segunda-feira, 12 de outubro de 2026

REFLEXÃO MATINAL CXLV: ÉTICA DAS VIRTUDES "SEELSORGE"(III)


 

“Recolhe-te a estas coisas mais tranquilas, mais seguras, melhores! [...] elevar-se às coisas sagradas e sublimes para conhecer qual é a substância de deus, seu prazer, sua condição, sua forma, que destino guarda a tua alma, que lugar a Natureza nos destina após nos separarmos do corpo [...].” (SÊNECA. Sobre a brevidade da vida, XIX, 1).

Tenho estudado bastante e publicado aqui, alguns temas de teor filosófico diverso, nos quais me exercito. São diversos entre si, mas preservam uma linha tênue de relação: “ética”, "filosofia da religião”, "Ética das virtudes", "herança kantiana", o “problema mente-corpo” e o “estoicismo”. Na verdade, publico-os aqui somente para manter salvos os textos e retomá-los num futuro com fins de correção e sistematização.

Esta foi, portanto, a reflexão matinal, antes da retomada e continuidade dos estudos cotidianos, de sempre.

São brevíssimos apontamentos  para me ajudar a memória na elaboração de um texto futuro. 

Nesse sentido, estou relendo o livro de COMTE-SPONVILLE, André. Pequeno tratado das grandes virtudes. São Paulo: Martins Fontes, 2009. 

“O objeto deste livro são as virtudes. Sem a pretensão de evocar todas elas, tampouco de esgotar uma em particular, o autor indica neste pequeno tratado - dirigido mais ao grande público que aos filósofos profissionais - as que julga mais importantes, o que são, ou o que deveriam ser, e o que as torna sempre necessárias e sempre difíceis.”

Tentando retornar a trabalho, recuperar atrasos e prosseguir! Também inserido oo projeto de  Serenidade [εὐροίας].

...

Prosseguindo a partir destas palavras, relendo também: 

GIKOVATE, Flávio. "Vício dos vícios: um estudo sobre a vaidade humana. São Paulo: MG Editores associados, 1987.

O prazer de se exibir, chamar a atenção e se destacar que é como a vaidade é definida pelo autor participa de todas as ações do ser humano e é parte essencial em todo tipo de interação social. O livro defende que a serenidade e a boa qualidade de vida só serão possíveis para aqueles que não se deixaram escravizar pela vaidade."

Não me surpreendi ouvindo o próprio autor (In memoriam) dizer que este livro foi um fracasso de vendas.

Primeiro, porque ataca um vício tão comum, que precisamos superar.

Em segundo lugar, porque defende uma tese bastante interessante, que me agrada porque contraria visões contemporâneas herdadas de um autor que estou estudando atentamente.

E, por último, por se tornar em mais uma ferramenta de estudos sobre as paixões e vícios no blog pessoal.

...

I. O que é virtude?

Tem sido comum as discussões sobre a virtude; não somente entre os estoicos, mas em meio à sociedade, em geral. E, não é raro que se ouçam dizer que o mundo atual tem se tornado tão vazio de sentido por não haver uma preocupação com essa questão. Nesse sentido, diria  Sêneca:

“A razão é igual à razão, tal como a rectidão é igual a si mesma; por conseguinte toda a virtude é igual à virtude, pois a virtude outra coisa não é senão a razão recta. Todas as virtudes são formas da razão; são formas da razão se forem todas rectas e se forem rectas são todas iguais. ” (LXVI.32)

Ou seja: “a virtude é a razão reta.”

E, então vejamos o tema das Virtudes.

Um dia desses, no entanto, sem sair da temática já apontada e que tem sido constante, publiquei aqui uma frase, como tenho feito, exercitando como já disse, a redação. Ainda que fosse só um exercício despretensioso na direção do aperfeiçoamento da escrita, a frase, bem curta e sem muito "ineditismo" reforçava uma postura contrária que mantenho em relação aos nocivos “modismos contemporâneos”, e quem me conhece sabe do que digo. A frase, a que me refiro e sustento serenamente, não com argumentos complexos, que aliás me agradam; mas por mera posição pessoal foi essa: "A essência não só precede à existência como ainda sobreviverá a ela." (MARQUINHOS, 2017)

II. A ela acrescento uma frase de Epictetus e avanço numa breve reflexão:

"Proteja o bem que existe em você em tudo o que você fizer, e no que diz respeito a todo o resto, receba o que lhe for dado enquanto puder fazer uso sensato. Se não puder, não terá sorte, estará propenso a falhar, perturbado e limitado." (Epictetus)

Para a típica forma de pensar e filosofar dos estoicos haveria, em nós, algo que se preserva em certa medida na execução do pensamento lógico universal, e dessa forma estaria garantida uma coerência e um equilíbrio que auxiliariam na tarefa de cada ser humano no exercício prático e constante de tornar-se a cada dia uma pessoa melhor; uma boa pessoa que segundo o que diz Epictetus, por haver uma essência esta deve ser preservada em nós como uma centelha interior que não pode se extinguir.

As nossas ações, no entanto, devem ser pensadas e direcionadas de certa forma ao bem comum sob pena de ela, para nós perder força e nos enfraquecer nos juízos que nos sejam pedidos acerca de decisões e sobre uma ou outra necessidade de tomar como certo ou verdadeiros atos do nosso cotidiano. Não havendo tal possibilidade de se estabelecer limites, haveria sim se os que, ultrapassando essas barreiras avançassem na ação que prejudicasse a outrem ou a si mesmos. Enfim, Epictetus, recomenda que não percamos essa nossa essência; que façamos o que é certo, o nosso dever.

E, também o imperador e filósofo Marco Aurélio teria escrito em suas Meditações: “Se não é certo, não faça. Se não é verdade, não diga”.

Interessa ressaltar aqui que mesmo sendo um imperador ele fazia esse tipo de ponderação; preservando-se distante do comum dos homens de seu tempo e assegurando a proteção da sua própria essência, similar ao pensamento de Epictetus, ressalte-se; nunca agindo sem estar certo nem faltando com a verdade.

É certo que ao ler este brevíssimo texto, alguém irá esbravejar sobre a questão da liberdade e da possibilidade de podermos fazer o que quisermos das nossas ações e vivermos cada um a sua própria vida do jeito e forma que achar melhor. O problema é atingirmos ou prejudicarmos alguém. Também alertando para o fato de que ao preservarmos aquela essência estaremos mantendo a nossa própria individualidade de forma que não se apague. Reafirma Marco Aurélio: "Meu único medo é fazer algo contrário à natureza humana ;  a coisa errada, do jeito errado, ou no momento errado." (Meditações. 7.20)

Uma reflexão que, com certeza, vou retomar, corrigir e aprofundar e que, recentemente, me levou mais diretamente a partir da Ética das virtudes, a alguns livros de Philippa Foot, que acabei de ler. Seu pensamento, de herança aristotélica, tem me ajudado a refletir sobre alguns tópicos em relação às Virtudes, um dos temas centrais nesta página. Acrescentei abaixo três dos livros dela que li recentemente e, com o tempo vou publicando aqui breves “resenhas” sobre alguns trechos que me interessaram mais de perto e pretendo retomar. A isso somarei mais tarde, obras mais recentes sobre os desdobramentos de suas pesquisas e seu pensamento nos dias atuais.

...

III. “Virtudes e vícios da mente humana: uma antologia de ensaios sobre caráter intelectual"

O caráter tem sido há muito um objeto de estudo filosófico, porém só recentemente tornou-se assunto da epistemologia. O estudo epistemológico do caráter salienta que as pessoas podem formar ao longo da vida bons ou maus hábitos intelectuais, tais como raciocinar de maneira cuidadosa, julgar de maneira apressada, manter crenças de maneira supersticiosa, avaliar as evidências de maneira honesta, conceber cenários hipotéticos de maneira criativa e observar com atenção. Tais hábitos se assemelham em alguma medida a hábitos morais, tais como generosidade, covardia e injustiça, pois parecem em alguma medida contribuir para que uma pessoa se torne uma pessoa melhor ou pior. Por exemplo, julgar outras pessoas de maneira apressada pode gerar atitudes negativas que prejudicam essas pessoas e, em muitos casos, formar crenças de maneira cética ou cuidadosa pode ser crucial para salvar a vida de alguém. Mas, além dessa repercussão moral, hábitos intelectuais contribuem ainda mais obviamente para que a pessoa se torne melhor ou pior de um ponto de vista epistêmico. Por exemplo, o hábito de conceber cenários hipotéticos de maneira criativa pode ser crucial para fazer com que alguém avance seu conhecimento, enquanto o hábito de selecionar as evidências de maneira desonesta pode impedir alguém de diminuir ou sair de sua condição de ignorância. Este livro é a primeira antologia em língua portuguesa a ter no caráter intelectual seu objeto de estudo, buscando elucidar as características psicológicas desses hábitos, sua relevância no contexto educacional e sua gênese social mais ampla. O livro tem em vista não apenas promover o estudo filosófico do caráter intelectual no cenário lusófono e latino- americano, mas também pretende pavimentar caminho para pesquisas interdisciplinares futuras no assunto.”

(Os Grifos e os Destaques são meus)

______.

ARRIANO FLÁVIO. As Diatribes de Epicteto. Livro I. Tradução, introdução e comentário Aldo Dinucci. Universidade Federal de Sergipe. Série Autores Gregos e Latinos Coimbra, Imprensa da universidade de Coimbra, 2020.

BORBA, Alexandre Ziani de; LOPES, Arthur. (Orgs.) Virtudes e vícios da mente humana: uma antologia de ensaios sobre caráter intelectual. Cachoeirinha, RS. Editora Fi, 2024.

COELHO, Humberto Schubert. O pensamento crítico: história e método. Juiz de Fora, MG: Editora UFJF, 2022.

DESCARTES, René.  As paixões da alma. São Paulo: Martins Fontes, 1998.

DESCARTES, R. Oeuvres. Org. C. Adam e P. Tannery. Paris: Vrin, 1996. 11v. [indicadas no texto como Ad & Tan]

_______. Oeuvres et lettres. Org. André Bidoux. Paris: Gallimard, 1953. (Pléiade).

______. Discursos do Método; Meditações metafísicas; Objeções e Respostas; As Paixões da Alma; Cartas. (Introdução de Gilles-Gaston Granger; prefácio e notas de Gerard Lebrun; Trad. de J. Guinsberg), Bento Prado J. 3. ed. São Paulo: Abril Cultural, 1983 (Os Pensadores).

DINUCCI, A.; JULIEN, A. O Encheiridion de Epicteto. Coimbra: Imprensa de Coimbra, 2014.

DINUCCI, A. Fragmentos menores de Caio Musônio Rufo; Gaius Musonius Rufus Fragmenta Minora. In: Trans/Form/Ação. vol.35 n.3 Marília, 2012.

______. Introdução ao Manual de Epicteto. 3. ed. São Cristóvão: EdiUFS, 2012.

______. Epictetus Discourses. Trad. Dobbin. Oxford: Clarendon, 2008.

______. Testemunhos e Fragmentos. Trad. Aldo Dinucci; Alfredo Julien. São Cristóvão: EdiUFS, 2008.

______. The Discourses of Epictetus as reported by Arrian; fragments: Encheiridion. Trad. Oldfather. Harvard: Loeb, 1928.  https://www.loebclassics.com/

FRANKL, Viktor. O sofrimento humano: Fundamentos antropológicos da psicoterapia. Trad. Bocarro, Karleno e Bittencourt, Renato. Prefácio, Marino, Heloísa Reis. São Paulo: É Realizações, 2019.

______. Em busca de sentido. 25. ed. - São Leopoldo, RS: Sinodal; Petrópolis, RJ: Vozes, 2008.

______. Yes to Life: In spite of everything. Beacon Press, 2020.

______. Um sentido para a vida: psicoterapia e humanismo. Aparecida, SP: Ideias e letras, 2005.

GALENO. Aforismos. São Paulo: E. Unifesp, 2010.

______. On the passions and errors of the soul. Translated by Paul W . Harkins with an introduction and interpretation by Walter Riese. Ohio State University Press, 1963.

GAZOLLA, Rachel.  O ofício do filósofo estóico: o duplo registro do discurso da Stoa, Loyola, São Paulo, 1999.

GIKOVATE, Flávio. Vício dos vícios: um estudo sobre a vaidade humana. São Paulo: MG Editores associados, 1987.

______. O mal, o bem e mais além: egoístas, generosos e justos. São Paulo: MG Editores associados, 2005.

______. Mudar: caminhos para a transformação verdadeira. São Paulo: MG Editores associados, 2014.

_____. Os sentidos da vida. São Paulo: Editora Moderna, 2009.

HADOT, Pierre. The inner citadel: the meditations of Marcus Aurelius. London: Harvard University Press, 2001.

______. A filosofia como maneira de viver: entrevistas de Jeannie Carlier e Arnold I. Davidson. (Trad. Lara Christina de Malimpensa). São Paulo: É Realizações, 2016.

______. Exercícios espirituais e filosofia antiga. Trad. Flávio Fontenelle Loque, Loraine Oliveira. São Paulo: É Realizações, Coleção Filosofia Atual, 2014.

Esta foi, portanto, a reflexão matinal antes da retomada e intensificação do estudos cotidianos.

Apontamentos  para ajudar a memória na elaboração de um texto futuro: esboço.

Tentando retornar a trabalho, recuperar atrasos e prosseguir!

...

Incluindo no projeto de  Serenidade [εὐροίας].

...

Primeiras palavras: 

GIKOVATE, Flávio. "Vício dos vícios: um estudo sobre a vaidade humana. São Paulo: MG Editores associados, 1987.

O prazer de se exibir, chamar a atenção e se destacar que é como a vaidade é definida pelo autor participa de todas as ações do ser humano e é parte essencial em todo tipo de interação social. O livro defende que a serenidade e a boa qualidade de vida só serão possíveis para aqueles que não se deixaram escravizar pela vaidade."

Não me surpreendi ouvindo o próprio autor (In memoriam) dizer que este livro foi um fracasso de vendas.

Primeiro, porque ataca um vício tão comum, que precisamos superar.

Em segundo lugar, porque defende uma tese bastante interessante, que me agrada porque contraria visões contemporâneas herdadas de um autor que estou estudando atentamente.

E, por último, por se tornar em mais uma ferramenta de estudos sobre as paixões e vícios no blog pessoal.

...

I. O que é virtude?

Tem sido comum as discussões sobre a virtude; não somente entre os estoicos, mas em meio à sociedade, em geral. E, não é raro que se ouçam dizer que o mundo atual tem se tornado tão vazio de sentido por não haver uma preocupação com essa questão. Nesse sentido, diria  Sêneca:

“A razão é igual à razão, tal como a rectidão é igual a si mesma; por conseguinte toda a virtude é igual à virtude, pois a virtude outra coisa não é senão a razão recta. Todas as virtudes são formas da razão; são formas da razão se forem todas rectas e se forem rectas são todas iguais. ” (LXVI.32)

Ou seja: “a virtude é a razão reta.”

Tenho estudado bastante e publicado aqui, alguns temas de teor filosófico diverso, nos quais me exercito. São diversos entre si, mas preservam uma linha tênue de relação: “ética”, “bioética”, “filosofia da religião”, o “problema mente-corpo” e o “estoicismo”. Na verdade, publico-os aqui somente para manter salvos os textos e retomá-los num futuro com fins de correção e sistematização. E, entre estes temas está o da Virtude.

Um dia desses, no entanto, sem sair da temática já apontada e que tem sido constante, publiquei aqui uma frase, como tenho feito, exercitando como já disse, a redação. Ainda que fosse só um exercício despretensioso na direção do aperfeiçoamento da escrita, a frase, bem curta e sem muito "ineditismo" reforçava uma postura contrária que mantenho em relação aos nocivos “modismos contemporâneos”, e quem me conhece sabe do que digo. A frase, a que me refiro e sustento serenamente, não com argumentos complexos, que aliás me agradam; mas por mera posição pessoal foi essa: "A essência não só precede à existência como ainda sobreviverá a ela." (MARQUINHOS, 2017)

II. A ela acrescento uma frase de Epictetus e avanço numa breve reflexão:

"Proteja o bem que existe em você em tudo o que você fizer, e no que diz respeito a todo o resto, receba o que lhe for dado enquanto puder fazer uso sensato. Se não puder, não terá sorte, estará propenso a falhar, perturbado e limitado." (Epictetus)

Para a típica forma de pensar e filosofar dos estoicos haveria, em nós, algo que se preserva em certa medida na execução do pensamento lógico universal, e dessa forma estaria garantida uma coerência e um equilíbrio que auxiliariam na tarefa de cada ser humano no exercício prático e constante de tornar-se a cada dia uma pessoa melhor; uma boa pessoa que segundo o que diz Epictetus, por haver uma essência esta deve ser preservada em nós como uma centelha interior que não pode se extinguir.

As nossas ações, no entanto, devem ser pensadas e direcionadas de certa forma ao bem comum sob pena de ela, para nós perder força e nos enfraquecer nos juízos que nos sejam pedidos acerca de decisões e sobre uma ou outra necessidade de tomar como certo ou verdadeiros atos do nosso cotidiano. Não havendo tal possibilidade de se estabelecer limites, haveria sim se os que, ultrapassando essas barreiras avançassem na ação que prejudicasse a outrem ou a si mesmos. Enfim, Epictetus, recomenda que não percamos essa nossa essência; que façamos o que é certo, o nosso dever.

E, também o imperador e filósofo Marco Aurélio teria escrito em suas Meditações: “Se não é certo, não faça. Se não é verdade, não diga”.

Interessa ressaltar aqui que mesmo sendo um imperador ele fazia esse tipo de ponderação; preservando-se distante do comum dos homens de seu tempo e assegurando a proteção da sua própria essência, similar ao pensamento de Epictetus, ressalte-se; nunca agindo sem estar certo nem faltando com a verdade.

É certo que ao ler este brevíssimo texto, alguém irá esbravejar sobre a questão da liberdade e da possibilidade de podermos fazer o que quisermos das nossas ações e vivermos cada um a sua própria vida do jeito e forma que achar melhor. O problema é atingirmos ou prejudicarmos alguém. Também alertando para o fato de que ao preservarmos aquela essência estaremos mantendo a nossa própria individualidade de forma que não se apague. Reafirma Marco Aurélio: "Meu único medo é fazer algo contrário à natureza humana ;  a coisa errada, do jeito errado, ou no momento errado." (Meditações. 7.20)

Uma reflexão que, com certeza, vou retomar, corrigir e aprofundar e que, recentemente, me levou mais diretamente a partir da Ética das virtudes, a alguns livros de Philippa Foot, que acabei de ler. Seu pensamento, de herança aristotélica, tem me ajudado a refletir sobre alguns tópicos em relação às Virtudes, um dos temas centrais nesta página. Acrescentei abaixo três dos livros dela que li recentemente e, com o tempo vou publicando aqui breves “resenhas” sobre alguns trechos que me interessaram mais de perto e pretendo retomar. A isso somarei mais tarde, obras mais recentes sobre os desdobramentos de suas pesquisas e seu pensamento nos dias atuais.

...

III. O novo livro: 

“Virtudes e vícios da mente humana: uma antologia de ensaios sobre caráter intelectual"

 

O caráter tem sido há muito um objeto de estudo filosófico, porém só recentemente tornou-se assunto da epistemologia. O estudo epistemológico do caráter salienta que as pessoas podem formar ao longo da vida bons ou maus hábitos intelectuais, tais como raciocinar de maneira cuidadosa, julgar de maneira apressada, manter crenças de maneira supersticiosa, avaliar as evidências de maneira honesta, conceber cenários hipotéticos de maneira criativa e observar com atenção. Tais hábitos se assemelham em alguma medida a hábitos morais, tais como generosidade, covardia e injustiça, pois parecem em alguma medida contribuir para que uma pessoa se torne uma pessoa melhor ou pior. Por exemplo, julgar outras pessoas de maneira apressada pode gerar atitudes negativas que prejudicam essas pessoas e, em muitos casos, formar crenças de maneira cética ou cuidadosa pode ser crucial para salvar a vida de alguém. Mas, além dessa repercussão moral, hábitos intelectuais contribuem ainda mais obviamente para que a pessoa se torne melhor ou pior de um ponto de vista epistêmico. Por exemplo, o hábito de conceber cenários hipotéticos de maneira criativa pode ser crucial para fazer com que alguém avance seu conhecimento, enquanto o hábito de selecionar as evidências de maneira desonesta pode impedir alguém de diminuir ou sair de sua condição de ignorância. Este livro é a primeira antologia em língua portuguesa a ter no caráter intelectual seu objeto de estudo, buscando elucidar as características psicológicas desses hábitos, sua relevância no contexto educacional e sua gênese social mais ampla. O livro tem em vista não apenas promover o estudo filosófico do caráter intelectual no cenário lusófono e latino- americano, mas também pretende pavimentar caminho para pesquisas interdisciplinares futuras no assunto.”

(Os Grifos e os Destaques são meus)

______.

ARRIANO FLÁVIO. As Diatribes de Epicteto. Livro I. Tradução, introdução e comentário Aldo Dinucci. Universidade Federal de Sergipe. Série Autores Gregos e Latinos Coimbra, Imprensa da universidade de Coimbra, 2020.

BORBA, Alexandre Ziani de; LOPES, Arthur. (Orgs.) Virtudes e vícios da mente humana: uma antologia de ensaios sobre caráter intelectual. Cachoeirinha, RS. Editora Fi, 2024.

COELHO, Humberto Schubert. O pensamento crítico: história e método. Juiz de Fora, MG: Editora UFJF, 2022.

DESCARTES, René.  As paixões da alma. São Paulo: Martins Fontes, 1998.

DINUCCI, A.; JULIEN, A. O Encheiridion de Epicteto. Coimbra: Imprensa de Coimbra, 2014.

DINUCCI, A. Fragmentos menores de Caio Musônio Rufo; Gaius Musonius Rufus Fragmenta Minora. In: Trans/Form/Ação. vol.35 n.3 Marília, 2012.

______. Introdução ao Manual de Epicteto. 3. ed. São Cristóvão: EdiUFS, 2012.

______. Epictetus Discourses. Trad. Dobbin. Oxford: Clarendon, 2008.

______. Testemunhos e Fragmentos. Trad. Aldo Dinucci; Alfredo Julien. São Cristóvão: EdiUFS, 2008.

______. The Discourses of Epictetus as reported by Arrian; fragments: Encheiridion. Trad. Oldfather. Harvard: Loeb, 1928.  https://www.loebclassics.com/

FRANKL, Viktor. O sofrimento humano: Fundamentos antropológicos da psicoterapia. Trad. Bocarro, Karleno e Bittencourt, Renato. Prefácio, Marino, Heloísa Reis. São Paulo: É Realizações, 2019.

______. Em busca de sentido. 25. ed. - São Leopoldo, RS: Sinodal; Petrópolis, RJ: Vozes, 2008.

______. Yes to Life: In spite of everything. Beacon Press, 2020.

______. Um sentido para a vida: psicoterapia e humanismo. Aparecida, SP: Ideias e letras, 2005.

GALENO. Aforismos. São Paulo: E. Unifesp, 2010.

______. On the passions and errors of the soul. Translated by Paul W . Harkins with an introduction and interpretation by Walter Riese. Ohio State University Press, 1963.

GAZOLLA, Rachel.  O ofício do filósofo estóico: o duplo registro do discurso da Stoa, Loyola, São Paulo, 1999.

GIKOVATE, Flávio. Vício dos vícios: um estudo sobre a vaidade humana. São Paulo: MG Editores associados, 1987.

______. O mal, o bem e mais além: egoístas, generosos e justos. São Paulo: MG Editores associados, 2005.

______. Mudar: caminhos para a transformação verdadeira. São Paulo: MG Editores associados, 2014.

_____. Os sentidos da vida. São Paulo: Editora Moderna, 2009.

HADOT, Pierre. The inner citadel: the meditations of Marcus Aurelius. London: Harvard University Press, 2001.

______. A filosofia como maneira de viver: entrevistas de Jeannie Carlier e Arnold I. Davidson. (Trad. Lara Christina de Malimpensa). São Paulo: É Realizações, 2016.

______. Exercícios espirituais e filosofia antiga. Trad. Flávio Fontenelle Loque, Loraine Oliveira. São Paulo: É Realizações, Coleção Filosofia Atual, 2014.

KARDEC, A. Le Livre des Esprits. Paris, Dervy-Livres, s.d. (dépôt légal 1985). (O Livro dos Espíritos. Trad. Guillon Ribeiro, ______. O livro dos Espíritos. 93. ed. - 1. reimpressão (edição histórica). Brasília, DF: Feb, 2013. (Q. 903-919 "paixões"; 893-906 “virtudes e vícios”e 920-933 "felicidade").

Esta foi, portanto, a reflexão matinal antes da retomada e intensificação do estudos cotidianos.

Apontamentos  para ajudar a memória na elaboração de um texto futuro: esboço.

Tentando retornar a trabalho, recuperar atrasos e prosseguir!

...

Incluindo no projeto de  Serenidade [εὐροίας].

...

Primeiras palavras: 

GIKOVATE, Flávio. "Vício dos vícios: um estudo sobre a vaidade humana. São Paulo: MG Editores associados, 1987.

O prazer de se exibir, chamar a atenção e se destacar que é como a vaidade é definida pelo autor participa de todas as ações do ser humano e é parte essencial em todo tipo de interação social. O livro defende que a serenidade e a boa qualidade de vida só serão possíveis para aqueles que não se deixaram escravizar pela vaidade."

Não me surpreendi ouvindo o próprio autor (In memoriam) dizer que este livro foi um fracasso de vendas.

Primeiro, porque ataca um vício tão comum, que precisamos superar.

Em segundo lugar, porque defende uma tese bastante interessante, que me agrada porque contraria visões contemporâneas herdadas de um autor que estou estudando atentamente.

E, por último, por se tornar em mais uma ferramenta de estudos sobre as paixões e vícios no blog pessoal.

...

I. O que é virtude?

Tem sido comum as discussões sobre a virtude; não somente entre os estoicos, mas em meio à sociedade, em geral. E, não é raro que se ouçam dizer que o mundo atual tem se tornado tão vazio de sentido por não haver uma preocupação com essa questão. Nesse sentido, diria  Sêneca:

“A razão é igual à razão, tal como a rectidão é igual a si mesma; por conseguinte toda a virtude é igual à virtude, pois a virtude outra coisa não é senão a razão recta. Todas as virtudes são formas da razão; são formas da razão se forem todas rectas e se forem rectas são todas iguais. ” (LXVI.32)

Ou seja: “a virtude é a razão reta.”

Tenho estudado bastante e publicado aqui, alguns temas de teor filosófico diverso, nos quais me exercito. São diversos entre si, mas preservam uma linha tênue de relação: “ética”, “bioética”, “filosofia da religião”, o “problema mente-corpo” e o “estoicismo”. Na verdade, publico-os aqui somente para manter salvos os textos e retomá-los num futuro com fins de correção e sistematização. E, entre estes temas está o da Virtude.

Um dia desses, no entanto, sem sair da temática já apontada e que tem sido constante, publiquei aqui uma frase, como tenho feito, exercitando como já disse, a redação. Ainda que fosse só um exercício despretensioso na direção do aperfeiçoamento da escrita, a frase, bem curta e sem muito "ineditismo" reforçava uma postura contrária que mantenho em relação aos nocivos “modismos contemporâneos”, e quem me conhece sabe do que digo. A frase, a que me refiro e sustento serenamente, não com argumentos complexos, que aliás me agradam; mas por mera posição pessoal foi essa: "A essência não só precede à existência como ainda sobreviverá a ela." (MARQUINHOS, 2017)

II. A ela acrescento uma frase de Epictetus e avanço numa breve reflexão:

"Proteja o bem que existe em você em tudo o que você fizer, e no que diz respeito a todo o resto, receba o que lhe for dado enquanto puder fazer uso sensato. Se não puder, não terá sorte, estará propenso a falhar, perturbado e limitado." (Epictetus)

Para a típica forma de pensar e filosofar dos estoicos haveria, em nós, algo que se preserva em certa medida na execução do pensamento lógico universal, e dessa forma estaria garantida uma coerência e um equilíbrio que auxiliariam na tarefa de cada ser humano no exercício prático e constante de tornar-se a cada dia uma pessoa melhor; uma boa pessoa que segundo o que diz Epictetus, por haver uma essência esta deve ser preservada em nós como uma centelha interior que não pode se extinguir.

As nossas ações, no entanto, devem ser pensadas e direcionadas de certa forma ao bem comum sob pena de ela, para nós perder força e nos enfraquecer nos juízos que nos sejam pedidos acerca de decisões e sobre uma ou outra necessidade de tomar como certo ou verdadeiros atos do nosso cotidiano. Não havendo tal possibilidade de se estabelecer limites, haveria sim se os que, ultrapassando essas barreiras avançassem na ação que prejudicasse a outrem ou a si mesmos. Enfim, Epictetus, recomenda que não percamos essa nossa essência; que façamos o que é certo, o nosso dever.

E, também o imperador e filósofo Marco Aurélio teria escrito em suas Meditações: “Se não é certo, não faça. Se não é verdade, não diga”.

Interessa ressaltar aqui que mesmo sendo um imperador ele fazia esse tipo de ponderação; preservando-se distante do comum dos homens de seu tempo e assegurando a proteção da sua própria essência, similar ao pensamento de Epictetus, ressalte-se; nunca agindo sem estar certo nem faltando com a verdade.

É certo que ao ler este brevíssimo texto, alguém irá esbravejar sobre a questão da liberdade e da possibilidade de podermos fazer o que quisermos das nossas ações e vivermos cada um a sua própria vida do jeito e forma que achar melhor. O problema é atingirmos ou prejudicarmos alguém. Também alertando para o fato de que ao preservarmos aquela essência estaremos mantendo a nossa própria individualidade de forma que não se apague. Reafirma Marco Aurélio: "Meu único medo é fazer algo contrário à natureza humana ;  a coisa errada, do jeito errado, ou no momento errado." (Meditações. 7.20)

Uma reflexão que, com certeza, vou retomar, corrigir e aprofundar e que, recentemente, me levou mais diretamente a partir da Ética das virtudes, a alguns livros de Philippa Foot, que acabei de ler. Seu pensamento, de herança aristotélica, tem me ajudado a refletir sobre alguns tópicos em relação às Virtudes, um dos temas centrais nesta página. Acrescentei abaixo três dos livros dela que li recentemente e, com o tempo vou publicando aqui breves “resenhas” sobre alguns trechos que me interessaram mais de perto e pretendo retomar. A isso somarei mais tarde, obras mais recentes sobre os desdobramentos de suas pesquisas e seu pensamento nos dias atuais.

...

III. O novo livro: 

“Virtudes e vícios da mente humana: uma antologia de ensaios sobre caráter intelectual"

 

O caráter tem sido há muito um objeto de estudo filosófico, porém só recentemente tornou-se assunto da epistemologia. O estudo epistemológico do caráter salienta que as pessoas podem formar ao longo da vida bons ou maus hábitos intelectuais, tais como raciocinar de maneira cuidadosa, julgar de maneira apressada, manter crenças de maneira supersticiosa, avaliar as evidências de maneira honesta, conceber cenários hipotéticos de maneira criativa e observar com atenção. Tais hábitos se assemelham em alguma medida a hábitos morais, tais como generosidade, covardia e injustiça, pois parecem em alguma medida contribuir para que uma pessoa se torne uma pessoa melhor ou pior. Por exemplo, julgar outras pessoas de maneira apressada pode gerar atitudes negativas que prejudicam essas pessoas e, em muitos casos, formar crenças de maneira cética ou cuidadosa pode ser crucial para salvar a vida de alguém. Mas, além dessa repercussão moral, hábitos intelectuais contribuem ainda mais obviamente para que a pessoa se torne melhor ou pior de um ponto de vista epistêmico. Por exemplo, o hábito de conceber cenários hipotéticos de maneira criativa pode ser crucial para fazer com que alguém avance seu conhecimento, enquanto o hábito de selecionar as evidências de maneira desonesta pode impedir alguém de diminuir ou sair de sua condição de ignorância. Este livro é a primeira antologia em língua portuguesa a ter no caráter intelectual seu objeto de estudo, buscando elucidar as características psicológicas desses hábitos, sua relevância no contexto educacional e sua gênese social mais ampla. O livro tem em vista não apenas promover o estudo filosófico do caráter intelectual no cenário lusófono e latino- americano, mas também pretende pavimentar caminho para pesquisas interdisciplinares futuras no assunto.”

(Os Grifos e os Destaques são meus)

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[1] ARRIANO FLÁVIO. As Diatribes de Epicteto. Livro I. 2020. (p. 139)

REFLEXÃO MATINAL CXLV: ÉTICA DAS VIRTUDES "SEELSORGE"(III)

  “ Recolhe-te a estas coisas mais tranquilas, mais seguras, melhores! [...] elevar-se às coisas sagradas e sublimes para conhecer qual é a ...