Mais uma vez, continuando as reflexões,
estabelecidas já há algum tempo, como projeto na reforma da
conduta pessoal para melhor compreensão do que seja desenvolver e aplicar a virtude.
Ainda que reconhecidamente tão distante
da meta ainda!
Não é primeira vez, portanto, decidido
a investir no aprimoramento das emoções, na superação hábitos. É nesse
sentido, pressupondo firmemente que tais podem ser revertidos em força interior.
Essa resistência às inclinações internas, e aos assaques ou provocações
externas. Já é convicção que dirige as minhas ações numa direção contrária das
concepções mirabolantes que dominam o "mercado" das más ações no
mundo.
Constante a ação, perseverante nos
estudos, é necessário considerar alguns elementos na caminhada. Entre ele, para
a constituição da imperturbável tranquilidade da alma, vale
considerar, como já anotei aqui várias vezes o que escolhi
dos estoicos para reflexão na manhã de hoje. Acrescentei, entre as
leituras de hoje, mais uma vez, algumas passagens abaixo para firme reflexão em
direção a ações que urgem.
Neste caminho,
aproveitando o que Sêneca nos ensina, a partir do que escreveu em Carta
a Lucílio (80: 4 - 5):
"O que é necessário
para que sejas bom? Querer... Ora, o que de melhor podes querer do que te
arrancares desta escravidão, que a todos oprime? (...) O bem que é a liberdade,
terás tu de dá-lo a ti mesmo, de o reclamar a ti mesmo!"
.'.
"Quid tibi opus est
ut sis bonus? uelle. Quid autem melius potes uelle quam eripere te huic
seruituti quae omnes premit? (...) tibi des oportet istud bonum, a te
petas)."
Quanto a essa orientação de Sêneca, de que para alguém ser Bom é necessário antes que se queira, por considerar o Bem a verdadeira liberdade perante si mesmo. A isso, então acrescento a reflexão abaixo ainda sobre o "Querer" ser bom e como "[...] o homem, pelos seus esforços, vencer as suas más inclinações."
907. "Será intrinsecamente
mau o princípio originário das paixões, embora esteja na natureza?
“Não;
a paixão está no excesso de que se acresceu a vontade, visto que o princípio
que lhe dá origem foi posto no homem para o bem, tanto que
as paixões podem levá-lo à realização de grandes coisas. O abuso que
delas se faz é que causa o mal.”
908. Como se poderá
determinar o limite onde as paixões deixam de ser boas para se
tornarem más?
“As paixões são
como um corcel, que só tem utilidade quando governado, e que se torna perigoso
quando passa a governar. Uma paixão se torna perigosa a partir do momento em
que deixais de poder governá-la, e que dá em resultado um prejuízo qualquer
para vós mesmos ou para outrem.”
As paixões são
alavancas que decuplicam as forças do homem e o auxiliam na execução dos
desígnios da Providência. Mas se, em vez de as dirigir, deixa que elas o
dirijam, cai o homem nos excessos e a própria força que, manejada pelas suas
mãos, poderia produzir o bem, contra ele se volta e o esmaga.
Todas
as paixões têm seu princípio num sentimento ou necessidade natural. O
princípio das paixões não é, assim, um mal, pois que assenta numa das
condições providenciais da nossa existência. A paixão propriamente dita é a
exageração de uma necessidade ou de um sentimento. Está no excesso e não na
causa, e este excesso se torna um mal quando tem como consequência um mal
qualquer.
Toda paixão que aproxima o homem da natureza animal afasta-o da natureza
espiritual.
Todo sentimento que eleva o homem acima da natureza animal denota predominância
do espírito sobre a matéria e o aproxima da perfeição
909. Poderia sempre o
homem, pelos seus esforços, vencer as suas más inclinações?
“Sim, e por vezes fazendo esforços bem pequenos. O que lhe falta
é a vontade. Ah! Quão poucos dentre vós fazem esforços!”
Ademais, isso implica a
dolorosa empreitada necessária: a viagem interior. O tão propalado “autoconhecimento”.
Mais uma vez, portanto, pensando no que foi dito acima, vejo que neste texto
abaixo, também há uma importante orientação que tomo como breve conclusão para
hoje.
A tranquiliadade da alma não se alcança em viagens
"Pensas que só a ti
isso sucedeu; admiras-te, como se fosse um caso raro, de após uma tão grande
viagem e uma tão grande variedade de locais visitados não teres conseguido
dissipar essa tristeza que te pesa na alma!? Deves é mudar de alma, não de
clima. Ainda que atravesses a vastidão do mar, ainda que, como diz o nosso
Vergílio, as costas, as cidades desapareçam no horizonte, os teus vícios
seguir-te-ão onde quer que tu vás. Do mesmo se queixou um dia alguém a
Sócrates: «Porquê admirar-te da inutilidade das tuas viagens,»
- foi a resposta, - «se para todo o lado levas a mesma disposição? A causa
que te aflige é exactamente a mesma que te leva a partir!» De facto, em que
pode ajudar a mudança de local, ou o conhecimento de novas paisagens e cidades?
Toda essa agitação carece de sentido. Andares de um lado para o outro não te
ajuda em nada, porque andas sempre na tua própria companhia. Tens de alijar o
peso que tens na alma; antes disso não há terra alguma que te possa dar prazer!
Temos de viver com essa
convicção: não nascemos destinados a nenhum lugar particular, a nossa pátria é
o mundo inteiro! Quando te tiveres convencido desta verdade, deixará de
espantar-te a inutilidade de andares de terra em terra, levando para cada uma o
tédio que tinhas à partida. Se te persuadires de que toda a terra te pertence,
o primeiro ponto em que parares agradar-te-á de imediato. O que tu fazes agora
não é viajar, mas sim andar à deriva, a saltar de um lado para o outro, quando
na realidade o que tu pretendes - viver segundo a virtude - podes consegui-lo
em qualquer sítio". (SÊNECA, In: Cartas a Lucílio, 2014)
Mantenhamo-nos bem! Em
esforços constantes!
Link
para saber mais e estudar sobre o tema "paixões,
vícios e virtudes": https://kardecpedia.com/
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