Dando prosseguimento aos meus "primeiros apontamentos" sobre o tema "relação mente-corpo" acrescento aqui um trecho de vídeo que fará parte das minhas reflexões.
Fundamental para as minhas reflexões e futura redação dessas ideias têm sido a leitura das "Meditações metafísicas" e "As paixões da alma".
O "erro" de Damásio - Prof. João Duque
(Prof. João Duque, director adjunto da Faculdade de Teologia,
Braga, faz uma crítica à perspectiva de Damásio, isto é, ao modo como este
considera o que significa o si que existe no sentimento de si. Apresentando, no
final da sua exposição, o que considera o si mesmo — o 'self' — dos humanos, em 'perspectiva cristã', e o modo como chegamos a sentir esse si mesmo 'self').
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“O Prof. João Manuel Duque, teólogo da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa (Braga), desenvolve uma análise crítica à perspetiva de António Damásio sobre o "sentimento de si", particularmente no seu texto "Do sentimento de si ao sentimento do outro".
A crítica centra-se no fato de Damásio situar o "si mesmo" (self) primordialmente numa base biológica e neurológica — um "si" construído a partir da regulação corpórea (o corpo como base). Duque reconhece o valor da abordagem neurobiológica, mas aponta as suas limitações teológicas e filosóficas.
Aqui está o resumo da crítica e da contraproposta de João Duque:
1. Crítica à Perspetiva de Damásio
O "Si" Redutível ao Corpo: Para Damásio, o self é um processo contínuo de mapeamento cerebral do estado do corpo. Duque argumenta que isto limita o self a um mecanismo de sobrevivência biológica (consciência central/autobiográfica).
Falta de Abertura Transcendental: Na visão de Damásio, o "si" está voltado para dentro (auto-preservação). Duque critica a ausência de uma dimensão que explique a capacidade humana de se transcender, de ser mais do que apenas a sua biologia, ou de sentir um "si" que se encontra na relação com o Outro (especialmente o Outro Absoluto).
O Self como "Mapeamento": Duque argumenta que o self não é apenas uma representação interna do corpo, mas um sujeito relacional.
2. O 'Si Mesmo' (Self) em Perspetiva Cristã
João Duque apresenta o self humano não apenas como um observador biológico, mas como um "ser em relação" (comunitário e teológico):
O Si como Dom: O self cristão não é apenas recebido pela biologia, mas é um dom recebido de Deus e que se realiza no dom de si aos outros.
Abertura à Transcendência: O ser humano é, por natureza, um ser religioso, o que significa que o seu sentimento de si não se esgota no corpo, mas se completa na relação com a Trascendência (Deus).
Identidade na Alteridade: O self verdadeiro ("Eu") só se encontra quando se sai de si mesmo para o encontro com o outro ("Tu" e, consequentemente, "Deus").
3. Como chegamos a sentir esse 'Si Mesmo'
Ao contrário de Damásio, que foca na regulação interna, Duque propõe que o self é sentido:
Pelo "Sentimento do Outro": O sentimento de si é mediado pelo sentimento do outro. Eu só me sinto verdadeiramente como um "eu" quando reconheço um "outro" que me ama ou que precisa de mim.
Pela Ação de "Entregar-se": O homem sente o seu self mais profundamente não apenas na preservação, mas na entrega (dom) de si.
Pela Abertura à Fé: Na perspectiva cristã, o sentimento de si atinge a sua plenitude no sentimento de ser amado por Deus, o que dá uma dignidade e um sentido ao self que supera a finitude biológica.
Em suma, Duque propõe uma antropologia onde o self é um sentimento relacional e transcendente, construído na intersecção da biologia (reconhecendo a base corpórea de Damásio) com a vocação amorosa e o mistério da fé.”
4. DUQUE, João M. Do sentimento de si ao sentimento do Outro. In: THEOLOGICA, 2.ª Série, 46, 1 (2011). Disponivel em: https://www.researchgate.net/publication/289253935_Do_sentimento_de_si_ao_sentimento_do_outro Acesso em: 12 fev. 2026.