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sábado, 21 de maio de 2022

BREVÍSSIMA REFLEXÃO MATINAL CXXVI: O ESPETÁCULO EXTERIOR

 

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O espetáculo exterior, num mundo sobre o qual dizia o Cohélet 1:1-2: "Tudo é fútil! Futilidade das futilidades! Sim, tudo é fútil!"

"[...] o espetáculo exterior [das coisas] é um maravilhoso perverter da razão, e quando temos certeza de que as coisas com as quais estamos lidando valem a pena, é quando ela mais nos engana. (Meditações. VI, 13)"

Ademais, é fundamental que tais reflexões jamais tenham "[...] a pretensão de lidar com assuntos que estão acima de minha compreensão" (Tehilim: 131: 1-2)

E, "[...] Não se submeter às coisas exteriores significa ter uma nova atitude diante delas: não vê-las como coisas boas ou más em si mesmas, não se queixar ou lamentar-se diante delas (Diss. 1.18.23), mas enfrentá-las com serenidade e coragem.". (DINUCCI, Aldo. In: PERI, v . 08, n. 02, 2016 . p . 177 - 191)

______.

ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. São Paulo: Nova Cultural, 1987 (col. Os Pensadores).

______. Ethica Nicomachea - III 9 - IV 15: As virtudes morais. Trad. Marco Zingano. São Paulo: Odysseus Editora, 2019.

ARRIANO FLÁVIO. O Encheirídion. Edição Bilíngue. Tradução do texto grego e notas Aldo Dinucci; Alfredo Julien. Textos e notas de Aldo Dinucci; Alfredo Julien. São Cristóvão. Universidade Federal de Sergipe, 2012).

COELHO, Humberto Schubert. Genealogia do Espírito. Brasília, DF: 2012.

______. Filosofia perene: o modo espiritualista de pensar. São Paulo: Ed. Didier, 2014.

DESCARTES, René.  As paixões da alma. São Paulo: Martins Fontes, 1998.

EPICTÉTE. Entretiens. Livre I, II, III, IV. Trad. Joseph Souilhé. Paris: Les Belles Lettres, 1956.

______. Epictetus Discourses. Trad. Dobbin. Oxford: Clarendon, 2008.

______. O Encheirídion de Epicteto. Trad. Aldo Dinucci; Alfredo Julien. São Cristóvão: EdiUFS, 2012. (Edição Bilíngue).

______. Testemunhos e Fragmentos. Trad. Aldo Dinucci; Alfredo Julien. São Cristóvão: EdiUFS, 2008.

______. The Discourses of Epictetus as reported by Arrian; fragments: Encheiridion. Trad. Oldfather. Harvard: Loeb, 1928.  https://www.loebclassics.com/

FOOT, Philippa. Natural goodness. Clarendon Press, 2003.

______. Moral dilemmas: and other topics in moral philosophy. Oxford University Press, 2003)

______. Virtues and Vices: and other essays in moral philosophy. OUP Oxford; Reprint, 2003). Informações sobre a a autora: https://pt.wikipedia.org/wiki/Philippa_Foot

GALENO. Aforismos. São Paulo: E. Unifesp, 2010.

______. On the passions and errors of the soul. Translated by Paul W . Harkins with an introduction and interpretation by Walter Riese. Ohio State University Press, 1963.

GAZOLLA, Rachel.  O ofício do filósofo estóico: o duplo registro do discurso da Stoa, Loyola, São Paulo, 1999.

HADOT, Pierre. The inner citadel: the meditations of Marcus Aurelius. London: Harvard University Press, 2001.


terça-feira, 12 de abril de 2022

IMPERTURBÁVEL PAZ DE ESPÍRITO: ἈΤΑΡΑΞΊΑ - ATARAXIA .


Ainda uma reflexão sobre a liberdade [ἐλευθερίας], serenidade [εὐροίας], e a imperturbável paz de espírito [Ἀταραξία

Há dias, como hoje, em que essa reflexão é mais do que necessária e precisamos retornar a ela: a "Dicotomia do controle":

"[1.1] Das coisas existentes, algumas são encargos nossos; outras não. São encargos nossos o juízo, o impulso, o desejo, a repulsa – em suma: tudo quanto seja ação nossa. Não são encargos nossos o corpo, as posses, a reputação, os cargos públicos – em suma: tudo quanto não seja ação nossa. (EPICTETO, Encheridion. I. 1)

No entanto, por ser um projeto aqui, a “cura das paixões”, torna-se necessária a serenidade na busca em que deve empenhar-se o prokopton - προκόπτον  por uma “imperturbável paz de espírito” – ataraxia - Ἀταραξία.

Mas, como prokopton - προκόπτον  “[...] ser humano pode exercer domínio sobre si mesmo se ele quiser?”

O próprio Immanuel Kant, nas "Lições de ética", responde que:

"De fato, parece acontecer dessa forma, porque isso parece depender do homem. [...] Ora, o domínio sobre si mesmo depende da força do sentimento moral. Podemos muito bem nos autogovernar se enfraquecermos as forças opostas."

Por outro lado,

Num trecho do seu livro "A peste", o escritor Albert Camus anota a constatação advinda de uma situação de crise, "uma epidemia de peste que tomou conta de toda a cidade de Orão, na Argélia. Sujeita a quarentena, esta torna-se um território irrespirável e os seus habitantes são conduzidos até estados de sofrimento, de loucura, mas também de compaixão de proporções desmedidas".

Ou seja, nestas ocasiões, de extrema exigência existencial em que um inumerável contingente de dificuldade se coloca para o ser humano, temos que: por um lado, há almas que revelam o seu lado bom, e, por outro, as que mostram o que tem de pior!

Não queria ter que concordar com Camus!

Mas, fácil constatar que nas duas propostas, se se busca uma Impertubável paz de espírito, A tarefa se coloca todos os dias, em diversas situações difíceis de enfrentar, geralmente.

Só se é prejudicado, na verdade, por acontecimentos externos se se acredita que estes possam nos atingir. 

A tarefa fundamental, portanto, e empenhar-se, em bem direcionar as escolhas [Prohaíresis προαίρεσις] jamais desviar-se para atividades que estejam fora de seu alcance, ou seja, estar atento à essas aptidões, focar nelas. E, de todas as formas, seguindo os preceitos:

[8] Não busques que os acontecimentos aconteçam como queres, mas quere que aconteçam como acontecem, e tua vida terá um curso sereno.

[9] A doença é entrave para o corpo, mas não para a escolha, se ela não quiser. Claudicar é entrave para as pernas, mas não para a escolha. Diz isso para cada uma das coisas que sucedem contigo, e descobrirás que o entrave é próprio de outra coisa e não teu.

E, acima de tudo, jamais esquecer que

"Le domaine de la philosophie est de l'ordre de biens interieurs" (Épictète. D. I, XV : 1).

______.

ARRIANO FLÁVIO. O Encheirídion de Epicteto. Edição Bilíngue. Tradução do texto grego e notas Aldo Dinucci; Alfredo Julien. Textos e notas de Aldo Dinucci; Alfredo Julien. São Cristóvão. Universidade Federal de Sergipe, 2012. 96 p.

BOÉCIO. (Anicius Manlius Torquatus Severinus Boetius). A consolação da filosofia. prefácio de Marc Fumaroli ; tradução do latim por Willian Li. – 2. ed. – São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2012. – (Clássicos WMF).

CAMUS, Albert. O estrangeiro. 54. ed. Rio de Janeiro, RJ: Record, 1979.

COELHO, Humberto Schubert. Genealogia do Espírito. Brasília, DF: 2012.

______. Filosofia perene: o modo espiritualista de pensar. São Paulo: Ed. Didier, 2014.

DEFOE, Daniel. Um diário do ano da peste. São Paulo: Novo Século, 2021.

______. A journal of the plague year. Penguim Books, 2003.

DINUCCI, A.; JULIEN, A. O Encheiridion de Epicteto. Coimbra: Imprensa de Coimbra, 2014.

EPICTETO. Entretiens. Livre I, II, III, IV. Trad. Joseph Souilhé. Paris: Les Belles Lettres, 1956.

______. Epictetus Discourses. Book I. Trad. Dobbin. Oxford: Clarendon, 2008.

______. O Encheirídion de Epicteto. Trad. Aldo Dinucci; Alfredo Julien. São Cristóvão: EdiUFS, 2012. (Edição Bilíngue)

______. Testemunhos e Fragmentos. Trad. Aldo Dinucci; Alfredo Julien. São Cristóvão: EdiUFS, 2008.

EPICTETUS. The Discourses of Epictetus as reported by Arrian; fragments; Encheiridion. Trad. Oldfather. Harvard: Loeb, 1928.  https://www.loebclassics.com/

FRANKL,Viktor. Yes to life: in spite of everything. Beacon Press, 2020.

______. Um sentido para a vida: psicoterapia e humanismo. Aparecida, SP: Ideias e letras, 2005.

GALENO. On the passions and errors of the soul. Translated by Paul W . Harkins with an introduction and interpretation by Walter Riese. Ohio State University Press, 1963.

______. Aforismos. São Paulo: E. Unifesp, 2010.

GAZOLLA, Rachel.  O ofício do filósofo estóico: o duplo registro do discurso da Stoa, Loyola, São Paulo, 1999.

HADOT, Pierre. The inner citadel: the meditations of Marcus Aurelius. London: Harvard University Press, 2001.

KANT, Immanuel. Lições de ética. Trad. Bruno Cunha e Charles Fedhaus. São Paulo: Editora Unesp, 2018.

KARDEC, A. Le Livre des Esprits. Paris, Dervy-Livres, s.d. (dépôt légal 1985). ______. O livro dos Espíritos. Trad. Guillon Ribeiro, 93. ed. - 1. reimpressão (edição histórica). Brasília, DF: Feb, 2013. (Q. 893-919: "As virtude e os vícios”; “Paixões"; “Caracteres do homem de bem”; “Conhecimento de si mesmo” e 920-933: "Felicidade"; Q. 614-648"Caracteres da Lei natural"; "Origem e conhecimento da Lei natural"; "O bem e o mal"; "Divisão da Lei natural").

LESSING, Gotthold Ephraim. Educação do gênero humano. Bragança Paulista, SP: Ed. Comenius, 2019.

Imagem:

Disponível em: 

https://blogger.googleusercontent.com/img/a/AVvXsEhCdYHZuoI52axqGfh8XhG_FmvR-Mdb5LQBLfsDlILiJ0ww81mL-yima2e8dWzAACLWLvyDSvSb6_I8bd2zEVNfKHydMrM43fltGUUiA8hVGLX5-2FzCtfjGAGRONZ7ZV9R7BfpNwYqB3CzBrYMB8bSR5YexHJrpH-FBf9GoXkgjfCw1UGnEN98s1AivQ=w526-h42Consultado em: 11.04.2022.


sábado, 9 de abril de 2022

ZEHN WEGE ZU MEHR GLÜCK

  1. Para de se comparar com os outros.
  2. Não foque apenas nisso, no que te falta.
  3. Seja agradecido.
  4. Seja misericordioso - sobretudo consigo mesmo.
  5. Reserve um tempo regularmente para você.
  6. Aprecie mais as experiências do que as coisas.
  7. Permaneça curioso.
  8. Não pare de trabalhar EM SI.
  9. Ria mais frequentemente.
  10. Ame mais frequentemente.


quarta-feira, 6 de abril de 2022

MEDITAÇÃO RETROSPECTIVA NOTURNA XLVII: UMA PROPOSTA DE REFLEXÃO ESTOICA BREVÍSSIMA

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Recordando, apesar de algumas diferenças com as bases da minha "cosmovisão".

Do Epicteto; exatamente apesar dos desafios, uma descoberta antiga e aprofundando desde pouco tempo até recentemente. De grande importância nas decisões filosóficas aqui:

Dar o devido valor ao essencial, sem os extremismos do desprezo ao que pode ser necessário, vemos que:

"Para Epicteto, o ato de pôr em prática a filosofia supõe o afastamento das coisas exteriores e o aperfeiçoamento da capacidade de escolha, de modo a ‘torná-la harmoniosa à natureza, elevada, livre, desimpedida, desembaraçada, leal, digna com a natureza’ (Diss. 18).

[...]

Não se submeter às coisas exteriores significa ter uma nova atitude diante delas: não vê-las como coisas boas ou más em si mesmas, não se queixar ou lamentar-se diante delas (Diss. 1.18.23), mas enfrentá-las com serenidade e coragem.". (DINUCCI, Aldo. In: PERI, v . 08, n. 02, 2016 . p . 177 - 191)

.'.

______.

ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. São Paulo: Nova Cultural, 1987 (col. Os Pensadores).

______. Ethica Nicomachea - III 9 - IV 15: As virtudes morais. Trad. Marco Zingano. São Paulo: Odysseus Editora, 2019.

ARRIANO FLÁVIO. O Encheirídion. Edição Bilíngue. Tradução do texto grego e notas Aldo Dinucci; Alfredo Julien. Textos e notas de Aldo Dinucci; Alfredo Julien. São Cristóvão. Universidade Federal de Sergipe, 2012).

COELHO, Humberto Schubert. Genealogia do Espírito. Brasília, DF: 2012.

______. Filosofia perene: o modo espiritualista de pensar. São Paulo: Ed. Didier, 2014.

DESCARTES, René.  As paixões da alma. São Paulo: Martins Fontes, 1998.

EPICTÉTE. Entretiens. Livre I, II, III, IV. Trad. Joseph Souilhé. Paris: Les Belles Lettres, 1956.

______. Epictetus Discourses. Trad. Dobbin. Oxford: Clarendon, 2008.

______. O Encheirídion de Epicteto. Trad. Aldo Dinucci; Alfredo Julien. São Cristóvão: EdiUFS, 2012. (Edição Bilíngue).

______. Testemunhos e Fragmentos. Trad. Aldo Dinucci; Alfredo Julien. São Cristóvão: EdiUFS, 2008.

______. The Discourses of Epictetus as reported by Arrian; fragments: Encheiridion. Trad. Oldfather. Harvard: Loeb, 1928.  https://www.loebclassics.com/

FOOT, Philippa. Natural goodness. Clarendon Press, 2003.

______. Moral dilemmas: and other topics in moral philosophy. Oxford University Press, 2003)

______. Virtues and Vices: and other essays in moral philosophy. OUP Oxford; Reprint, 2003). Informações sobre a a autora: https://pt.wikipedia.org/wiki/Philippa_Foot

GALENO. Aforismos. São Paulo: E. Unifesp, 2010.

______. On the passions and errors of the soul. Translated by Paul W . Harkins with an introduction and interpretation by Walter Riese. Ohio State University Press, 1963.

GAZOLLA, Rachel.  O ofício do filósofo estóico: o duplo registro do discurso da Stoa, Loyola, São Paulo, 1999.

HADOT, Pierre. The inner citadel: the meditations of Marcus Aurelius. London: Harvard University Press, 2001.




domingo, 2 de janeiro de 2022

REFLEXÃO MATINAL CVII: "REVOLUÇÃO" PESSOAL E INTRANSFERÍVEL


Morir es un cambio de existencia, y para el alma una migración de este mundo hacia otro

Apareceu nas "lembranças" aqui; de uma "reflexão matinal" que fiz em 2015.

À época, revendo certas “convicções” pensava nesta: a de que O amor existe... a felicidade é possível e, como dizia o Platão, no Górgias (473b):

"A Verdade jamais é refutada".

Acrescentei ainda, às reflexões, o fato de que a Vida tem um Sentido (Frankl); e, não me restam dúvidas.

Ademais, num mundo tão focado em proposições “presentistas”, focado em coisas “materiais”, ampliei minhas reflexões, para mim, por mim... Daí que me deparei novamente com o que me é comum e pretendo seguir ainda mais um pouquinho:

"É realmente curioso ver o materialismo falar incessantemente da necessidade de elevar a dignidade do homem, quando se esforça para reduzi-lo a um pedaço de carne que apodrece e desaparece sem deixar qualquer vestígio; de reivindicar para si a liberdade como um direito natural, quando o transforma num mecanismo, marchando como um boneco, sem responsabilidade por seus atos.(Revue. março de 1869)"

E, nisso, considero muito pertinente algumas proposições dos antigos filósofos, e os tenho estudado com frequência. O dito abaixo, em certa medida justifica isso, para mim, claro:

"Os filósofos gregos antigos, como Epicuro, Zenão, Sócrates, etc, permaneceram mais fiéis à verdadeira ideia de filosofia do que muitos nos tempos modernos. ‘Quando é que tu vais, por fim, começar a viver virtuosamente?’, dizia Platão a um ancião que lhe contava que assistia a lições sobre a virtude. Não se trata de incessantemente especular, é preciso também, de uma vez por todas, pensar na aplicação. Mas hoje considera-se um sonhador aquele que vive em conformidade com o que ensina”[1]

Portanto, dessa abordagem que estou fazendo aqui, como ponto de patida para pensar sobre a busca incessante das Virtude; da “cura das paixões”, aproveitando a manhã para estas anotações reforçando o projeto.

Nada conseguimos, nesta difícil tarefa de enfrentarmo-nos sem esforços “hercúleos”. Benjamin Franklin, por exemplo, reconheceu isso ao dizer que:

“Tho' I never arrived at the perfection I had been so ambitious of obtaining, but fell far short of it, yet I was, by the endeavour, a better and a happier man than I otherwise should have been if I had not attempted it.”

“Eu nunca cheguei à perfeição a que eu tinha sido tão ambicioso de obter; fiquei muito aquém disso, mesmo assim eu fui, pelo esforço, um homem melhor e mais feliz do que eu deveria ter sido se não tivesse tentado"

Outro neste sentido, bastante citado quando o “conhecimento de si mesmo” é estudado é Sócrates. Destacou-se, sempre, nos diálogos platônicos a importância da Alma, da Verdade, da Virtude, etc.

E, é bastante conhecido que Sócrates caminhou pelas ruas de Atenas tentando persuadir outros cidadãos e até mesmo estrangeiros de que o fundamental é sempre o esforço em se melhorarem as almas. Pois, para ele, a alma é a parte mais preciosa (ηηκηώηεξνλ) – (Críton, 48a); tinha como principal objetivo defender a importância da alma e que esta, vale mais do que o corpo. Fica evidente que a busca da virtude, para Sócrates, está amplamente relacionada com a felicidade. Alcançar virtude é ser feliz.

No Fédon, Sócrates expõe a Símias porque se deve estar atento e priorizar, nesta vida, a virtude (ἀξεηῆο) e a prudência (θξνλήζεσο): diz ele que a recompensa é bela (θαιὸλ γὰξ ηὸ ἆζινλ), e é grande a esperança (ἡ ἐιπὶο κεγάιε)! (Fédon, 114c).

Pois, se é assim que queremos pensar, necessário reconhecermos que ...

“Os homens que de alguma forma, cuidam de sua alma (κέιεη ηῆο ἑαπηῶλ ςπρῆο) e não vivem com o pensamento fito no corpo (ζώκαηη πιάηηνληεο δῶζη), quando dizem adeus a todo este tipo de prazeres (εἰδόζηλ) é para seguir um trilho bem diverso daqueles que não sabem aonde vão dar: pois, convictos como estão de que nada devem fazer, que seja contrário à filosofia (ζνθίᾳ πξάηηεηλ) e à libertação purificadora (ηῇ θηινἐθείλεο ιύζεη) que neles opera, é na sua direção que se voltam, seguindo espontaneamente na via por onde ela os conduz (ὑθεγεῖηαη) – (Fédon, 82d).”

Encerro esta pequena “reflexão matinal” com dois poemas. Um sobre “razão e sentimento” que de certa forma sempre foi um tema recorrente aqui no blog. Sempre retorno a este assunto:


"TENHO TANTO SENTIMENTO

Tenho tanto sentimento

Que é frequente persuadir-me

De que sou sentimental,

Mas reconheço, ao medir-me,

Que tudo isso é pensamento,

Que não senti afinal.

 

Temos, todos que vivemos,

Uma vida que é vivida

E outra vida que é pensada,

E a única vida que temos

É essa que é dividida

Entre a verdadeira e a errada.

 

Qual porém é verdadeira

E qual errada, ninguém

Nos saberá explicar;

E vivemos de maneira

Que a vida que a gente tem

É a que tem que pensar."

(18-9-1933)[2]

Este segundo que cito, é por uma reflexão sobre o “presenteísmo”, sobre o que para nós realmente tem importância, nosso foco principal. Tema bem pertinente para um momento de “fuga mundi”; e “tempus fugit”.

 Pra termos esperança!!! 


“O FUTURO FOI ASSIM


Pairava no tempo

um perigo de sonho.

 

Mas os homens não tiveram medo

e se vestiram da coragem do existir.

 

Então, novas eras, como plumas

pousaram na fronte dos velhos,

no ombro dos moços

e no coração das crianças.

 

E foi assim

que nenhuma esperança se perdeu.

E a partir desse instante

a alma do mundo

nunca mais se rendeu

(Nara Rúbia Ribeiro)

Renovadas as esperanças, sigamos em luta.

Portanto, passaram-se os tempos tolos quando pensei que a “revolução” era lá fora. Que nada: é interna, pessoal e intransferível.

______.

AGOSTINHO. Confissões. São Paulo: Penguin/Companhia das Letras, 2017.

ARRIANO FLÁVIO. O Encheirídion de Epicteto. Edição Bilíngue. Tradução do texto grego e notas Aldo Dinucci; Alfredo Julien. Textos e notas de Aldo Dinucci; Alfredo Julien. São Cristóvão. Universidade Federal de Sergipe, 2012. 96 p.

DINUCCI, A.; JULIEN, A. O Encheiridion de Epicteto. Coimbra: Imprensa de Coimbra, 2014.

EPICTETO. Entretiens. Livre I, II, III, IV. Trad. Joseph Souilhé. Paris: Les Belles Lettres, 1956.

______. Epictetus Discourses. Book I. Trad. Dobbin. Oxford: Clarendon, 2008.

______. O Encheirídion de Epicteto. Trad. Aldo Dinucci; Alfredo Julien. São Cristóvão: EdiUFS, 2012. (Edição Bilíngue)

______. Testemunhos e Fragmentos. Trad. Aldo Dinucci; Alfredo Julien. São Cristóvão: EdiUFS, 2008.

EPICTETUS. The Discourses of Epictetus as reported by Arrian; fragments; Encheiridion. Trad. Oldfather. Harvard: Loeb, 1928.  https://www.loebclassics.com/

FRANKL,Viktor. Yes to Life: in spite of everything. Beacon Press, 2020.

______. Um sentido para a vida: psicoterapia e humanismo. Aparecida, SP: Ideias e letras, 2005.

GAZOLLA, Rachel.  O ofício do filósofo estóico: o duplo registro do discurso da Stoa, Loyola, São Paulo, 1999.

HADOT, Pierre. The inner citadel: the meditations of Marcus Aurelius. London: Harvard University Press, 2001.

HANH, Thich Nhat. Meditação andando: guia para a paz interior. 21. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2000.

IRVINE, William B. A Guide to the Good Life: the ancient art of Stoic joy. New York: Oxford University Press, 2009.

KARDEC, A. Le Livre des Esprits. Paris, Dervy-Livres, s.d. (dépôt légal 1985). (O Livro dos Espíritos. Trad. Guillon Ribeiro, ______. O livro dos Espíritos. 93. ed. - 1. reimpressão (edição histórica). Brasília, DF: Feb, 2013. (As virtudes e os vícios” - Q. 893-912)

KIERKEGAARD, S. A. O desespero humano: doença até a morte. São Paulo: Abril Cultural, 1979.

______. O desespero humano: São Paulo: Ed. UNESP, 2010.

______. Do desespero silencioso ao elogio do amor desinteressado. (Org. Alvaro Valls). Escritos, 2004.

______. O conceito de angústia. 3. ed. Trad. Alvaro Valls. Petrópolis, RJ, Vozes, 2015.

LONG, A.A. A stoic and Socratic guide to life. New York: Oxford University Press, 2007.

______. Epictetus: a stoic and socratic guide to life. New York: Oxford University Press. 2007.

______. (Org.) Primórdios da filosofia grega. São Paulo: Ideias e Letras, 2008.

MAY, R. (Org.). Psicologia existencial. Rio de Janeiro: Globo, 1980.

______. A descoberta do ser. São Paulo: Rocco, 1988.

______. O homem à procura de si mesmo. São Paulo: Ed. Círculo do livro, 1992.

______. Psicologia do dilema humano. 2. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2009.

MARCO AURÉLIO. Meditações. São Paulo: Abril Cultural, 1973. (Livro II. 1).

PLATÃO. Górgias, Eutidemo, Hípias Maior e Hípias Menor. Trad. Edson Bini. Bauru, SP: EDIPRO, 2007.

________. Mênon. Trad. Maura Iglésias. Rio de Janeiro: Ed. PUC-RIO; São Paulo: Ed. Loyola, 2001.________. Górgias, Protágoras. 3. ed. Trad. Carlos Alberto Nunes. Edição bilíngue; Belém, PA, 2021.

________. Mênon, Eutidemo. 3. ed. Trad. Carlos Alberto Nunes. Edição bilíngue; Belém, PA, 2021.

________. República de Platão. Trad. J. Guinsburg. São Paulo: Perspectiva, 2012.

________. Teeteto. Trad. Adriana Manuela Nogueira e Marcelo Boeri. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2010.

________. Fedro, Eutífron, Apologia de Sócrates, Críton, Fédon. Trad. Edson Bini. Bauru, SP: Edipro, 2008.

SÉNECA, Lúcio Aneu. Cartas a Lucílio. 5. ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbekian, 2014.




[1]KANT, Immanuel. Vorlesung über die philosophische Encyclopädie. InKant gesalmmelte Schriften, XXIX, Berlin, Akademie, 1980, pp. 8 e 12).

[2] PESSOA, Fernando. Poesias. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15. ed. 1995).

terça-feira, 28 de dezembro de 2021

REFLEXÃO MATINAL CVI: A "DICOTOMIA DO CONTROLE" E "PROGRESSO" INDIVIDUAL

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Advertia Sêneca: 

"Quer saber qual é a coisa que com maior empenho deves evitar? A multidão!"

Foi essa, mais uma das "reflexões da manhã", estudando e escrevendo mais um capítulo de livro e revisando alguns outros textos para submissão. 

No intervalo, mais um, aproveitando uma pausa com a pesquisa principal, anotei o trecho que segue abaixo, que reli hoje pela manhã. No textos a que me dedico, numa perspectiva estoica, é notório e recorrente o convite a estar atento ao que realmente está ao nosso alcance e o que não é de nossa alçada, separando pacientemente uma coisa da outra e daí prossigamos.

O convite é sempre reiterado, nessa linha de interpretação em que estamos desenvolvendo esse texto (para publicação posterior).  

Podemos observar que a prática visada concernente à filosofia moral, numa perspectiva estoica, neste caso, tem sempre como motivação a busca individual pelo “progresso”, pela conquista de Virtude

“[...] Grande é a luta, divina é a tarefa; o prêmio é um reino, liberdade [ἐλευθερίας], serenidade [εὐροίας], paz [ataraxia - ἀταραξία].” se

É tarefa principal de quem pretenda reformular os próprios hábitos, por exemplo, reeducar-se na busca do Bem (vida boa) que está ao alcance de cada um, para que, daí descubra que tudo o que lhe sucede durante a vida não é necessariamente um mal a paralisá-lo.

“...se queres progredir, conforma-te em parecer insensato e tolo quanto às coisas exteriores. Não pretendas saber coisa alguma.” (EPICTETO. Encheiridion. XIII).

Assim, prosseguimos, das últimas reflexões matinais sobre esse tema, o retorno a uma abordagem estoica sobre (“princípios filosóficos", em (51.1) e "principios" e (52.1), no Encheirídion): concentrando no que podemos controlar e aceitarmos o que não podemos!

A citação abaixo, é uma tradução (com as notas) do prof. Aldo Dinucci. 

[51.1] Εἰς ποῖον ἔτι χρόνον ἀναβάλλῃ τὸ τῶν βελτίστων ἀξιοῦν σεαυτὸν καὶ ἐν μηδενὶ παραβαίνειν τὸν αἱροῦντα λόγον; παρείληφας τὰ θεωρήματα, οἷς ἔδει σε συμβάλλειν, καὶ συμβέβληκας. ποῖον ἔτι διδάσκαλον προσδοκᾷς, ἵνα εἰς ἐκεῖνον ὑπερθῇ τὴν ἐπανόρθωσιν ποιῆσαι τὴν σεαυτοῦ; οὐκέτι εἶ μειράκιον, ἀλλὰ ἀνὴρ ἤδη τέλειος. ἂν νῦν ἀμελήσῃς καὶ ῥᾳθυμήσῃς καὶ ἀεὶ ὑπερθέσεις ἐξ ὑπερθέσεις ποιῇ καὶ ἡμέρας ἄλλας ἐπ' ἄλλαις ὁρίζῃς, μεθ' ἃς προσέξεις σεαυτῷ, λήσεις σεαυτὸν οὐ προκόψας, ἀλλ' ἰδιώτης διατελέσεις καὶ ζῶν καὶ ἀποθνῄσκων. [51.2] ἤδη οὖν ἀξίωσον σεαυτὸν βιοῦν ὡς τέλειον καὶ προκόπτοντα· καὶ πᾶν τὸ βέλτιστον φαινόμενον ἔστω σοι νόμος ἀπαράβατος. κἂν ἐπίπονόν τι ἢ ἡδὺ ἢ ἔνδοξον ἢ ἄδοξον προσάγηται, μέμνησο ὅτι νῦν ὁ ἀγὼν, καὶ ὅτι ἤδη πάρεστι τὰ Ὀλύμπια καὶ οὐκ ἔστιν ἀναβάλεσθαι οὐκέτι, καὶ ὅτι παρὰ μίαν ἧτταν καὶ ἔνδοσιν καὶ ἀπόλλυται προκοπὴ καὶ σῴζεται. [51.3] Σωκράτης οὕτως ἀπετελέσθη, ἐπὶ πάντων προάγων ἐαυτὸν μηδενὶ ἄλλῳ προσέχων ἢ τῷ λόγῳ. σὺ δὲ εἰ καὶ μήπω εἶ Σωκράτης, ὡς Σωκράτης γε εἶναι βουλόμενος ὀφείλεις βιοῦν.

[51.1] Por quanto tempo ainda esperarás para que te julgues merecedor das melhores coisas e para que em nada transgridas os ditames da razão? Recebeste os princípios filosóficos, com os quais foi preciso concordar, e concordaste. Por qual mestre ainda esperas para que confies a ele a correção de ti mesmo? Não és mais um adolescente, já és um homem feito. Se agora fores descuidado e preguiçoso, e sempre fizeres adiamentos após adiamentos, fixando um dia após o outro o dia depois do qual cuidarás de ti mesmo, não perceberás que não progrides. E permanecerás, tanto vivendo quanto morrendo, um homem comum. [51.2] Então, a partir de agora, como um homem feito e que progride, considera a tua vida merecedora de valor. E que seja lei inviolável para ti tudo o que se apresentar como o melhor. Então, se uma tarefa árdua, ou prazerosa, ou grandiosa, ou obscura te for apresentada, lembra que essa é a hora da luta, que essa é a hora dos Jogos Olímpicos, e que não há mais nada pelo que esperar, e que, por um revés ou um deslize, perde-se o progresso, ou o conserva. [51.3] Deste modo Sócrates realizou-se: de todas as coisas com que se deparou, não cuidou de nenhuma outra, exceto a razão. E tu, mesmo que não sejas Sócrates, deves viver desejando ser como Sócrates.

Ademais;

“(1) O que progride[1] é o que aprendeu dos filósofos que o desejo é pelas coisas boas e que a repulsa é em relação às más; é o que aprendeu também que o curso sereno de vida[2] e a ausência de sofrimento na alma[3] não advêm de outro modo ao homem senão não falhando no desejo e não se deparando com o <objeto d>a repulsa , <o que progride>; é o que removeu de si mesmo por completo o desejo e o deferiu[4] , <e que> faz uso da repulsa somente em relação às coisas passíveis de escolha[5] . (2) Já que sabe que, se repudiar alguma das que não são passíveis de escolha[6] , um dia se deparará com o <objeto> de sua repulsa e será desafortunado. (3) Mas se a própria excelência[7] é a promessa de produzir felicidade, ausência de sofrimento na alma, curso sereno de vida[8] , também o progresso em relação à excelência é indubitavelmente o progresso em relação a cada uma dessas coisas. (4) Pois para onde quer que a realização completa de algo conduza, para aí tende o progresso.”[9]

E, enfim:

"[1.1] Τῶν ὄντων τὰ μέν ἐστιν ἐφ' ἡμῖν, τὰ δὲ οὐκ ἐφ'  ἡμῖν. ἐφ' ἡμῖν μὲν ὑπόληψις, ὁρμή, ὄρεξις, ἔκκλισις καὶ ἑνὶ λόγῳ ὅσα ἡμέτερα ἔργα· οὐκ ἐφ' ἡμῖν δὲ τὸ σῶμα, ἡ κτῆσις, δόξαι, ἀρχαὶ καὶ ἑνὶ λόγῳ ὅσα οὐχ ἡμέτερα ἔργα. [1.2] καὶ  τὰ μὲν ἐφ' ἡμῖν ἐστι φύσει ἐλεύθερα, ἀκώλυτα, παραπόδιστα,  τὰ δὲ οὐκ ἐφ' ἡμῖν ἀσθενῆ, δοῦλα, κωλυτά, ἀλλότρια."

"[1.1] Das coisas existentes, algumas são encargos nossos; outras não. São encargos nossos o juízo, o impulso, o desejo, a repulsa – em suma: tudo quanto seja ação nossa. Não são encargos nossos o corpo, as posses, a reputação, os cargos públicos – em suma: tudo quanto não seja ação nossa.  [1.2] Por natureza, as coisas que são encargos nossos são livres, desobstruídas, sem entraves. As que não são encargos nossos são débeis, escravas, obstruídas, de outrem. (EPICTETO. Encheirídion. I, 1-2, 2012)"

Volto sempre a essa citação do Encheirídion, de Epicteto. Nela esteve o fundamental para reflexão matinal de hoje a partir da filosofia estoica: pensar na "dicotomia estoica do controle", o "progresso individual" e a inadequação de alguns indivíduos (Ich) às "multidões".

E, como diz Agostinho: "Os homens saem para fazer passeios, a fim de admirar o alto dos montes, o ruído incessante dos mares, o belo e ininterrupto curso dos rios, os majestosos movimentos dos astros. E, no entanto, passam ao largo de si mesmos. Não se arriscam na aventura de um passeio interior”. 

Agora, volto ao trabalho!

______.

AGOSTINHO. Confissões. São Paulo: Penguin/Companhia das Letras, 2017.

ARRIANO FLÁVIO. O Encheirídion de Epicteto. Edição Bilíngue. Tradução do texto grego e notas Aldo Dinucci; Alfredo Julien. Textos e notas de Aldo Dinucci; Alfredo Julien. São Cristóvão. Universidade Federal de Sergipe, 2012. 96 p.

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EPICTETUS. The Discourses of Epictetus as reported by Arrian; fragments; Encheiridion. Trad. Oldfather. Harvard: Loeb, 1928.  https://www.loebclassics.com/

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MARCO AURÉLIO. Meditações. São Paulo: Abril Cultural, 1973. (Livro II. 1)

SÉNECA, Lúcio Aneu. Cartas a Lucílio. 5. ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbekian, 2014.

terça-feira, 30 de novembro de 2021

REFLEXÃO MATINAL XIII: O DE SEMPRE, PROHAÍRESIS (II)

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Texto principal encerrado, mais uma pausa para reler um texto de 2019.

"Torna meu pensamento capaz de se adaptar seja ao que for que venha a acontecer” (EPICTETO, Diatribes, II, 2, 21)

Antes de começar a pensar, ressalte-se que "adaptar-me" aqui não é sinônimo de conivência com absurdos, como se há de perceber abaixo.

Li, certa vez, não me lembro onde, algo sobre a Filosofia estoica ser uma doutrina da coerência consigo mesmo. A Razão perfeita que eles buscam ou defendem é a mesma para pensar a comunidade dos humanos Seria a Razão a que rege o “mundo dos homens”, da mesma maneira, a que rege o homem considerado individualmente.

Nessa maneira de ver as coisas, em que o homem procura seu local of control, sua “inner citadel, está o cerne da razão mesma. 
Inegável que todo o homem tem um conhecimento natural de realidade essencial, sente a aspiração pelo Bem, felicidade e a paz de espírito.

É comum a todo homem o esforço na busca do Bem e em evitar o mal. 

Nesse sentido é que os estoicos propunham o conceito de epiméleia (cuidado de si) e o conceito de oikeíosis (apropriação de si). Ao que se pretenda aventurar pelo caminho da filosofia, no que se refere ao aprofundamento dessa busca, diz Epicteo nas (Diatribes, I, 22, 9-15):

Que é, então, a educação filosófica? É aprender a aplicar nossas prenoções naturais aos casos particulares de uma maneira conforme com a natureza; é em seguida, discernir, em meio aos seres, aquilo que depende de nós e aquilo que não depende. Depende de nós: a pessoa e todos os seus atos; não depende de nós: o corpo, as partes do corpo, aquilo que nós possuímos, os parentes, os irmãos, as crianças, a pátria, em uma palavra aqueles com quem nós vivemos. Em que então devemos colocar nosso bem?  A que tipo de realidade aplicaremos este nome? Àquelas que dependem de nós. - “Quê! Então não é um bem a saúde, a integridade do corpo, a vida? Não? Nem mesmo as crianças, os parentes ou a pátria? Quem poderia crer?” – Transportemos então para esses últimos objetos a denominação de bens. Então é possível ser feliz se injuriado e privado dos bens? – “Isso não é possível”. – E, ter com aqueles que vivem perto de vós as relações que devem existir? E como isso seria possível? Porque eu sou levado pela natureza a considerar meu interesse. Se for meu interesse ter um campo; é também meu interesse pegar aquele do vizinho; se for meu interesse ter uma veste, é também meu interesse roubá-lo de uma casa de banhos. Daí, as guerras, as dissensões, as tiranias, os complôs.”

O “coração” do homem, segundo o Epicteto, pode ser posto nas coisas que não dependem de nós, e é disso que resulta a visão de que o mundo é um horror, um “inferno” (segundo alguns).

Ora, sendo um estoico Epicteto orienta sobre a maneira de nos posicionarmos em relação ao mundo, à natureza. Se está chovendo, faz calor, faz frio mas eu desejava outra coisa, não a que está acontecendo, não devo me perturbar. Realmente, difícil entrar no ritmo dessa disciplina, mas é procedimento da educação filosófica estoica.

Disso reflitamos sobre se não é fundamental, ainda na perspectiva da educação filosófica estoica, colocarmos nosso “coração” nas coisas que dependem mesmo de nós. Desenvolvermos, e insistindo que não é fácil, uma adaptação, com o tempo, às circunstâncias.

"Eis como nós representamos a tarefa do filósofo. Falta ainda procurar realizá-la. Vemos que alguém se torna carpinteiro graças a um aprendizado, piloto graças a um aprendizado. Não é portanto claro que também nesse caso não basta querer ser alguém de bem, mas é necessário um aprendizado? Nós procuramos qual é esse aprendizado. Os filósofos dizem que é preciso começar por isto:  Existe um Deus, ele exerce sua Providência sobre todo o Universo (hoti esti théos kaí pronoeî  ton hólon), e não é possível esconder dele, não somente suas ações como também seus próprios pensamentos e desejos. (EPICTETO, Diatribes, II, 14, 9-12).”

 À medida que estudo as obras dos estoicos, sobre os quais anoto aqui nessa página os resultados de pesquisa, fica claro para mim: há no interior do ser humano, aquilo que levou Piere Hadot a chamar de “cidadela interior”, que acima ressaltei com “local of control” e “coração” do homem. Onde está seu "coração" aí estará o homem. Portanto, é necessário aferirmos nossas escolhas (prohaíresis - προαίρεσις).

E, é sempre bom lembrar:

[1.1] Τῶν ὄντων τὰ μέν ἐστιν ἐφ' ἡμῖν, τὰ δὲ οὐκ ἐφ'  ἡμῖν. ἐφ' ἡμῖν μὲν ὑπόληψις, ὁρμή, ὄρεξις, ἔκκλισις καὶ ἑνὶ λόγῳ ὅσα ἡμέτερα ἔργα· οὐκ ἐφ' ἡμῖν δὲ τὸ σῶμα, ἡ κτῆσις, δόξαι, ἀρχαὶ καὶ ἑνὶ λόγῳ ὅσα οὐχ ἡμέτερα ἔργα. [1.2] καὶ  τὰ μὲν ἐφ' ἡμῖν ἐστι φύσει ἐλεύθερα, ἀκώλυτα, παραπόδιστα,  τὰ δὲ οὐκ ἐφ' ἡμῖν ἀσθενῆ, δοῦλα, κωλυτά, ἀλλότρια. [1.3] μέμνησο οὖν, ὅτι, ἐὰν τὰ φύσει δοῦλα ἐλεύθερα οἰηθῇς καὶ τὰ ἀλλότρια ἴδια, ἐμποδισθήσῃ, πενθήσεις, ταραχθήσῃ, μέμψῃ καὶ θεοὺς καὶ ἀνθρώπους, ἐὰν δὲ τὸ σὸν μόνον οἰηθῇς σὸν εἶναι, τὸ δὲ ἀλλότριον, ὥσπερ ἐστίν, ἀλλότριον,  οὐδείς σε ἀναγκάσει οὐδέποτε, οὐδείς σε κωλύσει, οὐ μέμψῃ  οὐδένα, οὐκ ἐγκαλέσεις τινί, ἄκων πράξεις οὐδὲ ἕν, οὐδείς σε βλάψει, ἐχθρὸν οὐχ ἕξεις, οὐδὲ γὰρ βλαβερόν τι πείσῃ. [1.4] τηλικούτων οὖν ἐφιέμενος μέμνησο, ὅτι οὐ δεῖ μετρίως   κεκινημένον ἅπτεσθαι αὐτῶν, ἀλλὰ τὰ μὲν ἀφιέναι παντελῶς, τὰ δ' ὑπερτίθεσθαι πρὸς τὸ παρόν. ἐὰν δὲ καὶ ταῦτ' ἐθέλῃς καὶ ἄρχειν καὶ πλουτεῖν, τυχὸν μὲν οὐδ' αὐτῶν τούτων τεύξῃ διὰ τὸ καὶ τῶν προτέρων ἐφίεσθαι, πάντως γε μὴν  ἐκείνων ἀποτεύξη, δι' ὧν μόνων ἐλευθερία καὶ εὐδαιμονία περιγίνεται. [1.5] εὐθὺς οὖν πάσῃ φαντασίᾳ τραχείᾳ μελέτα ἐπιλέγειν ὅτι ‘φαντασία εἶ καὶ οὐ πάντως τὸ φαινόμενον’.  ἔπειτα ἐξέταζε αὐτὴν καὶ δοκίμαζε τοῖς κανόσι τούτοις οἷς  ἔχεις, πρώτῳ δὲ τούτῳ καὶ μάλιστα, πότερον περὶ τὰ ἐφ' ἡμῖν  ἐστιν ἢ περὶ τὰ οὐκ ἐφ' ἡμῖν· κἂν περί τι τῶν οὐκ ἐφ' ἡμῖν  ᾖ, πρόχειρον ἔστω τὸ διότι ‘οὐδὲν πρὸς ἐμέ’.”

[1.1] Das coisas existentes, algumas são encargos nossos; outras não. São encargos nossos o juízo, o impulso, o desejo, a repulsa – em suma: tudo quanto seja ação nossa. Não são encargos nossos o corpo, as posses, a reputação, os cargos públicos – em suma: tudo quanto não seja ação nossa.  [1.2] Por natureza, as coisas que são encargos nossos são livres, desobstruídas, sem entraves. As que não são encargos nossos são débeis, escravas, obstruídas, de outrem. [1.3] Lembra então que, se pensares livres as coisas escravas por natureza e tuas as de outrem, tu te farás entraves, tu te afligirás, tu te inquietarás, censurarás tanto os deuses como os homens. Mas se pensares teu unicamente o que é teu, e o que é de outrem, como o é, de outrem, ninguém jamais te constrangerá, ninguém te fará obstáculos, não censurarás ninguém, nem acusarás quem quer que seja, de modo algum agirás constrangido, ninguém te causará dano, não terás inimigos, pois não serás persuadido em relação a nada nocivo. [1.4] Então, almejando coisas de tamanha importância, lembra que é preciso que não te empenhes de modo comedido, mas que abandones completamente algumas coisas e, por ora, deixes outras para depois. Mas se quiseres aquelas coisas e também ter cargos e ser rico, talvez não obtenhas estas duas últimas, por também buscar as primeiras, e absolutamente não atingirás aquelas coisas por meio das quais unicamente resultam a liberdade e a felicidade. [1.5] Então pratica dizer prontamente a toda representação bruta: “És representação e de modo algum <és> o que se afigura”. Em seguida, examina-a e testaa com essas mesmas regras que possuis, em primeiro lugar e principalmente se é sobre coisas que são encargos nossos ou não. E caso esteja entre as coisas que não sejam encargos nossos, tem à mão que: “Nada é para mim”. (EPICTETO. O Encheirídion, 2012)

Em épocas como a atual, de tantas afirmativas alucinadas, incrementadas de "ideologias" que impedem o exercício do Bom senso, é bom exercício escolher adaptar-se ao quenos torna melhores, que no ajude a corrigir nossas falhas!

______.

ARRIANO FLÁVIO. O Encheirídion de Epicteto. Edição Bilíngue. Tradução do texto grego e notas Aldo Dinucci; Alfredo Julien. Textos e notas de Aldo Dinucci; Alfredo Julien. São Cristóvão. Universidade Federal de Sergipe, 2012.

CÍCERO. On Duties. Trad. W. Miller. Harvard: Loeb Classical Library, 1913.

______. On the Nature of the Gods. Academics.Trad. H. Rackham. Harvard: Loeb Classical Library, 1933.

______. De Finibus. Bonorum Et Malorum. Trad. H. Rackham. Harvard: Loeb Classical Library, 1914.

______. Letters to Friends. Volume I: Letters 1-113. Trad. B. Shackleton. Harvard: Loeb, 2001

DESCARTES, René.  As paixões da alma. São Paulo: Martins Fontes, 1998.

DIÓGENES LAÉRCIO. Lives of Eminent Philosophers. vol. I, II.Trad. R. D. Hicks. Harvard: Loeb Classical Library, 1925.

DINUCCI, A.; JULIEN, A. O Encheiridion de Epicteto. Coimbra: Imprensa de Coimbra, 2014.

EPICTETO. Entretiens. Livre I, II, III, IV. Trad. Joseph Souilhé. Paris: Les Belles Lettres, 1956.

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EPICTETUS. The Discourses of Epictetus as reported by Arrian; Fragments; Encheiridion. Trad. Oldfather. Harvard: Loeb, 1928.

HADOT, Pierre. The inner citadel: the meditations of Marcus Aurelius. London: Harvard University Press, 2001.

______. A filosofia como maneira de viver: entrevistas de Jeannie Carlier e Arnold I. Davidson. (Trad. Lara Christina de Malimpensa). São Paulo: É Realizações, 2016.

______. Exercícios Espirituais e Filosofia Antiga. Trad. Flavio Fontenelle Loque e Loraine Oliveira. Prefácio de Davidson, Arnold. São Paulo: É Realizações, 2014. 

MARCO AURÉLIO. Meditações. São Paulo: Abril Cultural, 1973.

ROBERTSON, Donald. The Philosophy of Cognitive Behavioural Therapy (CBT): stoic philosophy as rational and Cognitive Psychotherapy. Londres  : Karnac Books, 2010.

______. Pense como um imperador. Trad. Maya Guimarães. Porto Alegre: Citadel Editora, 2020.

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SELLARS, J. The Art of Living: the stoics on the nature and function of philosophy. Burlington: Ashgate, 2003.

SÉNECA, Lúcio Aneu. Cartas a Lucílio. 5. ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbekian, 2014.

sábado, 20 de novembro de 2021

REFLEXÃO MATINAL C: O QUE É O HOMEM E O QUE LHE CABE REALIZAR?

 

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“É entusiasmante pensar que a natureza humana será sempre melhor desenvolvida e aprimorada pela educação, e que é possível chegar a dar àquela forma, a qual em verdade convém à humanidade. Isso abre perspectiva para uma futura felicidade da espécie humana.” (KANT, 1999. p. 16-17)

Pausa na oficina, depois de ter estudado "Do ideal de sumo bem como um fundamento determinante do fim último da razão pura'segunda seção da Crítica da Razão pura'", aproveito para a reflexão matinal. 

Ora, um dia desses, outra vez andei pensando nessa questão que hoje, bem cedinho, retornei a ela como já faço sempre aqui, nas páginas deste blog. Assim, portanto, dediquei o início da manhã a re-pensar sobre a “progressão do Espírito" (cf. LE 100-127) acrescido de serenidade:

"Se, pois, para as coisas que fazemos existe um fim que desejamos por ele mesmo e tudo o mais é desejado no interesse desse fim; e se é verdade que nem toda coisa desejamos com vistas em outra (porque, então, o processo se repetiria ao infinito, e inútil e vão seria o nosso desejar), evidentemente tal fim será o Bem, ou antes, o Sumo Bem." (ARISTÓTELES. 1984).

...

Sumo Bem como “fim” exige que nosso esforço seja no sentido de não desperdiçarmos o já alcançado. Que o já conquistado seja preservado num abraço resoluto na busca das virtudes.

De olho no conjunto, faz-se necessário que nos sustentemos em fundamentos sólidos, perenes, nos avanços de si, por si, para si. É, portanto, nosso dever a impormo-nos o tornar mais nobre o que há muito é desejado e buscado. Já existe, em certa medida; ainda fragmentado, disperso e necessita unidade.

Ou seja: é melhor abandonar o que não somos nós, o que não é tarefa nossa. Neste sentido, a recomendação de Epicteto:

[48.b2] ὄρεξιν ἅπασαν ἦρκεν ἐξ ἑαυτοῦ· τὴν δ' ἔκκλισιν εἰς μόνα τὰ παρὰ φύσιν τῶν ἐφ' ἡμῖν μετατέθεικεν. ὁρμῇ πρὸς ἅπαντα ἀνειμένῃ χρῆται. ἂν ἠλίθιος ἢ ἀμαθὴς δοκῇ, οὐ πεφρόντικεν. ἐνί τε λόγῳ, ὡς ἐχθρὸν ἑαυτὸν παραφυλάσσει καὶ ἐπίβουλον.

[48.b2] Retira de si todo o desejo e transfere a repulsa unicamente para as coisas que, entre as que são encargos nossos, são contrárias à natureza. Para tudo, faz uso do impulso amenizado. Se parecer insensato ou ignorante, não se importa. Em suma: guarda-se atentamente como um inimigo traiçoeiro”.

E, Kant diz em: "Do ideal de sumo bem como um fundamento determinante do fim último da razão pura", que me motivou a escrever esse texto breve para reflexão pessoal.

"Todo o interesse da minha razão (tanto especulativa como prática) concentra-se nas seguintes três interrogações:

Que posso saber?

Que devo fazer?

Que me é permitido esperar?

[...]

primeira questão é simplesmente especulativa. Esgotamos (e disso me ufano) todas as respostas possíveis e encontramos enfim aquela com a qual a razão é obrigada a contentar-se e, mesmo quando não se ocupa do interesse prático, também tem motivo para estar satisfeita; mas ficamos tão distanciados dos dois grandes fins para onde está orientado todo o esforço da razão pura, como se por comodidade tivéssemos renunciado desde o princípio a este trabalho. Se portanto, se trata do saber, é pelo menos seguro e está bem estabelecido que, em relação a estas duas perguntas, nunca poderemos saber algo.

segunda interrogação é simplesmente prática. É certo que, como tal, pode pertencer à razão pura, mas não é transcendental, é moral, e, por conseguinte, não pode em si mesma fazer parte da nossa crítica.

terceira interrogação: Se faço o que devo fazer, que me é permitido esperar? é ao mesmo tempo prática e teórica, de tal modo que a ordem prática apenas serve de fio condutor para a resposta à questão teórica e, quando esta se eleva, para a resposta à questão especulativa. Com efeito, toda a esperança tende para a felicidade e está para a ordem prática e para a lei moral, precisamente da mesma forma que o saber e a lei natural estão para o conhecimento teórico I das coisas. A esperança leva, por fim, à conclusão que alguma coisa é (que determina o fim último possível), porque alguma coisa deve acontecer; o saber, à conclusão que alguma coisa é (que age como causa suprema) porque alguma coisa acontece.

A felicidade é a satisfação de todas as nossas inclinações (tanto extensive, quanto à sua multiplicidade, como intensive, quanto ao grau e também protensive, quanto à duração). Designo por lei pragmática (regra de prudência) a lei prática que tem por motivo a felicidade; e por moral (ou lei dos costumes), se existe alguma, a lei que não tem outro móbil que não seja indicar-nos como podemos tornar-nos dignos da felicidade. A primeira aconselha o que se deve fazer se queremos participar na felicidade; a segunda ordena a maneira como nos devemos comportar para unicamente nos tornarmos dignos da felicidade. A primeira funda-se em princípios empíricos; pois, a não ser pela experiência, não posso saber quais são as inclinações que querem ser satisfeitas, nem quais são as causas naturais que podem operar essa satisfação. A segunda faz abstração de inclinações e meios naturais de as satisfazer e considera apenas a liberdade de um ser racional em geral e as condições necessárias pelas quais somente essa liberdade concorda, segundo princípios, com a distribuição da felicidade e, por conseqüência, pode pelo menos repousar em simples idéias da razão pura e ser conhecida a priori.

Admito que há, realmente, leis morais puras que determinam completamente a priori o fazer e o não fazer (sem ter em conta os móbiles empíricos, isto é, a felicidade), ou seja, o uso da liberdade de um ser racional em geral e que estas leis comandam de uma maneira absoluta (não meramente hipotética, com o pressuposto de outros fins empíricos) e portanto são, a todos os títulos, absolutas. Posso pressupor esta proposição recorrendo não só às provas dos moralistas mais esclarecidos mas ao juízo moral de todo o homem, quando quer pensar claramente semelhante lei"

Aferindo resultados práticos

“Aquele que progride é quem aprendeu dos filósofos que o desejo é pelas coisas boas e que a repulsa é pelas coisas más; é o que aprendeu também que a serenidade e a privação de sofrimento (tó euroyn kaí apathés) não advêm de outro modo ao homem senão assegurando o desejo e evitando o repulsa [...] Como, portanto, concordamos ser a virtude algo tal e buscamos e exibimos progresso em outras coisas? Qual a obra da virtude? A serenidade (euróia)." (Epicteto. D. I, IV.)

A meta: com essas máximas tomadas como maneira de caminhar em busca das virtudes, o propósito é alcançar a eudaimonia (embora Kant critique a concepção de eudaimonia), chegar euroia [εὐροίας]: serenidade, com a recomendação de Epicteto, por exemplo: 

  1. apátheia (ἀπάθεια): ausência de paixões e,
  2. ataraxía (ἀταραξία):imperturbabilidade da alma.

Neste sentido, um modo de levar em frente o projeto tem sido acrescentar a leitura que Pierre Hadot fez da filosofia estoica. Ora, o que ele denominou “exercícios espirituais” tem possibilitado a reflexão e uma “metodologia” para uma verdadeira transformação do ‘si mesmo’ que muitos estoicos e o próprio Epicteto viam como “conversão” por ser uma ética profundamente vinculada a proairesis (προαίρεσις): escolhas: 

É nesse sentido, que prossigo esse estudo em meio ao restante: aperfeiçoar a proairesis é aperfeiçoar a nossa capacidade de escolha e como devemos bem viver.

Para Bem vivermos faz-se urgente, portanto, uma disciplina centrada na atenção de si e o cultivo da razão.

Portanto, apesar de tudo estar por realizar, ainda... Prossigamos. É tarefa do prokopton!

(Grifos e destaques meus)


______.

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TEMPO DE ESTUDOS. LEITURA DE "AMOR AO BELO E AO BEM: ESTUDOS SOBRE O BANQUETE E A REPÚBLICA DE PLATÃO" (II)

 Amor ao belo e ao bem: estudos sobre o Banquete e a República de Platão “ O Amor é o anseio de imortalidade. ” ( Platão - Banquete   Termin...