Cristóvão. Universidade Federal de Sergipe, 2012).

COELHO, Humberto Schubert. Genealogia do Espírito. Brasília, DF: 2012.

______. Filosofia perene: o modo espiritualista de pensar. São Paulo: Ed. Didier, 2014.

COELHO, Humberto Schubert. O pensamento crítico: história e método. Juiz de Fora, MG: Editora UFJF, 2022.

DESCARTES, René.  As paixões da alma. São Paulo: Martins Fontes, 1998

EPICTÉTE. Entretiens. Livre I, II, III, IV. Trad. Joseph Souilhé. Paris: Les Belles Lettres, 1956.

______. Epictetus Discourses. Trad. Dobbin. Oxford: Clarendon, 2008.

______. O Encheirídion de Epicteto. Trad. Aldo Dinucci; Alfredo Julien. São Cristóvão: EdiUFS, 2012. (Edição Bilíngue).

______. Testemunhos e Fragmentos. Trad. Aldo Dinucci; Alfredo Julien. São Cristóvão: EdiUFS, 2008.

______. The Discourses of Epictetus as reported by Arrian; fragments: Encheiridion. Trad. Oldfather. Harvard: Loeb, 1928.  https://www.loebclassics.com/

FRANKL, Viktor. O sofrimento humano: Fundamentos antropológicos da psicoterapia. Trad. Bocarro, Karleno e Bittencourt, Renato. Prefácio, Marino, Heloísa Reis. São Paulo: É Realizações, 2019.

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______. Um sentido para a vida: psicoterapia e humanismo. Aparecida, SP: Ideias e letras, 2005.

FREUD, Sigmund. Inibição. sintoma e angústia. São Paulo: Companhia das letras, 2014.

______. Inibição, sintoma e medo. Porto Alegre, RS: L&PM, 2018.

______. Die Träumdeutung. Hamburg: Nikol, 2011.

______. Interpretação dos sonhos. In: Obras completas. vol 4. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.

______. O mal-estar na civilização. São Paulo: Penguin/Companhia das Letras, 2011. 

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______. On the passions and errors of the soul. Translated by Paul W . Harkins with an introduction and interpretation by Walter Riese. Ohio State University Press, 1963.

GAZOLLA, Rachel.  O ofício do filósofo estóico: o duplo registro do discurso da Stoa, Loyola, São Paulo, 1999.

HADOT, Pierre. The inner citadel: the meditations of Marcus Aurelius. London: Harvard University Press, 2001.

HADOT, Pierre. The inner citadel: the meditations of Marcus Aurelius. London: Harvard University Press, 2001.

______. A filosofia como maneira de viver: entrevistas de Jeannie Carlier e Arnold I. Davidson. (Trad. Lara Christina de Malimpensa). São Paulo: É Realizações, 2016

______. Exercícios Espirituais e Filosofia Antiga. Trad. Flavio Fontenelle Loque e Loraine Oliveira. Prefácio de Davidson, Arnold. São Paulo: É Realizações, 2014.

HANH, Thich Nhat. Meditação andando: guia para a paz interior. 21. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2000.

JUNG, Carl Gustav. Civilização em transição. Petrópolis/RJ: Editora Vozes, 2011. (Obras completas, Vol. 10/3). 

______. Estudos psiquiátricos. 6. ed. Petrópolis/RJ: Editora Vozes, 2011. (Obras completas, Vol. 1)

______. Psicologia do inconsciente. Petrópolis/RJ: Editora Vozes, 2011. (Obras completas, Vol. 7/1).

______. O eu e o inconsciente. Petrópolis/RJ: Editora Vozes, 2011. (Obras completas, Vol. 7/2.)

______. Estudos experimentais. 6. ed. Petrópolis/RJ: Editora Vozes, 2011. (Obras completas, Vol. 2)

______. Psicogênese das doenças mentais. 6.ed. Petrópolis/RJ: Editora Vozes, 2011. (Obras completas, Vol. 3)

______. Freud e a psicanálise. 6. ed. Petrópolis/RJ: Editora Vozes, 2011. (Obras completas, Vol. 4)

______. Presente e futuro. 6. ed. Petrópolis/RJ: Editora Vozes,2011. (Obras completas, Vol. 10/1)

KANT, Immanuel. Observações sobre o sentimento do belo e do sublime. Ensaio sobre as doenças mentais. Papirus, Campinas, 1993.

______. Lições de ética. Trad. Bruno Cunha e Charles Feldhaus. São Paulo: Editora Unesp, 2018.

______. Crítica da razão prática. Trad. Valério Rohden. São Paulo: Martins fontes, 2002.

______. Fundamentação da metafísica dos costumes. Trad. Guido Antônio de Almeida. São Paulo: Discurso editorial, 2009.

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______. Antropologia de um ponto de vista pragmático. Tradução Clélia Aparecida Martins. São Paulo: Iluminuras, 2006.

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SCHELLING, F. W. J. Investigações Filosóficas sobre a essência da liberdade humana: e os assuntos com ela relacionados. Edições 70, 2018.

SEARLE, J. (1992). The rediscovery of mind: representation and mind. Bradford Book.

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SCRUTON, Roger. Freud e fraude. In: Contra a corrente. Lisboa: Edições 70, 2022. (pp. 154-156)

VELIQ, Fabiano. Oskar Pfster e a crítica à concepção freudiana de religiãoIn: Fractal: Revista de Psicologia, v. 30, n. 2, p. 161-165, maio-ago. 2018: Disponível em: https://doi.org/10.22409/1984-0292/v30i2/5503 . Acesso em: 29.11.205.

XAVIER, Leiserée Adriene Fritsch.  Kant a Freud: o imperativo categórico e o superego. José Ernani de Carvalho Pacheco (editor). Curitiba, PR:  Editora Juruá, 2009. 


domingo, 8 de fevereiro de 2026

ANOTAÇÕES SOBRE PERFECTIBILIDADE, DIGNIDADE HUMANA E AS PAIXÕES EM KANT

(IMAGEM: "Salomon Koninck: de Kluizenaar. ca. 1643. Gemäldegalerie Alte Meister, Dresden." In: Pinterest")

ANOTAÇÕES SOBRE DUAS QUESTÕES

1. "[...] o homem é obrigado a reconhecer praticamente a dignidade da humanidade em todos os outros homens, portanto, radica nele um dever que se refere ao respeito que se tem necessariamente de mostrar por todo outro homem.” (KANT, Metafísica dos Costumes, 462, §38)

E, recentemente li, uma obra que tenta responder algumas questões que de certa forma parecem não contempladas na discussão kantiana sobre o  da “dignidade humana”: Dignidade e Autonomia na Filosofia Moral de Kant” O autor tenta responder à questão sobre como aplicar as reflexões kantianas às reflexões atuais sobre pessoas com limitações físicas ou intelectuais. 

2. Uma reflexão. “Faça uma prática dizer a todas as impressões fortes: ‘Uma impressão é tudo o que você é’. Em seguida, teste e avalie com seus critérios, mas um principalmente: pergunte: ‘Isso é algo que está ou não está sob meu controle?’ E se não é uma das coisas que você controla, diga: ‘Então não é minha preocupação’. (EPICTETO. D. II, 18)

Portanto, cabe-nos concentrar a atenção no que está sob nosso controle, a Natureza cuida do que está longe do nosso poder.

3. E, SOBRE A PERFECTIBILIDADE

Ademais sobre essas buscas, acrescentei alguns trechos d "Antropologia de um ponto de vista pragmático" (KANT, 2006) sobre a perfectibilidade no ser humano:

“Desenvolvimento até a perfeição[1]

§25 d

Uma série contínua de representações sensíveis sucessivas e diferentes segundo o grau tem, se a seguinte é sempre mais forte que a anterior, um extremo de tensão (intensio): aproximar-se dele é estimulante, ultrapassá-lo, relaxante (remissio). No ponto, porém, que separa ambos estados está a acabamento (maximum) da sensação, que tem por conseqüência a insensibilidade, portanto, a falta de vida.

Se se quer manter viva a faculdade de sentir, não se deve começar pelas sensações fortes (pois estas nos fazem insensíveis para as seguintes), mas de preferência privar-se delas no início e administrá-las com parcimônia para poder ascender cada vez mais alto. O pregador começa, na introdução, com uma fria instrução do entendimento, que induz a tomar em consideração o conceito de um dever; insere então um interesse moral nas divisões de seu texto e termina, na aplicação, movendo todos os móbiles da alma humana mediante as sensações que podem dar ênfase àquele interesse.

Jovem homem! Evita a saciedade (da diversão, do excesso, do amor e semelhantes), se não com o propósito estóico de se abster completamente dela, ao menos com o fino propósito epicurista de ter a perspectiva de uma fruição sempre crescente. Essa parcimônia com o pecúlio de teu sentimento vital te fará realmente mais rico pelo retardamento do prazer, ainda quando no fim de tua vida devas ter renunciado em grande parte ao uso dele. A consciência de ter a fruição em seu poder é, como tudo o que é ideal, mais fecunda e muito mais ampla que toda satisfação dos sentidos porque esta é ao mesmo tempo consumida e, assim, subtraída à massa do todo.”

Das paixões § 80

possibilidade subjetiva do surgimento de um certo desejo, que precede a representação de seu objeto, é propensão (propensio); - a coação interna da faculdade de desejar para possuir esse objeto, antes de conhecê-lo, é instinto (como impulso de acasalamento ou impulso paternal dos animais de proteger suas crias etc.). - O desejo sensível que serve de regra (hábito) ao sujeito chama-se inclinação (inclinatio). - A inclinação pela qual a razão é impedida de comparar essa inclinação com a soma de todas as inclinações em vista de uma certa escolha, é a paixão (passio animi). Percebe-se facilmente que as paixões são altamente prejudiciais à liberdade, porque se deixam unir à mais tranqüila reflexão e, portanto, não devem ser inconsideradas como a afecção, nem tampouco turbulentas e passageiras, mas podem deitar raízes e coexistir mesmo com a argumentação sutil-, e se afecção é uma embriaguez, paixão é uma doença que tem aversão a todo e qualquer medicamento e, por isso, é muito pior que todas aquelas comoções passageiras da mente, que ao menos estimulam o propósito de se aperfeiçoar; ao contrário destas, a paixão é um encantamento que exclui também o aperfeiçoamento.

Designa-se a paixão com a palavra mania (ambição, sede de vingança, desejo de poder etc.), exceto a do amor, quando não se está enamorado. A causa é que esse último desejo simultaneamente cessa quando satisfeito (mediante o gozo), ao menos em relação à mesma pessoa, e portanto pode-se apresentar como paixão um estar apaixonadamente enamorado (enquanto a outra parte persiste na negativa), mas não o amor físico, porque este não contém um princípio constante em relação ao objeto. A paixão pressupõe sempre uma máxima do sujeito, de agir segundo um fim que lhe é prescrito pela inclinação. Está, portanto, sempre ligada à razão do sujeito: não se podem atribuir paixões aos meros animais nem tampouco aos puros seres racionais. Visto que nunca são plenamente satisfeitas, a ambição, a sede de vingança etc. fazem por isso mesmo parte das paixões, como doenças contra as quais só existem meios paliativos.”

Divisão das paixões [...] §81

Elas são divididas em paixões da inclinação natural (inatas) e paixões da inclinação procedentes da civilização dos seres humanos (adquiridas). As paixões do primeiro gênero são a inclinação à liberdade e a inclinação sexual, ambas ligadas a afecção. As do segundo gênero são a ambição, desejo de poder e cobiça, que não estão ligadas à impetuosidade de uma afecção, mas à persistência de uma máxima dirigida a certos fins. Aquelas podem ser denominadas inflamadas (passiones ardentes); estas, como a avareza, paixões frias (frigidae). Mas todas as paixões são sempre desejos dirigidos apenas de homens a homens, não a coisas, e sem dúvida se pode ter muita inclinação a utilizar um campo fértil ou uma vaca, mas não afecção (que consiste na inclinação à comunidade com outros), e muito menos uma paixão.”

homem diligente, deve portanto, lutar para evitar as oscilações da paixões.

Ademais:

“[...] ser humano pode exercer domínio sobre si mesmo se ele quiser?

Immanuel Kant, nas "Lições de ética", responde que:

"De fato, parece acontecer dessa forma, porque isso parece depender do homem. [...] Ora, o domínio sobre si mesmo depende da força do sentimento moral. Podemos muito bem nos autogovernar se enfraquecermos as forças opostas.

E, na Questão 909, no LE, lemos também:

Poderia sempre o homem, pelos seus esforços, vencer as suas más inclinações?

“Sim, e por vezes fazendo esforços bem pequenos. O que lhe falta é a vontade. Ah! Quão poucos dentre vós fazem esforços!

Grifo e destaques meus) 

______.

ARRIANO FLÁVIO. O Encheirídion. Edição Bilíngue. Tradução do texto grego e notas Aldo Dinucci; Alfredo Julien. Textos e notas de Aldo Dinucci; Alfredo Julien. São Cristóvão. Universidade Federal de Sergipe, 2012).

COELHO, Humberto Schubert. Genealogia do Espírito. Brasília, DF: 2012.

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COELHO, Humberto Schubert. O pensamento crítico: história e método. Juiz de Fora, MG: Editora UFJF, 2022.

DESCARTES, René.  As paixões da alma. São Paulo: Martins Fontes, 1998

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SILVA, Thiago Delaíde da. Dignidade e Autonomia na Filosofia Moral de Kant. Edições 70, 2022.



[1] KANT. Antopologia de um ponto de vista pragmático. 2006.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

SOBRE O CONCEITO DE PESSOA NA OBRA DE IMMANUEL KANT


Desenvolvendo...

Vemos que na obra de Immanuel Kant, o conceito de pessoa é central para a filosofia moral e jurídica, distinguindo-se fundamentalmente do conceito de "coisa" ou "ser humano apenas biológico". A pessoa é definida como um ser racional, autônomo e sujeito à lei moral, possuidor de uma dignidade incondicional. 

 

I. O conceito metafísico de pessoa. Crítica e apropriação do conceito de pessoa.

Kritik der reinen Vernunft. (KrV)

Terceiro paralogismo (341-406) - (A361ss. - B341-399)


II. O conceito moral de pessoa: fins em si mesmo e valor intrínseco.

(GMS II) - AA 4: 406-445.

(MS IV) - AA 6:223; #11.  6:434; #38. 6:462.


III. O conceito antropológico de pessoa.

(Religio ... I) AA 6:47-54. 6:26-28.

(Antroplogie... )#1 AA7:127ss.

Para saber mais:

Artigo do professor Edmison Menezes. Kant e a noção de pessoa:

Link: https://periodicos.pucpr.br/aurora/article/view/817/745

______.

KANT, Immanuel. Fundamentação da metafísica dos costumes. Trad. Guido A. de. São Paulo: Discurso editoria: Barcarola, 2009.

______. Lições de ética. Trad. Bruno Cunha e Charles Fedhaus. São Paulo: Editora Unesp, 2018.

______. Começo conjectural da história humana. São Paulo: Unesp, 2010. (p.80-81).

______. Ideia de uma história de um ponto de vista cosmopolita. São Paulo: Martins Fontes, 2004.

______. A religião nos limites da simples razão. Edições 70, Lisboa, 1992.

______. A religião nos limites da simples razão. Trad. Bruno Cunha. Petrópolis, RJ: Editora Vozes, 2024.

______.Vorlesung über die philosophische EncyclopädieInKant gesalmmelte Schriften, XXIX, Berlin, Akademie, 1980, pp. 8 e 12)

______. Textos pré-críticos. São Paulo: Editora Unesp, 2005.

______. Textos seletos. Petrópolis, RJ: Vozes, 2008.

______. Investigação sobre a clareza dos princípios da teologia e da moral. Lisboa: Imprensa Casa da Moeda, 2007.

______. Crítica da razão pura. 3. ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbekian, 1994.

______. Crítica da razão prática. Edição bilíngüe. Tradução Valerio Rohden. São Paulo: Martins Fontes, 2003.

____. Crítica da faculdade do juízo. Trad.Valerio Rohden e António Marques. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1993.

______. Dissertação de 1770. De mundi sensibilis atque inteligibilis forma et principio. Akademie-Ausgabe. Trad. Acerca da forma e dos princípios do mundo sensível e inteligível. Trad., apres. e notas de L. R. dos Santos. Lisboa: Imprensa Casa da Moeda. FCSH da Universidade de Lisboa, 1985.

______. Prolegômenos a qualquer metafísica futura que possa apresentar-se como ciência. Trad. José Oscar de Almeida Marques. São Paulo: Estação Liberdade, 2014).

______. Sobre a Pedagogia. Tradução de Francisco Cock Fontenella. Piracicaba, SP: Editora Unimep, 1996.

______. Sobre a Pedagogia. Petrópolis, RJ, Editora Vozes, 2021.

______. Antropologia de um ponto de vista pragmático. Tradução Clélia Aparecida Martins. São Paulo: Iluminuras, 2006.

______. Cursos de Antropologia: a faculdade de conhecer (Excertos). Seleção, tradução e notas de Márcio Suzuki. São Paulo: Editora Clandestina, 2017.

______. Resposta à pergunta: o que é “esclarecimento”?. In: Immanuel Kant textos seletos. Petrópolis, RJ: Vozes, 1985.

sábado, 31 de janeiro de 2026

ATUALIZANDO LEITURAS E ESTUDOS: DE KANT "PRÉ-CRÍTICO" A HEGEL (II)

       

Ainda estudando Immanuel Kant, mantendo o foco no percurso que tem início no período pré-crítico, passando demoradamente pelo período entre Kant e Hegel e, chegando à algumas questões e autores ligados ao denominado neokantismo ou neocriticismo e refletindo sobre essa abordagem como perspectiva filosófica desenvolvida na Alemanha, aproximadamente entre os anos 1860 a 1914, para entender as ideias em geral no período e o retorno às ideias mesmas de Kant em oposição a alguns autores do Idealismo.

Acrescento hoje esta obra que trata, especificamente, do "Eclipse da Moral e o nascimento do cinismo contemporâneo" entre os anos de 1807-1817:

A obra procura ater-se à organização do repertório que torna possível reformular o problema da moralidade nos novos tempos, ou seja, a passagem da idade Moderna para a Contemporânea, circunscrito na época em que a prosa crítica de Hegel atingiu a maturidade e o discurso moral passava da crise ao declínio. Na Fenomenologia do espírito e nas primeiras aulas que ministrou sobre filosofia do direito, Hegel desvendou a gênese de uma convergência entre a abstração moral, de origem kantiana, e abstrações de mais recente feitio, as que o processo de transição ao novo tempo ia produzindo em seu rastro. Pelos anos de 1807-1817, o filósofo alemão deu forma a uma micrologia bastante específica, onde se condensam as dinâmicas de moralidade e não-moralidade. Onde moralidade e não-moralidade só fariam negar-se ou repelir-se, Hegel investigou injunções, sondou compromissos, avaliou dissensões. E chegou a ensaiar o delineamento de micro figuras que melhor representassem ou ilustrassem a questão.

. ' .

"Eclipse da Moral: Kant, Hegel e o nascimento do cinismo contemporâneo", de Silvio Rosa Filho, analisa o declínio da moralidade moderna entre 1807-1817, argumentando que a abstração da moral kantiana, ao encontrar a realidade histórica, converteu-se em cinismo. A obra foca em como Hegel, na Fenomenologia do Espírito, desvenda essa transição da crise moral para o cinismo atual. 

Pontos principais da obra:

Crise da Moralidade Moderna: O livro aborda a passagem da Idade Moderna para a Contemporânea, marcada pelo declínio do discurso moral.

Crítica a Kant: Hegel identifica um dualismo no pensamento kantiano (sujeito/objeto) e aponta que a moralidade abstrata de Kant falha em se realizar concretamente.

Nascimento do Cinismo: A moralidade, ao se tornar abstrata e idealizada (Kant), passa a ser ignorada ou manipulada na prática, gerando o cinismo contemporâneo.

Hegel e a Eticidade: Hegel propõe a superação da moralidade subjetiva (Kant) pela moralidade objetiva (eticidade), mediada pelas instituições, conforme discutido em suas análises.

Micrologia da Moralidade: O autor investiga como Hegel, no período de 1807-1817, analisou as dinâmicas entre moralidade e não-moralidade, delineando micro figuras que representam essa transição. 

O livro é descrito como uma análise da "microfísica" das relações morais e da inversão da moral kantiana.” (Texto extraído do Google)

. ' .

RESENHA:

200 ANOS DE CINISMO

https://agencia.fapesp.br/200-anos-de-cinismo/12411#:~:text=Em%20Eclipse%20da%20moral%2C%20S%C3%ADlvio%20Rosa%20Filho%2C,a%20partir%20de%20invers%C3%B5es%20da%20moral%20kantiana.

______.

ROSA FILHO, Silvio. Eclipse da Moral: Kant, Hegel e o nascimento do cinismo contemporâneo”. São Paulo: Ed. Barcarola, 2010.

 BAVARESCO, Agemir Bavaresco; TAUCHEN, Jair Tauchen; PONTEL, Evandro Pontel (Orgs.). De Kant a Hegel: Leituras e atualizações. - Porto Alegre, RS: Editora Fi, 2019.

BECKENKAMP, Joãosinho. Entre Kant e Hegel. Porto Alegre: Edipucrs, 2004, 288 p.

CARVALHO, Marcelo; FIGUEIREDO, Vinìcius. Filosofia alemã de Kant a Hegel. (Org.). São Paulo : ANPOF, 2013. 770 p.

FERREIRO, Héctor; HOFFMANN, Thomas Sören; BAVARESCO, Agemir (Orgs.). Los aportes del itinerario intelectual de Kant a Hegel. Porto Alegre, RS, Editora Fi: EDIPUCRS, 2014. (Comunicaciones del I Congreso GermanoLatinoamericano sobre la Filosofía de Hegel. Português./Espanhol)

FERRY, Luc. Kant: uma leitura das três "Críticas". 3. ed. Rio de Janeiro: Difel, 2009.

GUYER, PAUL. The Cambridge companion to Kant. Cambrridge University Press, UK, 1992.

HÖFFE, Otfriede. Immanuel Kant. São Paulo: Martins Fontes, 2005.

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______. Kant: crítica da razão pura: os fundamentos da filosofia moderna. São Paulo: Edições Loyola, 2013.

KANT, Immanuel. Fundamentação da metafísica dos costumes. Trad. Guido A. de. São Paulo: Discurso editoria: Barcarola, 2009.

______. Textos pré-críticos. São Paulo: Editora Unesp, 2005.

______. Textos seletos. Petrópolis, RJ: Vozes, 2008.

______. Investigação sobre a clareza dos princípios da teologia e da moral. Lisboa: Imprensa Casa da Moeda, 2007.

KANT, Immanuel. Crítica da razão pura. 3. ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbekian, 1994.

______. Crítica da razão prática. Edição bilíngüe. Tradução Valerio Rohden. São Paulo: Martins Fontes, 2003.

____. Crítica da faculdade do juízo. Trad.Valerio Rohden e António Marques. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1993.

______. Dissertação de 1770. De mundi sensibilis atque inteligibilis forma et principio. Akademie-Ausgabe. Trad. Acerca da forma e dos princípios do mundo sensível e inteligível. Trad., apres. e notas de L. R. dos Santos. Lisboa: Imprensa Casa da Moeda. FCSH da Universidade de Lisboa, 1985.

______. Prolegômenos a qualquer metafísica futura que possa apresentar-se como ciência. Trad. José Oscar de Almeida Marques. São Paulo: Estação Liberdade, 2014)

______. Prolegômenos a toda metafísica futura. Lisboa: Edições 70, 1982.

NOVELLI, Pedro Geraldo Aparecido. In: Rev. Simbio-Logias. V.1, n.1, mai/2008.

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ROSA FILHO, Silvio. Eclipse da Moral: Kant, Hegel e o nascimento do cinismo contemporâneo”. São Paulo: Ed. Barcarola, 2010.


REFLEXÃO VESPERTINA CLXII: O ENSINO DA ÉTICA E O ANEL DE GIGES (III)

  Desenvolvendo... Em grande medida, faço aqui, algumas anotações breves sobre a leitura de hoje. Nos textos lidos e relidos foi possível ap...