quinta-feira, 11 de junho de 2026

REFLEXÃO MATINAL CXXIX: “CURA OU CONTROLE DAS PAIXÕES”? GALENO E AS "PAIXÕES DA ALMA E SEUS ERROS" (II)

Tem sido comum e bastante frequente, nas leituras de autores escolhidos para um determinado enfoque, encontrar nestes, reflexões sobre a "natureza humana". Na obra dos Estoicos entre outros grandes filósofos, por exemplo, o tema é fundamental. É o que foi a Reflexão matinal de hoje.Tem sido comum e bastante frequente, nas leituras de autores escolhidos para um determinado enfoque, encontrar nestes, reflexões sobre a "natureza humana". Na obra dos Estoicos entre outros grandes filósofos, por exemplo, o tema é fundamental. É o que foi a Reflexão matinal de hoje.

“As paixões são como um corcel, que só tem utilidade quando governado, e que se torna perigoso quando passa a governar. Uma paixão se torna perigosa a partir do momento em que deixais de poder governá-la, e que dá em resultado um prejuízo qualquer para vós mesmos ou para outrem.” (LE, Q. 908)

Começo com Musonius Rufus, que teria dito:

Todos nós fomos feitos pela natureza, de forma que possamos viver livre de erros e de forma nobre, não que um possa e outro não possa, todos podemos.”

Evidente que, como andam as coisas hoje em dia, não é difícil encontrar, inúmeros opositores ensandecidos, desequilibrados, a insistirem na negação de que se possa nascer com inclinação para as virtudes. Preferem defender que possa haver no homem uma natureza corrupta em si mesma do que admitir que, na verdade, haveria a possibilidade de que uma certa “natureza humana” pudesse ter se corrompido; que se tenha tomado direções equivocadas e desviado da meta, a qual como diz Musonius Rufus: “todos podemos” chegar. A filosofia seria uma ferramenta para retorno à nossa verdadeira “natureza humana”. Este é o foco aqui!

O que se aprenderá com a filosofia, no modo defendido aqui é que ela pode sim, revelar uma "essência" em nós. O erro, o equívoco, será uma constante mesmo na vida de quem persista em agir corretamente, mas daí não se poder ratificar que há somente uma natureza corrompida; pelo contrário, o que haveria é que, no exercício cotidiano a ocorrência dos erros e dos desvios de rota sempre se apresentam. Cabe-nos a “escolha”!

E, é isso, que exige de nós, sempre, uma profunda e repetida reflexão, por parecer apontar na direção de uma solução distante e quase impossível. Os Estoicos defendem que qualquer um pode reverter um mau comportamento, reparar os erros e se reorientar na direção no caminho das Virtudes dedicando-se ao estudo regular, constante e disciplinado da filosofia. Para eles a prática das virtudes começa por aí e prossegue-se aprendendo a separar o que é bom (virtude) do que é mau (vícios).

A meta, portanto: aprendermos a admitir que há coisas às quais podemos impor nosso controle e há coisas que fogem da nossa alçada e é pífio o poder de termos controle sobre elas. O que a proposta dos Estóicos sugere é que se exercite as ações em consonância com as que fogem ao nosso domínio, que estariam, talvez, no domínio das leis naturais. A Filosofia é tomada, portanto, como prática diária na correção dos erros e na compreensão e aceitação das próprias limitações.

Ademais, tendo estudado com frequência a obra dos estoicos, com profundo interesse no estudo sobre as paixões, recentemente, a partir mesmo do próprio Descartes, encontrei relações bem interessantes a serem pensadas e acrescentei um artigo do prof. S.S. Chibeni que corrobora em grande medida as minhas reflexões.

Portanto, é nesse sentido acrescento um trecho de artigo deste professor sobre o que diz Descartes em seu “Paixões da alma” porque neste texto ele apresenta o tema numa nova perspectiva, tomando como ponto de partida uma análise da “natureza das paixões”; desenvolve a ideia de “controle das paixões” muito presente no texto de Descartes enquanto os estoicos por exemplo falavam em “cura das paixões”.

Ou seja, analisa  “[...] as paixões dos pontos de vista fisiológico, psicológico e anímico. Utilizando [...] as noções de paixões boas e más, de efeitos bons e maus, de malefícios e benefícios sem questionar a distinção do bem e do mal. É evidente que para aplicarmo-nos ao controle de nossas paixões é preciso antes saber distinguir o bem do mal. Isso cabe à área da filosofia denominada moral ou ética. Descartes e a maior parte dos grandes filósofos atribuíram grande importância ao estudo da moral, procurando determinar o critério do bem e do mal e os fundamentos nos quais se apóie. Segundo ele não “[...] podemos adentrar esse assunto aqui. E se atém “[...] unicamente a alguns aspectos das relações entre as paixões e a moral, tratados em As Paixões da Alma.” sugerindo para isso a leitura atenta nesse ponto os parágrafos 47 - 49 e 52; os parágrafos 137-138 e ainda do LE Q. 907-908. (eu sempre estendo até à questão 912)

No fina de seu artigo, na seção “Na direção do infinito” ao fazer uma proposta para essa busca, diz ele: 

“Não poderíamos concluir este pequeno trabalho sem mencionar que no final da terceira parte de seu livro Descartes apresenta brevemente um outro aspecto das percepções da alma, complementar ao das paixões, tais quais as entendia. Vimos que para ele estas últimas tinham sempre uma "contraparte" orgânica. 

Sugerimos, por nossa vez, que esse aspecto talvez não seja central nas paixões, que parecem antes ser inerentes à própria alma.

De qualquer modo, dentro do referencial que elaborou, Descartes também notou que há percepções da alma que radicam nela própria, ou, em suas palavras, "emoções interiores que são excitadas na alma apenas pela própria alma" (§ 147; grifamos). Um dos exemplos que dá é a "alegria intelectual" que sentimos quando lemos um romance ou assistimos a uma peça teatral em que as situações excitam em nós diversas paixões, como a alegria, a tristeza, o ódio, o amor, trazendo-nos todas uma espécie de prazer de ordem superior.

Vejamos estas belas passagens do parágrafo 148, em que Descartes desenvolve o tema:

Ora, visto que essas emoções interiores nos tocam mais de perto e têm, por conseguinte, muito mais poder sobre nós do que as paixões que se encontram com elas, e das quais diferem, é certo que, contanto que a alma tenha sempre do que se contentar em seu íntimo, todas as perturbações que vêm de outras partes não dispõem de poder algum para prejudicá-la. Servem, antes, para lhe aumentar a alegria, pelo fato de, vendo que não pode ser por elas ofendido, conhecer com isso a sua própria perfeição. E, para que a nossa alma tenha assim do que estar contente, precisa apenas seguir estritamente a virtude. Pois quem quer que haja vivido de tal maneira que sua consciência não possa censurá-lo de alguma vez ter deixado de fazer todas as coisas que julgou serem as melhores (que é o que chamo aqui seguir a virtude), recebe daí uma satisfação tão poderosa para torná-lo feliz que os mais violentos esforços da paixão nunca têm poder suficiente para perturbar a tranqüilidade de sua alma.

Descartes aponta, assim, uma espécie de sublimação dos sentimentos, na direção da alegria perene e sem mácula que resulta tão-somente da prática da virtude. Essa a alegria que viveremos um dia, quando, pelos nossos esforços, lograrmos alcançar a excelsa condição de Espíritos puros.”

Bastante oportuno sem dúvidas, para as intenções de estudos por aqui, encontrar estas relações entre grandes filósofos e aproveitar seus escritos para a “filosofia prática” (Chibeni, 1997)

Link para o artigo: https://www.geeu.net.br/artigos/paixoes.pdf

...

Acrescentando hoje: o "Tratado das paixões da alma e de seus erros", de Galeno, traduzido por Nilton Milanez

Esta primeira tradução brasileira do Tratado das paixões da alma e de seus erros, de Galeno, realizada pelo pesquisador Nilton Milanez da Universidade do Estado da Bahia, insere-se nos estudos da retórica antiga e do estoicismo tardio, com rigor filológico e precisão linguística. Galeno articula uma ética do autodomínio, mostrando que “as paixões são as causas dos erros”. O tratado desenvolve técnicas de controle das emoções e exercícios graduais de disciplina. A prática de exame de si é central, pois “carregamos um alforge… no da frente, os defeitos dos outros; no detrás, os nossos”. Esse trabalho sobre si fundamenta o governo de si e prepara o sujeito para o governo do outro, horizonte pedagógico e ético do sábio, nesta obra incontornável sobre a reflexão de si na nossa atualidade.

(Os grifos e destaques são meus)

______.

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ZINGANO, Marco. Aristóteles: tratado da virtude moral. São Paulo: Odysseus Editora, 2008.

quarta-feira, 10 de junho de 2026

MEDITAÇÃO RETROSPECTIVA NOTURNA CXXII: PARADOXOS

A Carta é longa e, lendo bastante, mas digitando devagar ainda... quis destacar, para mim, alguns tópicos:

1º Passo: A Carta LXXXVII é uma reflexão de Sêneca sobre  “A vida feliz”.

Como em das obras que conhecemos e citaremos a abaixo, trata-se pensar sobre a verdadeira natureza da riqueza. Faz então uma defesa de que uma prática importante para uma “vida feliz” é o exrcicio de uma vida bem simples.

Destaco na Carta o que Sêneca considera fundamental: a ideia de que a riqueza em si mesma não é um bem nem um mal, parecido com o que defende Epicteto, seria indiferente se não for usada com Virtude (caminho reto da razão) e não é jamais um critério para a felicidade (aqui, para essa discussão, estou estudando o conceito de ‘eudaimonia - εὐδαιμονία ” nos antigos e uma crítica que Kant fez na sua obra sobre a filosofia prática).

E para Sêneca, recordado uma ocasião que, durante uma viagem, precisou dormir no chão, fazendo refeições muito básicas mas conseguiu preservar a calma e serenidade, ficando claro para ele que a felicidade verdadeira é do Espírito, na mente que não se deixa abater.  

Enfim, faz uma crítica aos excessos que introduzimos em nossas vidas, ao apego exorbitante ao que é material que acaba nos escravizando ao que é efêmero. Ao contrário, se não dermos ao acessório o valor do essencial, seremos livres.

2º Passo - Carta LIII: Sobre as falhas do Espírito (desenvolvendo)

Em seguida, uma antiga reflexão que fiz em 2016 quando reli esta Carta; hoje acrescento aqui, como um desdobramento para a reflexão de hoje partindo da Carta LXXXVII citada acima 

 Publiquei aqui, esse texto que escrevi há dez anos; que hoje reapareceu nas "lembranças" que o "Facebook" de vez em quando traz. 

Como parte do que vim fazer aqui, vale a lembrança, para mim. Por isso cito Sêneca, para quem é sempre melhor ser virtuoso que douto, também por isso, o cuidado sempre maior com as coisas e doenças do corpo... são bem mais fáceis de identificar...

“Sucede o contrário às doenças que afectam o espírito: quanto piores nós estamos menos damos por elas! [...] Porque é que ninguém confessa os seus vícios? Porque ainda está dominado por eles: contar um sonho implica que se esteja acordado, confessar os vícios significa que se está curado deles. Despertemos, pois, para podermos criticar os nossos erros.”
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Publiquei aqui, esse texto que escrevi há dez anos; que hoje reapareceu nas "lembranças" que o "Facebook" de vez em quando traz. 

Como parte do que vim fazer aqui, vale a lembrança, para mim. Por isso cito Sêneca, para quem é sempre melhor ser virtuoso que douto, também por isso, o cuidado sempre maior com as coisas e doenças do corpo... são bem mais fáceis de identificar...

Sucede o contrário às doenças que afectam o espírito: quanto piores nós estamos menos damos por elas! [...] Porque é que ninguém confessa os seus vícios? Porque ainda está dominado por eles: contar um sonho implica que se esteja acordado, confessar os vícios significa que se está curado deles. Despertemos, pois, para podermos criticar os nossos erros.”
____.
COELHO, Humberto Schubert. Genealogia do Espírito. Brasília, DF: 2012.

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______. O pensamento crítico: história e método. Juiz de Fora, MG: Editora UFJF, 2022.

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quinta-feira, 4 de junho de 2026

REFLEXÃO VESPERTINA CLXXVII: ANOTAÇÔES ESPARSAS SOBRE "AUTOCONTROLE"

ESTUDO SOBRE TEXTOS LIDOS NA MANHÃ DE HOJE

1º Passso.Hegemonicon - ἡγεμονικόν:

"A filosofia não visa a assegurar qualquer coisa externa ao homem. Isso seria admitir algo que está além de seu próprio objeto. Pois assim como o material do carpinteiro é a madeira, e o do estatuário é o bronze, a matéria-prima da arte de viver é a própria vida de cada pessoa." (Epiteto. D. I, XV : 2)

Mais uma das brevíssimas reflexões tendo como base o Hegemonikon.

Hegemonikon: para os estoicos, o que dá unidade a toda vida psíquica humana, a fonte da vida da alma e do conjunto psicofísico, da consciência e das faculdades cognitivas superiores, como capacidade representativa, julgamento e razão.

E, partindo dessa palavra: Hegemonicon - ἡγεμονικόν, reflito na manhã de hoje sobre o que pode ser entendido como “verdadeira liberdade”; tentando uma aproximação com Pierre Hadot que desenvolve uma discussão sobre a noção de “cidadela interior - em seu livro: Inner citadelao que tenho sempre acrescentado minhas reflexões sobre as “leis naturais”.

E mais, por estar trabalhando nesse sentido, de reviravolta, de compreensão racional das “Leis naturais”, Hegemonicon - ἡγεμονικόν passou a servir como uma referência fundamental a um poder interior que se posiciona como quem domina e comanda as ações a partir dessa “compreensão racional” das “leis naturais”; uma atividade embasada na razão e especificamente humana.

Ora, foi um momento para essa manhã; na vida, em que paramos e aplicamo-nos no esforço em fazer a coisa certa, a escolha certa; a melhor tomada de decisão, desviando (clinâmen) das absurdidades do presente "caótico" que se nos afigura "catastroficamente" (para alguns), mas que, sem desânimo, tentamos fazer disso momentos de recomeços, de refazimento.

A tarefa se insere numa meta mais ampla, portanto, fortalecermo-nos e nos sustentarmos na direção da tão almejada “tranquilidade” (ἀπάθεια - apatheia), e a mais "imperturbável paz de espírito” (Ἀταραξία - ataraxia)

É mais um momento de refletir estoicamente... ou, no mínimo, sermos coerentes na caminhada. Serena e solitária caminhada. 

Ademais:

Não comeces tu a fazer os teus males mais graves do que são e a afligires-te com queixumes. Toda dor é ligeira quando não a julgamos a partir da opinião comum. Se, pelo contrário, começares a exortar-te a ti mesmo e a dizer: “Isto não é nada, ou pelo menos não é nada de importância! O que é preciso é paciência [Duremus]! Isto passa já!” — pelo próprio fato de considerares ligeiras as tuas dores, já estás a torná-las de fato ligeiras. Todos os nossos juízos estão suspensos da opinião comum. Não são apenas a ambição, o luxo, a avareza que se regulam por ela: também sentimos as dores de acordo com a opinião [ad opinionem dolemus]. Cada um só é desgraçado na justa medida em que se considera tal. Em meu entender, há que pôr termo às lamentações por dores já passadas, e que evitar palavras como: “Nunca alguém esteve tão mal como eu! Que dores, que sofrimentos eu padeci! Ninguém imaginava que eu iria recuperar! Quantas vezes a família chegou a chorar-me e os médicos a abandonarem-me como morto! Os supliciados na mesa de tortura não sofrem tormentos iguais aos meus!”. Mesmo que tudo isto fosse verdade, pertence já ao passado. O que é que se ganha em re-sentir os sofrimentos passados, qual a vantagem de, por o ter sido uma vez, continuar a sentir-se desgraçado? E não é verdade que toda gente exagera consideravelmente os próprios males, mentindo, afinal, a si mesma?”  (Sêneca, L. A. Cartas a Lucílio, LXXVIII, 13-14, 2014.)

2º passo: para a "cura das paixões" o "prokopton - προκόπτων" buscando o "progresso moral" e "domínio de si"

Hoje 04 de junho de 2026, também acrescento uma leitura da Carta LXXV, (§§ 1-18) de Sêneca, uma das mais cartas em que fala com Lucílio sobre o “progresso moral.  Em linguagem didática faz-se valer de um comparação com a medicina (que também me fez lembrar de Musônio Rufo, professor de Epicteto numa certa recomendação de dever agir com médicos : “Devemos viver como médicos, tratando a nós mesmos com a razão, contra os males de não usá-la" (Musónio Rufo)” . O “prokopton - προκόπτων é comparado com o doente em tratamento...

Como ia dizendo, acho as cartas de Sêneca muito didáticas e extremamente elucidativas. Mas, Lucílio teria reclemado da simplicidade com que Sêneca redigia suas cartas e este, responde que é assim que a Filosofia  deve ser transmitida para ser compreendida. (eu mesmo, de minha parte, acho impressionante como Sêneca desenvolve suas cartas sem conceitos rebuscados)

Como tenho estudado o estóicos como filósofos que estão sempre propondo uma filosofia prática e de “cura das paixões” aprendi com esse texto de Sêneca que há, nesse sentido, três classes (Carta LXXV, §§ 9-18) “entre os estudiosos da filosofia existem consideráveis diferenças” que podem ser divididas em:

A primeira classe: “abarca aqueles que, embora ainda não atingindo a sapiência, já se encontram perto de o conseguir; o próprio facto de estarem perto,  contudo, implica que a sapiência ainda lhes é exterior.”

A segunda classe: “compreende aqueles que se conseguiram libertar das principais enfermidades da alma e das paixões, mas não a ponto de gozarem definitivamente de um estado de perfeita tranquilidade. Por outras palavras, estão ainda sujeitos a retroceder ao estádio precedente.”

A terceira classe: “já está liberta de numerosos e consideráveis vícios, mas ainda não de todos. Está livre de avareza, mas sujeita ainda à ira; já não é tentada pelo prazer, mas é-o pela ambição; está liberta do deseja, mas não do temor e, no que toca aos objetos de temosr, pode mostrar-se firme perante alguns mas ceder perante outros: por exemplo, não recear a morte, mas ter medo da dor física.”

Portanto, nisso consiste nosso trabalho: “[...] em não desejarmos nada que seja imoral ou excessivo; em termos o maior domínio sobre nós próprios: sermos donos de nó mesmos é bem inestimável”

______.

ARRIANO FLÁVIO. O Encheirídion. Edição Bilíngue. Tradução do texto grego e notas Aldo Dinucci; Alfredo Julien. Textos e notas de Aldo Dinucci; Alfredo Julien. São Cristóvão. Universidade Federal de Sergipe, 2012).


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MASSI, Cosme. Aprendizagem efetiva. Curitiba, PR: Ed. Nobiltá, 2020.

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______. A ordem didática de "O livro dos Espíritos". Curitiba, PR: Ed. Nobiltá, 2014.

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______. Espírito e matéria. Curitiba, PR: Ed. Nobiltá, 2016.

______. Ação e Tempo: causalidade, liberdade e evolução moral. Curitiba, PR: Nobiltá, 2026. (eBook)

______. As paixões: de Descartes a Kardec. Curitiba, PR: Ed. Nobiltá, 2026.

SÊNECA, L. A. Cartas a Lucílio. 5. ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbekian, 2014. (tXXV, §§ 1-18)

terça-feira, 2 de junho de 2026

REFLEXÃO MATINAL CXXVIII: AINDA SOBRE A "TRANQUILIDADE DA ALMA"

(IMAGEM: "Pinterest")

Aqui, com estas duas Cartas de Sêneca a Lucílio, procuro fazer uma reflexão sobre a “ansiedade”. O que noto é que considera esse assunto não como um problema que está situado no presente e sim como um sofrimento auto imposto que teria sua causa na exacerbação da imaginação, por uma antecipação do incerto futuro. Como alguns filósofos e mesmo alguns psicólogo discutem, seri aimportante um foco mais direcionado em vivenciarmos o presente.

1° Passo: leitura das cartas de Sêneca. 

Na Carta XIII Como já li algo semelhante no Entretiens (De l'anxiété. vol. II, cap. XIII. ) em Epicteto, “sofremos mais na imaginação do que na realidade”. Há uma antecipação transformada em medo do que pode vir a acontecer e não se dedica especificamente me viver o presente.

Já na Carta CVII, parece trabalhar na perspectiva do Premeditatio Mallorum, ou seja: mudanças inesperadas e indesejadas são inerentes à vida, inevitáveis. Aprendermos a viver com menos, moderarmos as expectativas, estarmos preparados para o enfrentamento com a realidade.

2° Passo. Aprofundamento da reflexão e a busca pela "tranquilidade da alma"

"Vtique animus ab omnibus externis in se reuocandus est: sibi confidat, se gaudeat, sua suspiciat, recedat quantum potest ab alienis et se sibi adplicet, damna non sentiat, etiam aduersa benigne interpretetur".

Reli, agora pela manhã, antes de dar início às atividades normais e, claro, durante o café: o texto de Sêneca: “Sobre a tranquilidade da alma”.

Escrito como um meio de orientação aos que aspiram dedicar-se ao aperfeiçoamento moral pessoal; dirigido ao seu amigo Aneu Sereno, a quem antes já tinha escrito o texto que é conhecido como “Sobre a constância do sábio”. Foi um grande amigo de Sêneca, pertencente à ordem equestre, formada pelos cidadãos mais abastados.

Sêneca escreve o texto com o objetivo de apresentar a doutrina estóica, sabendo que Sereno era adepto do epicurismo. Faz uma apresentação detalhada do que se pode obter do estudo de tal doutrina para a vida prática.

O que resulta dessa apresentação de Sêneca, para mim, que a publico aqui, é ter constatado elementos que tem a força de nos auxiliar nos empreendimentos de superação dos “tormentos” e dificuldades que possam nos atingir: os temores; os desejos humanos e, acima de tudo, como nos exercitarmos na direção da tranquilidade da alma, esse estado ideal de serenidade proposto e buscado pelos estoicos; que precisa vivenciá-lo de forma integral.

Um dos passos indicados na obra:

"Seja como for, a alma deve recolher‐se em si mesma, deixando todas as coisas externas: que ela confie em si, se alegre consigo, estime o que é seu, se aparte o quanto pode do que é alheio, e se dedique a si mesma; que ela não sinta as perdas e interprete com benevolência até mesmo as coisas adversas".

E, também, diante das dificuldades, nas ocasiões em que a tranquilidade da alma esteja ameaçada, ou:

"Sempre que queiras saber qual a atitude a evitar ou a assumir, regula-te pelo bem supremo, pelo objetivo de toda a tua vida. Todas as nossas ações devem conformar-se com o bem supremo: somente é capaz de determinar as ações individuais o homem que possui a noção do objetivo supremo da vida". (SÉNECA, Livro VIII - "Carta 71";(2))

E, no texto sobre o qual refleti, pela manhã, Sereno, diz a Sêneca alguns dos problemas com os quais tem dificuldade em lidar:

  • hesitação diante do desejo de bens e de prazeres corporais.
  • alternância entre desejo de atuação social e de recolhimento aos estudos.
  • dilema ético e estético relativo a busca pela fama.

Daí, em seguida pede que lhe seja dado um diagnóstico e um “remédio”:

“Rogo, então, se tem algum remédio que possa deter esta minha vacilação e me faça digno de lhe dever a paz de espírito”.

Ao que Sêneca, ao longo do texto, compreende que ele esteja buscando, na verdade, o que se pode tomar como uma das mais importantes conquistas do homem, para a Vida, um estado de tranquilidade (De Tranquillitate Animi); que entre os gregos era chamada de de euthymía (ευθυμία) (II,3). Como vemos no texto, segue o que dá início aos conselhos de Sêneca, definindo antes, a tranquilidade da alma:

“O que buscamos, então, é como a alma pode sempre seguir um rumo firme, sem percalços, pode estar satisfeita consigo mesma e olhar com prazer para o que a rodeia, e não experimentar nenhuma interrupção dessa alegria, mas permanecer em uma condição pacífica, sem nunca estar eufórica ou deprimida: isso será ‘tranquilidade’.” (II,4)

Disso parte para as recomendações:

A de que a maioria dos homens sofrem de inconstância, mudam insistentemente de objetivos e vivem a reclamar do que desistiram. Isso gera, de certa forma: “ansiedade”. Noutros casos, não se trata de inconstância, mas de um certo “comodismo” em permanecer em situação que lhes causa infelicidade, mas “continuam a viver não da maneira que desejam, mas da maneira que começaram a viver.“ (II,6). E, mais: há caso, também dos que creem que a maneira de vencer a modorrenta vida de marasmo é “viajar”, o que mais tarde se constata que se viajou levando os problemas e se retorna com eles: “Assim, cada um sempre foge de si mesmo” (II,14).

Conclusão de Sêneca: os nossos problemas não estão no lugar em que vivemos, na condição em que vivemos; eles estão em nós.

E, desafia: “Por quanto tempo vamos continuar fazendo a mesma coisa? (II,15).

Então, a partir do cap. III, começa uma lista de conselhos para busca da tranquilidade da alma.

De Atenodoro, teria vindo o primeiro, que diz: “O melhor é ocupar-se dos negócios, da gestão dos assuntos do Estado e dos deveres de um cidadão”. Ou seja, bom é exercitar-se em algum tipo atividade e fazer sempre o Bem. Recomenda ainda a filosofia, isso trará ao interessado uma certa dose satisfação e, resultará em tranquilidade da alma. E, no mínimo fará com que iniciemos uma vida diferente da maioria. Um bom começo!

Encerrando, por hoje, no capítulo IX, Sêneca faz uma crítica bem interessante, mas, que só retomarei num outro momento como este, desta manhã; ele critica os homens que compram livros e não os estudam. Assim, acrescento, meditar, exercitar-se e não adotar isso como processo de transformação das nossas vidas, de nada vale. Fundamental que utilizemos isso tudo em nos tornarmos melhores, apesar dos pesares!

______.

ARRIANO FLÁVIO. O Encheirídion. Edição Bilíngue. Tradução do texto grego e notas Aldo Dinucci; Alfredo Julien. Textos e notas de Aldo Dinucci; Alfredo Julien. São Cristóvão. Universidade Federal de Sergipe, 2012).

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segunda-feira, 1 de junho de 2026

REFLEXÃO VESPERTINA CLXXV: ANOTAÇÔES ESPARSAS SOBRE "AUTOCONTROLE"



(IMAGEM: "Pinterest")

1ª Reflexão: Por onde fores irás como és

Nesta Carta CIV (§§ 1-34) Sêneca conversa com Lucílio sobre uma certa relação entre corpo e mente (que eu vou chamar de Espírito). Trata especificamente desde os primeiros parágrafos, do tema “Paz”, defendendo que esta não pode ser alcançada fugindo fisicamente dos problemas e sim através de uma transformação interior.

Por onde fores irás como és, isso resumiria a ideia de Sêneca. A Carta desenvolve a ideia de que viajar para fugir não resolve as angústias nem muda o mundo. O que realmente ajuda é “domar as próprias paixões e vícios."

Ele mesmo saiu de Roma em direção a sua casa de campo para cuidar da saúde física, mas ressalta que se deve cuidar do corpo e satisfazê-lo apenas na medida necessária para manter uma boa saúde, para que se mantenha obediente à mente (Espírito) ou se não for assim, será um obstáculo para o desenvolvimento de Virtudes.

Na Imagem destaco a resposta de Sócrates ao ser perguntado sobre o assunto (§§ 7-8).

2ª Reflexão: Controle da paixões

Sêneca, nesta Carta CXVI (§§ 1-8) desenvolve uma reflexão sobre Autocontrole, e isso de certa forma, me faz lembrar de algumas obras de Epicteto e outros estóicos sobre o tema “cura das paixões” ou “controle das paixões”.

Para Sêneca, nesta carta, como nas Cartas 85, 94, 96 e em outras, é mais prudente errradicá-las. Por outro lado, já li nas “Paixões da alma” de René Descartes que é melhor evitar que elas surjam e tomem conta da mente (Espírito) tornando cada vez mais difícil retomar o controle racional.

Diz também Descartes: "[...] se a razão prevalecer, as paixões nem sequer começarão; mas se elas se encaminharem contra a vontade da razão, elas se manterão contra a vontade da razão. Pois é mais fácil detê-las no começo do que controlá-las quando ganham força." (DESCARTES. In: Paixões da alma).

Portanto, Sêneca, que é destaque aqui, defendia que se mantenha uma distância dos estímulos que podem provocar as paixões ruins que uma vez no controle podem adoecer a “alma”. Somente o Autocontrole pode intervir sob comando da razão (hegmonikon - ἡγεμονικόν) ou como o conceito de "locus of control” desenvolvido por um psciólogo: Julian Rotter (1916-2014).
______.

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REFLEXÃO MATINAL CXXIX: “CURA OU CONTROLE DAS PAIXÕES”? GALENO E AS "PAIXÕES DA ALMA E SEUS ERROS" (II)

Tem sido comum e bastante frequente, nas leituras de autores escolhidos para um determinado enfoque, encontrar nestes, reflexões sobre a ...