domingo, 9 de janeiro de 2022

EM CONTRAPONTO: "O HORROR METAFÍSICO"

 


Ainda que se pretenda expulsá-la, ela retornará, forte e robusta; parece alertar o próprio Kant:

“A razão humana, num determinado domínio dos seus conhecimentos, possui o singular destino de se ver atormentada por questões, que não pode evitar, pois lhe são impostas pela sua natureza, mas às quais também não pode dar resposta por ultrapassarem completamente as suas possibilidades. Não é por culpa sua que cai nessa perplexidade. Parte de princípios, cujo uso é inevitável no decorrer da experiência e, ao mesmo tempo, suficientemente garantido por esta. Ajudada por estes princípios eleva-se cada vez mais alto (como de resto lho consente a natureza) para condições mais remotas. Porém, logo se apercebe de que, desta maneira, a sua tarefa há-de ficar sempre inacabada, porque as questões nunca se esgotam; vê-se obrigada, por conseguinte, a refugiar-se em princípios, que ultrapassam todo o uso possível da experiência e, não obstante, estão ao abrigo de qualquer suspeita, pois o senso comum está de acordo com eles. Assim, a razão humana cai em obscuridades e contradições, que a autorizam a concluir dever ter-se apoiado em erros, ocultos algures, sem contudo os poder descobrir. Na verdade, os princípios de que se serve, uma vez que ultrapassam os limites de toda a experiência, já não reconhecem nesta qualquer pedra de toque. O teatro destas disputas infindáveis chama-se Metafísica[1]”.

Em “contraponto”:

Pela manhã, estudando ainda as mesmas obras de sempre, ouvindo as obras de Beethoven, após ter relido algumas páginas do livro "Da Alemanha", da Madame Stäel, decidi desviar um pouco até às ideias de Leszek Kolakowski. Elas apontam para os problemas da religião e, por isso, anoto aqui a leitura deste livro. Por incrível que pareça, escapou da enchente, estava na estante desde 1990, quando tentei ler e não entendi nada. Agora, pelo tema “metafísica” retornei a ele por acreditar que o que ele diz aqui, merece ser conhecido e vou levar em consideração.

Ainda que alguém seja decididamente ateu ou materialista, em algum momento terá de enfrentar a questão de pensar sobre a necessidade de “acreditar em alguma coisa” situada para além do mundo empírico.

Do que apreendi do texto, é “um fato incontornável para quem pretenda entender os homens, não importando o quanto o mundo contemporâneo tenha objetivamente tornado inviáveis a maioria das percepções adotadas como fundamento de qualquer crença religiosa.”

Daí, o porque de ter começado este texto com uma citação de Immanuel Kant, na Crítica da razão pura. E, nisso o sentido de contraponto. Uma brevíssima refçexão pessoal!

Leszek Kolakowski afirma que Deus, é a última pergunta num horizonte inatingível do pensamento. Diz que em dois mil e quinhentos anos de filosofia, não pudemos, não conseguimos, responder às principais questões propostas desde o início.

O livro que li ontem, “O horror metafísico (1990)” parte daí apontando para um fracasso das buscas "metafísicas" da filosofia ocidental em que nenhum filósofo apresentou respostas.

Para Leszek Kolakowski a busca por uma explicação metafísica do mundo é “tão irremovível da cultura quanto a negação de sua legitimidade”, mas alerta que pretender que a metafísica desista de seus empreendimentos, por outro lado, é um“pensamento esperançoso de empíricos obstinados”. A questão como pretendido aqui, ao citar Kant, log no início, é a de que mesmo que não tendo conseguido chegar às explicações buscadas não significa que é desnecessária. Quero pensar aqui que é uma necessidade humana indispensável e “que não pode ser satisfeita com nada menos que o Absoluto”.

Ainda que se questione a finalidade prática ou científica, essa condição humana de procura, de buscas, não pode ser reprimida. Todos querem, um sentido e disso resultaram as investigações especulativa humanas desde o início da filosofia. No entanto, não encontrando sentidos, respostas racionais, surge o “horror”.

Há no homem, portanto, a necessidade de sentido.

“O significado de dizermos que a existência do Ultimum (ou do Absoluto) é necessária não é somente que nós, humanos, somos incapazes de perceber sua falta dentro de nossas regras lógicas e usuais de pensamento, como não pode ser uma certeza a priori que nossa lógica é infalível. Podemos encontrar tais regras irresistivelmente ligadas, mas somos criaturas finitas e contingentes e nossa lógica não é menos contingente, e do fato de que não podemos dizer não a elas, não se deduz que a realidade final tenha que obedece-las também. O significado da necessidade da existência do Ultimum é que tal necessidade é dela própria e não nossa. Nossa lógica descobre a autocontradição na não-existência do Absoluto porque sua sua não-contradição está lá na verdade, e não vice-versa.”

Kolakowski ainda diz que :“Não existe acesso a um absoluto epistemológico, e não há acesso privilegiado ao Ser absoluto que pode resultar em conhecimento teórico confiável (esta última restrição é necessária, pois nós não excluímos a priori a realidade da experiência mística, que fornece a algumas pessoas este acesso privilegiado; mas suas experiências não podem ser reinventadas numa teoria). (…) Tornando operacional e inteligível uma de todas as linguagens possíveis e por consequência tornando um ponto metafísico e epistemológico confiável nunca começamos do começo. A escolha entre todas as linguagens possíveis não é feita por Deus mas por civilizações.”

Para Kolakowski existem muitas “meio-ciências”, tentando resolver as questões ainda em aberto mas que não resistem a uma evidência.

Ele encerra o livro com essas questões:

“E não seria uma suspeita plausível de que se “ser” fosse algo sem sentido, e o universo vazio de significado, nunca teríamos alcançado a habilidade de imaginar nem a habilidade de pensar exatamente isto: que “ser” é de fato sem sentido e o universo vazio de significado?” (p.125)

Enfim, as anotações aqui, servirão de mote para avançar um pouco mais nessa reflexão sobre “metafísica” que, claro, não se esgota. Fica a imagem de que as questões, por serem tão humanas, sempre retornam e que fugir não é o melhor caminho.

______.

DESCARTES, R. Oeuvres. Org. C. Adam e P. Tannery. Paris: Vrin, 1996. 11v. [indicadas no texto como Ad & Tan]

 _______. Descartes: oeuvres et lettres. Org. André Bidoux. Paris: 
Gallimard, 1953. (Pléiade).

______. Discursos do Método; Meditações; Objeções e Respostas; As Paixões da Alma; Cartas. (Introdução de Gilles-Gaston Granger; prefácio e notas de Gerard Lebrun; Trad. de J. Guinsberg), Bento Prado J. 3. ed. São Paulo: Abril Cultural, 1983 (Os Pensadores).

______. O mundo (ou Tratado da luz) e O Homem. Apêndices, tradução e notas: César Augusto Battisti, Marisa Carneiro de Oliveira Franco Donatelli. Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2009.

DICTIONNAIRE Philosophique - édition Garnier Frères (1878). Disponível em: https://fr.wikisource.org/wiki/Wikisource:Index_des_auteurs.

GUEROULT, M. Descartes selon l’ordre des raisons. Paris: Aubier-Montaigne, 1955. 2v.

HANSSON, Sven Ove. Belief Change: introduction and overview. Springer,  2018.

HEIDEGGER, M. Sein und Zeit. Tübingen: M. Niemeyer, 1986.

______. Ser e Tempo. Trad. Fausto Castilho. Campinas - SP: Ed. Unicamp, 2012

______. Que é metafisica? Trad. Ernildo Stein. São Paulo: Abril Cultural, 1989. (Os Pensadores).

______. Kant y el Problema de la Metafísica. 3. ed. México: Fondo de Cultura Econômica, 1996.

______. A questão da técnica. Scientiæ & Studia. São Paulo, v. 5, n. 3, p. 375-98, 2007.

______. Seminários de Zolikon. São Paulo: EDUC; Petrópolis: Vozes, 2001.

______. Conceitos fundamentais de metafísica: mundo, finitude e solidão. Rio de Janeiro, RJ: Forense Universitária, 2003.

KANT, Immanuel. Lições de ética. Trad. Bruno Cunha e Charles Fedhaus. São Paulo: Editora Unesp, 2018.

______. Antropologia de um ponto de vista pragmático. Trad. Clélia Aparecida Martins. São Paulo: Iluminuras, 2006.

______. Crítica da razão prática. Tradução de Valério Rohden. São Paulo, Martins Fontes, 2002.

______. Lições sobre a doutrina filosófica da religião. Trad. Bruno Cunha. Petrópolis, RJ: Vozes, 2019.

______. A religião nos limites da simples razão. Edições 70, Lisboa, 1992.

______. Fundamentação da metafísica dos costumes. São Paulo: Discurso editoria: Barcarola, 2009.

______. Crítica da razão pura. Tradução Valerio Rohden e Udo Moosburguer. Coleção Os Pensadores. São Paulo,Abril Cultural, 1983.

______. Dissertação de 1770. De mundi sensibilis atque inteligibilis forma et principio. Akademie-Ausgabe. Trad. Acerca da forma e dos princípios do mundo sensível e inteligível. Trad., apres. e notas de L. R. dos Santos. Lisboa: Imprensa Casa da Moeda. FCSH da Universidade de Lisboa, 1985.

______. Prolegômenos a qualquer metafísica futura que possa apresentar-se como ciência. Trad. José Oscar de Almeida Marques. São Paulo: Estação Liberdade, 2014)

______. Prolegômenos a toda metafísica futura. Lisboa: Edições 70, 1982

KOLAKOWSKI, Leszek. Horror metafísico. Campinas, SP: Papirus, 1990.

______. Metaphysical horror. University of Chicago Press; Revised edition, 2001.

______. Pequenas palestras sobre grandes temas: ensaios sobre a vida cotidiana. São Paulo: Ed. Unesp, 2010.

______. Sobre o que nos perguntam os grandes filósofos. Rio de Janeiro, RJ: Civilização Brasileira, 2009.

______. Bergson. St. Augustine's Press, 2001.

______. Husserl search for certitude. St. Augustine's Press, 2001.

TEIXEIRA, L. Ensaio sobre a Moral de Descartes. 1955. 222p. Tese (Cátedra) – Faculdade de Filosofia Ciências e Letras. São Paulo, 1955.

 



[1] ______.

KANT, Immanuel. Crítica da razão pura. Trad. de Manuela Pinto dos Santos e Alexandre Fradique Morujão - Introdução e notas de Alexandre Fradique Morujão. 3. ed. - (A VII) - Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1994, p. 3.

 

quinta-feira, 6 de janeiro de 2022

GABRIEL MARCEL E KARL JASPERS: FILOSOFIA DO MISTÉRIO E FILOSOFIA DO PARADOXO

 

Um lançamento (2021) que já adiciono e vou ler em breve e comentar aqui, assim que tiver acesso à obra. Por tratar-se de um tema e autores como Karl Jaspers (chiarificazione dell'esistenza) que estudo e sempre faço brevíssimas resenhas aqui:

“Gabriel Marcel e Karl Jaspers, primo lavoro monografico di un grande filosofo e interprete dell'epoca contemporanea, Paul Ricœur, è una ricerca ampia e profonda dedicata ai suoi maestri. Uno studio che sviluppa analisi esistenziali attualissime e mostra l'utilità, forse anche l'urgenza, di un ritorno della filosofia alla «chiarificazione dell'esistenza» (Jaspers) e alla «filosofia concreta» (Marcel), perché separare il pensiero dalla vita spinge pericolosamente verso una ideazione contraria all'esistenza e contraria all'umano. «Il mio corpo e la mia storia, me stesso, l'altro, sono come i tre vertici di un grande triangolo che la riflessione esistenziale percorre in tutti i sensi».”

"Cagliari, 11 gennaio 2022, h. 10:00 Facoltà di Studi Umanistici, Aula 9 - Corpo centrale"

Il contatto per la connessione in piattaforma sarà fornito in prossimità dell'evento. Chi ha interessa a partecipare in presenza dovrà segnalarlo al seguente indirizzo: busacchi@unica.it

Cagliari, 11 de janeiro de 2022, h. 10:00 Faculdade de Letras, Sala 9 - Edifício Central

  1. O contato para conexão à plataforma será disponibilizado próximo ao evento. 
  2. Os interessados ​​em comparecer pessoalmente devem comunicar para o seguinte endereço: busacchi@unica.it

Link: Lançamento e palestra sobre a obra:

https://unica.it/unica/page/it/vinicio_busacchi_avs_conferenza_della_profssa_a_m_nieddu__lesistenzialismo_positivo_di_paul_ricoeur?fbclid=IwAR26kQZ98SXH6CA0wRZQIMKoG2xaXhgBniDTpS9N2FeGLMIRDDLvYPIDlqk

______.

BIBLIOGRAFIA

RICOUER, Paul. Gabriel Marcel e Karl Jaspers. Filosofia del mistero e filosofia del paradosso. Tab Edizioni, 2021.

(Acrescidas abaixo, algumas obras que de certa forma tocam no mesmo tema, em diferentes abordagens, às vezes).

AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais: DSM-5. 5.ed. Porto Alegre: Artmed, 2014.

ARAÚJO, Saulo Freitas. Projeto de uma psicologia científica em Wilhelm Wundt: uma nova interpretação. Juiz de Fora: EDUJF, 2010.

______. Psicologia e neurociência: uma avaliação da perspectiva materialista no estudo dos fenômenos mentais. 2. ed. revista e ampliada. Juiz de Fora: EDUJF, 2011.

BORCH-JACOBSEN, Mikkel; SHAMDASANI, Sonu. The Freud files: an inquiry into the history of psychoanalysis. Cambridge University Press, 2012.

DALGALARRONDO, Paulo. Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais. 3. ed. – Porto Alegre, RS: Artmed, 2019.

FREUD, Sigmund. Inibição. sintoma e angústia. São Paulo: Companhia das letras, 2014.

______. Inibição, sintoma e medo. Porto Alegre, RS: L&PM, 2018.

______. Interpretação do sonhos. In: Obras completas. vol 4. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.

JASPERS, Karl. Il medico nell'età della técnica. Con un saggio introduttivo di Umberto Galimberti. Milano: Raffaello Cortina Editore, 1991.

______. Der Arzt im technischen Zeitalter: Technik und Medizin. Arzt und Patient. Kritik der Psychotherapie. 2. ed. München: Piper, 1999.

______. Psicopatologia geral: psicologia compreensiva, explicativa e fenomenologia. São Paulo: Atheneu, 1979. (2 vols.)

______. Plato and Augustine. Edited by Hannah Arendt. Translated by Ralph Manheim. New York: Harvest Book, 1962.

______. Introdução ao pensamento filosófico. 16. ed. São Paulo: Cultirx, 1971.

JONAS, Hans. Técnica, medicina e ética: sobre a prática do princípio responsabilidade. São Paulo: Paulus, 2013. (Ethos).

JUNG, Carl Gustav. Psicologia do insconsciente. 22. ed. Petrópolis/RJ: Editora Vozes, 2011. (Obras completas, Vol. 7/1).

______. O eu e seu inconsciente. 27. ed. Petrópolis/RJ: Editora Vozes, 2011. (Obras completas, Vol. 7/2).

PORTA, Mario Ariel González. Psicologia e filosofia: estudos sobre a querela em torno ao psicologismo (Psychologismusstreit). São Paulo: Edições Loyola, 2020.

KANT, Immanuel. Observações sobre o sentimento do belo e do sublime. Papirus, Campinas, 1993.

KIERKEGAARD, Søren Aabye. O desespero humano: doença até a morte. São Paulo: Abril Cultural, 1979.

______. As obras do amor: algumas considerações cristãs em forma de discursos. Apresentação e tradução, Álvaro Luiz Montenegro Valls; revisão da tradução, Else Hagelund. 4. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2013.

______. Œuvres Complètes. Tome XX. Index Terminologique. Principaux concepts de Kierkegaard par Gregor Malantschuk. Traduit du danois, adapté e complété par Else-marie Jacquet-Tisseau. Paris, Éditions de L’orante, 1986.

______. O desespero humano: São Paulo: Ed. UNESP, 2010.

______. Do desespero silencioso ao elogio do amor desinteressado. (Org. Alvaro Valls). Escritos, 2004.

______. O conceito de angústia: uma simples reflexão psicológico-demonstrativa direcionada ao problema dogmático do pecado hereditário de Virgilius Haufniensis. Tradução e Posfácio Álvaro Luiz Montenegro Valls. 3. edição, Petrópolis, Vozes, 2015. (Vozes de bolso)

 MAY, Rollo. (Org.). Psicologia existencial. Rio de Janeiro: Globo, 1980.

______. A descoberta do ser. São Paulo: Rocco, 1988.

______. O homem à procura de si mesmo. São Paulo: Ed. Círculo do livro, 1992.

______. Psicologia do dilema humano. 2. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2009.

OLIVEIRA, Roni Ederson Krause de. O dever de amar segundo Kant e Kierkegaard. In: Controvérsia, São Leopoldo, v. 14, n. 2, p. 25-39, mai.-ago. 2018.

QUEVEDO, J. ; IZQUIERDO, I. (Orgs.). Neurobiologia dos transtornos psiquiátricos. Porto Alegre: Artmed, 2020. 388 p.

terça-feira, 4 de janeiro de 2022

ETICA PARA TEMPOS OBSCUROS: VALORES UNIVERSAIS PARA O SÉCULO XXI

 

 

“Markus Gabriel, escritor alemão, nos confronta com os problemas essenciais de nossa sociedade, reivindicando os valores universais do homem.

Após sua bem-sucedida trilogia do Novo Realismo, Markus Gabriel, o jovem prodígio da filosofia europeia, analisa os grandes problemas humanos destes tempos sombrios: a ameaça à democracia da extrema direita, xenofobia, populismo, coerção à liberdade e pensamento através da digitalização extrema e uma obsessão com a tecnologia, o consumismo desenfreado e os desafios do nosso meio ambiente, principalmente o coronavírus e as mudanças climáticas.

Para enfrentá-los, precisamos resgatar os valores universais nascidos do Iluminismo, e a filosofia será uma ferramenta fundamental para a construção de uma sociedade mais livre e justa, capaz de enfrentar os desafios do século XXI.”

Antes, em 2016, como já escrevi aqui, a leitura era só por curiosidade e ainda não tinha ouvido falar nada sobre a obra deste autor. Com esta leitura, no entanto, como muita coisa que ele escreve tem forte relação com temas do idealismo alemão, do realismo, propondo uma discussão e críticas interessantes a vários aspectos com os quais concordo, inclusive tocando em aspecto da neurociência, da filosofia da consciência e vários outros correlatos que este que anoto agora, sobre ética.

Além deste livro: "O sentido da existência: para um novo realismo ontológico" e os outros do autor que estou destacando aqui, há um outro traduzido, recentemente: “O sentido do pensar: a filosofia desafia a inteligência artificial” que pretendo ler em breve, também e aqui um trecho da obra. 

E, agora, acabei de descobrir o lançamento deste em língua espanhola: “Ética para tempos oscuros: valores universais para o século XXI”. Não sou um entusiasta extremo da proposta iluminista mas, talvez, por isso mesmo, os autores que estudos estão sempre envolvido nessa rede. Portanto, daí advém meu interesse nesta obra de Gabriel que discute temas atuais. Vou ler.

...

Resumo da obra“Argumentarei que há cercas (Leitplanke) morais do comportamento humano. Essas cercas abrangem todas as culturas, valem universalmente e são a fonte de valores universais para o século XXI. A sua validade não depende de que a maior parte dos seres humanos as reconheçam; elas são, portanto, neste sentido, objetivas. Em questões éticas, há exatamente tanta verdade e fatos quanto em outras esferas da reflexão e pesquisa humana – também na ética, fatos são mais importantes do que opiniões que preferem “x”. Trata-se de buscarmos conjuntamente por fatos morais que ainda não apreendemos até agora. Pois toda época oferece novos desafios éticos, e as complexas crises do ainda jovem século XXI só se deixam dominar por meio de ferramentas de pensamento inovadoras. Este livro representa uma tentativa engajada de trazer ordem ao caos existente e realmente perigoso de nosso tempo. Por isso, gostaria de desenvolver uma caixa de ferramentas filosófica para a resolução de problemas morais. O meu objetivo é dar novo impulso à ideia de que a tarefa da humanidade consiste em possibilitar o progresso moral por meio da cooperação.”

______.

GABRIEL, Markus. Ética para tempos sombrios: valores universais para o século XXI. Petrópolis, RJ: Vozes, 2022.

______. Etica para tiempos oscuros valores universales para el siglo XXI. Editorial Pasado y Presente, 2021.

______. Ética para tempos sombrios: valores universais para o século XXI. Petrópolis, RJ: Editora Vozes, 2023.

______. Eu não sou meu cérebro: filosofia do espíriot para o século XXI. Trad. Lucas Machado. Petrópolis, RJ: Editora Vozes, 2018.

______. O sentido do pensar: a filosofia desafia a inteligência artificial. Trad. Lucas Machado. Petrópolis, RJ: Editora Vozes, 2021. 

______. Ich ist nischt Gehirn: Philosophie des Geister für das 21 Jahrundert. Ullstein Taschenbuch, 2017.

______. I am not a brain:   philosophy of mind for the twenty-first century. Translated by Christopher Turner. Polity Press, 2017.

______. O sentido da existência: para um novo realismo ontológico. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2016.

______. El nuevo realismo: la filosofía del siglo XXI/ coordinado por Mario Teodoro Ramírez ; textos de Maurizio Ferraris [y otros siete]. - México, Cd. Mx: Siglo XXI Editores: Universidad Michoacana de San Nicolas de Hidalgo, 2016.

______. New Realism: problems and perspectives. Edited by Alexander Kane St. Kliment Ohridski University Press. Sofia 2019. 


segunda-feira, 3 de janeiro de 2022

ANNUAL CONFERENCES OF THE SGIR: SOCIETY FOR GERMAN IDEALISM AND ROMANTICISM 2022


ATUALIZANDO "ANNUAL CONFERENCES OF THE SGIR":


Link (SGIR): https://www.thesgir.org/home.html


Site do evento:

https://www.thesgir.org/2022-sgir-conference-and-sessions.html


1. Aesthetics and Idealism in the Age of Goethe

 Södertörn University / Stockholm / 8-10 June 2022


Keynote Speakers

– Allen Speight (Boston University)

– Violetta Waibel (University of Vienna)

– David Wellbery (University of Chicago)


Speakers

– Hannah Eldridge (University of Wisconsin)

– Luke Fischer (University of Sydney)

– Keren Gorodeisky (Auburn University)

– Johannes Haag (University of Potsdam)

– Arata Hamawaki (Auburn University)

– Elizabeth Millán (DePaul University)

– Dalia Nassar (University of Sydney)

– Anne Pollok (Johannes Gutenberg University-Mainz)

– Clinton Tolley (University of California, San Diego)

– Johannes Wankhammer (Princeton University)

– Moran Godess-Riccitelli (University of Potsdam)

– Raciel Cuevas (Temple University)

– Luke King-Salter (University of Edinburgh) 

– Arthur Krieger (Temple University)

– Eli Lichtenstein (University of Michigan)

– Rebecca Haubrich (Dalhousie University)


Conference Co-organizers and Hosts

– Karl Axelsson (Södertörn University)

– Camilla Flodin (Uppsala University)

– Gerad Gentry (Lewis University/Humboldt University)

– Mattias Pirholt (Södertörn University)

 

(2) Theoretical Philosophy of Kant and Hegel

Humboldt University of Berlin / Berlin / 16-17 June 2022


Keynote Speakers

– Béatrice Longuenesse (New York University)

– Robert Pippin (University of Chicago)


Speakers & Chairs

– Mark Alznauer (Northwestern University)

– Brady Bowman (Penn State University)

– Dina Emundts (Free University of Berlin)

– Katharina Kraus (University of Notre Dame)

– James Kreines (Claremont McKenna Coll)

– Dean Moyar (Johns Hopkins University)

– Karen Ng (Vanderbilt University)

– Julia Peters (University of Tübingen)

– Philipp Schwab (University of Freiburg)

– Sally Sedgwick (Boston University)

– Clinton Tolley (University of California, San Diego)

– Janum Sethi (University of Michigan, Ann Arbor)

– Gualtiero Lorini (Catholic University of the Sacred Heart)

– Angela Breitenbach (University of Cambridge) 

– Jim Conant (University of Bonn)

– Eckart Förster (Humboldt University of Berlin)

– Johannes Haag (University of Potsdam)

– Karin Nisenbaum (Syracuse University)


Conference Organizer

– Gerad Gentry (Lewis University/Humboldt University)


Host

– Tobias Rosefeldt (Humboldt University of Berlin)


Sponsor

– Alexander von Humboldt-Stiftung

 

Some of the following SGIR sessions at the APA can be attended online. Please visit the APA divisional website for more information.

 

SGIR Sessions at the APA

 

Eastern APA (Baltimore & online):

(1) Friday, January 7, Afternoon, 12:00–1:50 p.m.

G11C. Society for German Idealism and Romanticism

Topic: Kant on the Human Condition: Practical and Theoretical Considerations

Speakers:

Rosalind Chaplin (New York University) “Is Kant’s Supreme Principle of Pure Reason the Principle of Sufficient Reason?”

Lucy Allais (Johns Hopkins University) “Freedom and Autonomy in Kant”

Chair: Karin Nisenbaum (Syracuse University)

 

(2) Tuesday, January 18, Midday, 11:00 a.m.–12:50 p.m.

G24A. Society for German Idealism and Romanticism (formerly G15A) Topic: Women Philosophers in the Long Nineteenth Century: The German Tradition

Speakers: Samantha Matherne (Harvard University)

Kristin Gjesdal (Temple University) Lydia Moland (Colby College)

Chair: Karin Nisenbaum (Syracuse University)

 

Central APA (Chicago):

(3) Friday, February 25, Evening, 7:00–10:00 p.m. (cont.)

G4Q. Society for German Idealism and Romanticism Topic: On the Value of Human Beings

Speakers: Kyla Ebels-Duggan (Northwestern University) “Buck-Passing and the Value of a Person” 

Nandi Theunissen (University of Pittsburgh) “Explaining the Value of Human Beings”

Chair: Anthony Laden (University of Illinois Chicago)

 

(4) Saturday, February 26, Late Afternoon, 2:00–5:00 p.m. (cont.)

G5M. Society for German Idealism and Romanticism

Topic: Author Meets Critics: Katalin Makkai, Kant’s Critique of Taste: The Feeling of Life

Author: Katalin Makkai (Bard College)

Critics: Espen Hammer (Temple University) 

Richard Eldridge (University of Tennessee) 

Chair: Eliza Little (University of Chicago)

 

Pacific APA (Vancouver):

(1) Title: Session of the Society for German Idealism and Romanticism

Speakers: Marina F. Bykova (North Carolina State University), “Hegel’s Emergentist Account of Nature and Its Development”

Morganna Lambeth (Purdue University), “Heidegger’s Interpretation of the Transcendental Deduction”

Commentator: Jeffery Kinlaw (McMurry University)

Ana Vieyra Ramirez (Emory University

Chair: J.M. Fritzman (Lewis & Clark College)

 

SGIR Review

 

We are pleased to have Jake McNulty and Andrew Werner as the new Editorial Directors of the SGIR Review. Lara Ostaric is the Philosophy Area Editor, Daniel Carranza is the Germanic Studies Area Editor, Eliza Little is the Symposium Review Editor, and Jessica Williams is the Book Review Editor. For a complete list of the editorial team see the SGIR Review website. We are particularly grateful to Lydia Moland and Andreja Novakovic for their past work in these positions! 

Please find below the editorial directors’ call for papers for the Fall 2022 issue:

 

SGIR Review Special Issue Call for Papers

 

Philosophical Methods in German Idealism and Romanticism

The Journal of the Society for German Idealism and Romanticism (SGIR Review) is pleased to announce a call for papers for an upcoming special issue on the topic of philosophical methods in German Idealism and Romanticism.

Kant’s philosophical revolution was a revolution in philosophical method: rejecting both the “physiological” method of empiricists and the geometrical method of rationalists, he instead advocated that philosophy should consist in a certain kind of critical reflection on what we bring with us to experience. This, of course, raises a great many questions: Kant taught that philosophy done right should be critical – but what does that mean, and what qualifies as a true critique? Must philosophy at least in part consist in exposing the illusions of reason? What, if anything, is wrong with a philosophy that begins from first (i.e., self-evident or indubitable) principles? Could we rest content with an understanding of the necessary presuppositions of cognition, or should we instead seek to eschew presuppositions? Is it even possible for us to grasp the presuppositions we bring with us to philosophy – or might philosophy, in grasping those presuppositions, mutilate them? And what do these questions imply about post-Kantian skepticism, in its Cartesian and Humean guises?

Kant’s philosophical revolution resulted not so much in an agreement on his method, as in a heightened awareness of the importance of philosophical method; the result was a range of different experiments with methods amongst Kant’s immediate successors. Should philosophy rely on some kind of intellectual intuition? Is one’s method dependent upon one’s character in some fashion? Is a properly systematic philosophy, one that pretends to absolute necessity in its progression, the only way to truly satisfy self-consciousness? Must philosophy be all or nothing, or does insightful philosophy rather consist in fragments?

The SGIR-Review is inviting papers that address any of these questions on philosophical method in Kant and his Idealist and Romantic successors, as well as papers on any other aspect of philosophical method in these figures – including those that relate reflections on method by one or more of these thinkers to issues in contemporary philosophy.

Papers should be between 5,000-12,000 words (inclusive of footnotes and bibliography. Anonymized papers should be submitted to Lara Ostaric (lostaric@temple.edu) by March 15 to be considered for publication.

––––––––––––––––––––––––––––

 

 

Our 2023 annual conference will take place at Boston University. If you are interested in hosting a future conference or have an idea for an APA session or would like to be considered as a Guest Editor for an SGIR special issue, please reach out to us at sgircommittee@gmail.com 

 

XIV INTERNATIONAL COUNTY CONGRESS "IMMANUEL KANT" - EM KALININGRADO 2024

 


14. Internationaler Kant-Kongress

DER WELTBEGRIFF DER PHILOSOPHIE

Immanuel Kant 1724 — 2024

22. — 26. April 2024

Immanuel Kant Baltic Federal University, Kaliningrad, Russland

"Em outubro de 2019, a Sociedade Kant da Alemanha (Kant-Gesellschaft e.V.) apoiou o pedido do Prof. Dra. Nina Dmitrieva (Academia Kantiana, Universidade Federal Báltica Immanuel Kant) sediará o 14º Congresso de Kant em 2024. O Congresso Internacional que marcará o 300º aniversário de Immanuel Kant será realizado em Kaliningrado, antiga Königsberg, a mesma cidade onde o filósofo nasceu , viveu, ensinou e criou suas famosas obras, que continuam a reverberar até hoje.

O Congresso acontecerá na semana a partir de 22 de abril de 2024 (300º aniversário de Kant).

O título do Congresso é: “The Cosmological Concept of Philosophy. Immanuel Kant 1724 - 2024 ”."

...

Informações sobre o início das inscrições para o XIV International County Congress, que será realizado em 2024. em Kaliningrado, no BFU, de 22 a 26 de abril e será dedicado ao 300º aniversário de Immanuel Kant.

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Sobre o Evento: 

1. No Facebbok: (Академия Кантиана / Academia Kantiana):

https://www.facebook.com/academia.kantiana/

2. Na Sociedade Kant Brasileira:

http://www.sociedadekant.org/2020/11/24/14th-international-kant-congress-2024-kaliningrad-russia/

3. Na "Immanuel Kant Baltic Federal University" - BFU (Kaliningrado) 

https://eng.kantiana.ru/kant-congress

3.

https://kant-online.ru/en/kant-kongress2024/?fbclid=IwAR1s3M_AWtlnGGeZhwc504q8Nz3Jp4miOnD9mXAcj_X3jsSGUUV5yfNA4_o


domingo, 2 de janeiro de 2022

REFLEXÃO MATINAL CVII: "REVOLUÇÃO" PESSOAL E INTRANSFERÍVEL


Morir es un cambio de existencia, y para el alma una migración de este mundo hacia otro

Apareceu nas "lembranças" aqui; de uma "reflexão matinal" que fiz em 2015.

À época, revendo certas “convicções” pensava nesta: a de que O amor existe... a felicidade é possível e, como dizia o Platão, no Górgias (473b):

"A Verdade jamais é refutada".

Acrescentei ainda, às reflexões, o fato de que a Vida tem um Sentido (Frankl); e, não me restam dúvidas.

Ademais, num mundo tão focado em proposições “presentistas”, focado em coisas “materiais”, ampliei minhas reflexões, para mim, por mim... Daí que me deparei novamente com o que me é comum e pretendo seguir ainda mais um pouquinho:

"É realmente curioso ver o materialismo falar incessantemente da necessidade de elevar a dignidade do homem, quando se esforça para reduzi-lo a um pedaço de carne que apodrece e desaparece sem deixar qualquer vestígio; de reivindicar para si a liberdade como um direito natural, quando o transforma num mecanismo, marchando como um boneco, sem responsabilidade por seus atos.(Revue. março de 1869)"

E, nisso, considero muito pertinente algumas proposições dos antigos filósofos, e os tenho estudado com frequência. O dito abaixo, em certa medida justifica isso, para mim, claro:

"Os filósofos gregos antigos, como Epicuro, Zenão, Sócrates, etc, permaneceram mais fiéis à verdadeira ideia de filosofia do que muitos nos tempos modernos. ‘Quando é que tu vais, por fim, começar a viver virtuosamente?’, dizia Platão a um ancião que lhe contava que assistia a lições sobre a virtude. Não se trata de incessantemente especular, é preciso também, de uma vez por todas, pensar na aplicação. Mas hoje considera-se um sonhador aquele que vive em conformidade com o que ensina”[1]

Portanto, dessa abordagem que estou fazendo aqui, como ponto de patida para pensar sobre a busca incessante das Virtude; da “cura das paixões”, aproveitando a manhã para estas anotações reforçando o projeto.

Nada conseguimos, nesta difícil tarefa de enfrentarmo-nos sem esforços “hercúleos”. Benjamin Franklin, por exemplo, reconheceu isso ao dizer que:

“Tho' I never arrived at the perfection I had been so ambitious of obtaining, but fell far short of it, yet I was, by the endeavour, a better and a happier man than I otherwise should have been if I had not attempted it.”

“Eu nunca cheguei à perfeição a que eu tinha sido tão ambicioso de obter; fiquei muito aquém disso, mesmo assim eu fui, pelo esforço, um homem melhor e mais feliz do que eu deveria ter sido se não tivesse tentado"

Outro neste sentido, bastante citado quando o “conhecimento de si mesmo” é estudado é Sócrates. Destacou-se, sempre, nos diálogos platônicos a importância da Alma, da Verdade, da Virtude, etc.

E, é bastante conhecido que Sócrates caminhou pelas ruas de Atenas tentando persuadir outros cidadãos e até mesmo estrangeiros de que o fundamental é sempre o esforço em se melhorarem as almas. Pois, para ele, a alma é a parte mais preciosa (ηηκηώηεξνλ) – (Críton, 48a); tinha como principal objetivo defender a importância da alma e que esta, vale mais do que o corpo. Fica evidente que a busca da virtude, para Sócrates, está amplamente relacionada com a felicidade. Alcançar virtude é ser feliz.

No Fédon, Sócrates expõe a Símias porque se deve estar atento e priorizar, nesta vida, a virtude (ἀξεηῆο) e a prudência (θξνλήζεσο): diz ele que a recompensa é bela (θαιὸλ γὰξ ηὸ ἆζινλ), e é grande a esperança (ἡ ἐιπὶο κεγάιε)! (Fédon, 114c).

Pois, se é assim que queremos pensar, necessário reconhecermos que ...

“Os homens que de alguma forma, cuidam de sua alma (κέιεη ηῆο ἑαπηῶλ ςπρῆο) e não vivem com o pensamento fito no corpo (ζώκαηη πιάηηνληεο δῶζη), quando dizem adeus a todo este tipo de prazeres (εἰδόζηλ) é para seguir um trilho bem diverso daqueles que não sabem aonde vão dar: pois, convictos como estão de que nada devem fazer, que seja contrário à filosofia (ζνθίᾳ πξάηηεηλ) e à libertação purificadora (ηῇ θηινἐθείλεο ιύζεη) que neles opera, é na sua direção que se voltam, seguindo espontaneamente na via por onde ela os conduz (ὑθεγεῖηαη) – (Fédon, 82d).”

Encerro esta pequena “reflexão matinal” com dois poemas. Um sobre “razão e sentimento” que de certa forma sempre foi um tema recorrente aqui no blog. Sempre retorno a este assunto:


"TENHO TANTO SENTIMENTO

Tenho tanto sentimento

Que é frequente persuadir-me

De que sou sentimental,

Mas reconheço, ao medir-me,

Que tudo isso é pensamento,

Que não senti afinal.

 

Temos, todos que vivemos,

Uma vida que é vivida

E outra vida que é pensada,

E a única vida que temos

É essa que é dividida

Entre a verdadeira e a errada.

 

Qual porém é verdadeira

E qual errada, ninguém

Nos saberá explicar;

E vivemos de maneira

Que a vida que a gente tem

É a que tem que pensar."

(18-9-1933)[2]

Este segundo que cito, é por uma reflexão sobre o “presenteísmo”, sobre o que para nós realmente tem importância, nosso foco principal. Tema bem pertinente para um momento de “fuga mundi”; e “tempus fugit”.

 Pra termos esperança!!! 


“O FUTURO FOI ASSIM


Pairava no tempo

um perigo de sonho.

 

Mas os homens não tiveram medo

e se vestiram da coragem do existir.

 

Então, novas eras, como plumas

pousaram na fronte dos velhos,

no ombro dos moços

e no coração das crianças.

 

E foi assim

que nenhuma esperança se perdeu.

E a partir desse instante

a alma do mundo

nunca mais se rendeu

(Nara Rúbia Ribeiro)

Renovadas as esperanças, sigamos em luta.

Portanto, passaram-se os tempos tolos quando pensei que a “revolução” era lá fora. Que nada: é interna, pessoal e intransferível.

______.

AGOSTINHO. Confissões. São Paulo: Penguin/Companhia das Letras, 2017.

ARRIANO FLÁVIO. O Encheirídion de Epicteto. Edição Bilíngue. Tradução do texto grego e notas Aldo Dinucci; Alfredo Julien. Textos e notas de Aldo Dinucci; Alfredo Julien. São Cristóvão. Universidade Federal de Sergipe, 2012. 96 p.

DINUCCI, A.; JULIEN, A. O Encheiridion de Epicteto. Coimbra: Imprensa de Coimbra, 2014.

EPICTETO. Entretiens. Livre I, II, III, IV. Trad. Joseph Souilhé. Paris: Les Belles Lettres, 1956.

______. Epictetus Discourses. Book I. Trad. Dobbin. Oxford: Clarendon, 2008.

______. O Encheirídion de Epicteto. Trad. Aldo Dinucci; Alfredo Julien. São Cristóvão: EdiUFS, 2012. (Edição Bilíngue)

______. Testemunhos e Fragmentos. Trad. Aldo Dinucci; Alfredo Julien. São Cristóvão: EdiUFS, 2008.

EPICTETUS. The Discourses of Epictetus as reported by Arrian; fragments; Encheiridion. Trad. Oldfather. Harvard: Loeb, 1928.  https://www.loebclassics.com/

FRANKL,Viktor. Yes to Life: in spite of everything. Beacon Press, 2020.

______. Um sentido para a vida: psicoterapia e humanismo. Aparecida, SP: Ideias e letras, 2005.

GAZOLLA, Rachel.  O ofício do filósofo estóico: o duplo registro do discurso da Stoa, Loyola, São Paulo, 1999.

HADOT, Pierre. The inner citadel: the meditations of Marcus Aurelius. London: Harvard University Press, 2001.

HANH, Thich Nhat. Meditação andando: guia para a paz interior. 21. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2000.

IRVINE, William B. A Guide to the Good Life: the ancient art of Stoic joy. New York: Oxford University Press, 2009.

KARDEC, A. Le Livre des Esprits. Paris, Dervy-Livres, s.d. (dépôt légal 1985). (O Livro dos Espíritos. Trad. Guillon Ribeiro, ______. O livro dos Espíritos. 93. ed. - 1. reimpressão (edição histórica). Brasília, DF: Feb, 2013. (As virtudes e os vícios” - Q. 893-912)

KIERKEGAARD, S. A. O desespero humano: doença até a morte. São Paulo: Abril Cultural, 1979.

______. O desespero humano: São Paulo: Ed. UNESP, 2010.

______. Do desespero silencioso ao elogio do amor desinteressado. (Org. Alvaro Valls). Escritos, 2004.

______. O conceito de angústia. 3. ed. Trad. Alvaro Valls. Petrópolis, RJ, Vozes, 2015.

LONG, A.A. A stoic and Socratic guide to life. New York: Oxford University Press, 2007.

______. Epictetus: a stoic and socratic guide to life. New York: Oxford University Press. 2007.

______. (Org.) Primórdios da filosofia grega. São Paulo: Ideias e Letras, 2008.

MAY, R. (Org.). Psicologia existencial. Rio de Janeiro: Globo, 1980.

______. A descoberta do ser. São Paulo: Rocco, 1988.

______. O homem à procura de si mesmo. São Paulo: Ed. Círculo do livro, 1992.

______. Psicologia do dilema humano. 2. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2009.

MARCO AURÉLIO. Meditações. São Paulo: Abril Cultural, 1973. (Livro II. 1).

PLATÃO. Górgias, Eutidemo, Hípias Maior e Hípias Menor. Trad. Edson Bini. Bauru, SP: EDIPRO, 2007.

________. Mênon. Trad. Maura Iglésias. Rio de Janeiro: Ed. PUC-RIO; São Paulo: Ed. Loyola, 2001.________. Górgias, Protágoras. 3. ed. Trad. Carlos Alberto Nunes. Edição bilíngue; Belém, PA, 2021.

________. Mênon, Eutidemo. 3. ed. Trad. Carlos Alberto Nunes. Edição bilíngue; Belém, PA, 2021.

________. República de Platão. Trad. J. Guinsburg. São Paulo: Perspectiva, 2012.

________. Teeteto. Trad. Adriana Manuela Nogueira e Marcelo Boeri. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2010.

________. Fedro, Eutífron, Apologia de Sócrates, Críton, Fédon. Trad. Edson Bini. Bauru, SP: Edipro, 2008.

SÉNECA, Lúcio Aneu. Cartas a Lucílio. 5. ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbekian, 2014.




[1]KANT, Immanuel. Vorlesung über die philosophische Encyclopädie. InKant gesalmmelte Schriften, XXIX, Berlin, Akademie, 1980, pp. 8 e 12).

[2] PESSOA, Fernando. Poesias. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15. ed. 1995).

sábado, 1 de janeiro de 2022

PRIMEIRA LEITURA DO ANO DE 2022. NUM "CLINÂMEN": AS "CRIANÇAS DE ASPERGER"

 

"Be at war with your vices, at peace with your neighbors, and let every new year find you a better man."

"Esteja em guerra com seus vícios, em paz com seus vizinhos e deixe que cada novo ano te encontre como um homem melhor." (Benjamin Franklin, leitor dos estoicos)

E, na hora do primeiro cafezinho, concluí uma leitura bem interessante!

Instigado ainda pela grande quantidade de comentários em várias postagens nas "redes sociais" desde 02 de abril deste ano que terminou, vi-me, nos últimos 3 dias, entre leituras sistemáticas e pausas propedêuticas sobre o tema, sobretudo, profiláticas quanto à ordem das coisas por aqui, relendo alguns textos sobre o tema desse breve apontamento (entre eles um breve retorno a "Um antropólogo em Marte", num brevíssimo intervalo nas leituras referentes à pesquisa, como sempre faço. Este livro, desde a primeira vez que li, interessou-me bastante os tópicos que estão na página 246 até a página  295 e também da página 332 até a p. 333), livrinho que li em 2006, como já anotei aqui nesse blog em abril de 2021.

Aqui, agora, terminei este, da historiadora Edith Sheffer:

“Em Crianças de Asperger, a premiada historiadora Edith Sheffer mostra que Hans Asperger, até então celebrado pelo pioneirismo no estudo do autismo e da síndrome que leva seu nome, não apenas esteve envolvido nas políticas raciais do Terceiro Reich de Hitler como foi cúmplice no assassinato de crianças. Uma história abrangente das ligações entre o autismo e o nazismo, e de como os diagnósticos refletem os valores, as preocupações e as esperanças de uma sociedade. O regime nazista massacrou milhões na Europa durante a Segunda Guerra Mundial, classificando as pessoas de acordo com raça, religião, comportamento e condição física para tratamento e eliminação. Os psiquiatras nazistas tinham como alvo crianças com diferentes tipos de deficiência - especialmente aquelas que demonstravam déficit de habilidades sociais -, alegando que o Reich não tinha lugar para elas. Hans Asperger e seu colega austríaco Leo Kanner foram os primeiros médicos a introduzir o termo "autismo" como diagnóstico independente para descrever certas características do distanciamento social. Asperger e seus colegas de fato se esforçaram em proporcionar cuidado individualizado para estimular o crescimento cognitivo e emocional de crianças que estariam na ponta "favorável" do espectro autista; no entanto, transferiram outras, que consideraram intratáveis, para o Spiegelgrund, um dos mais letais centros de extermínio de crianças do Reich.O objetivo desta história, segundo a autora, não é acusar nenhuma figura particular nem minar a discussão política sobre neurodiversidade inspirada pela obra de Asperger; é antes uma advertência a serviço da neurodiversidade, revelando como os diagnósticos podem ser moldados por forças sociais e políticas - e como pode ser difícil perceber e combater essas forças. Crianças de Asperger nos leva a repensar como as sociedades avaliam, rotulam e tratam os indivíduos diagnosticados com algum tipo de deficiência.”

(Grifos destaques meus)

Agora, voltando ao trabalho, de sempre!

______.

Para saber mais:

BIBLIOGRAFIA

AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais: DSM-5. 5.ed. Porto Alegre: Artmed, 2014.

ASPERGER. Hans. "Autistic psichopathy in childhood". In: FRITH, Uta, ed. Autism an asperger syndrome. Nova York: Cambridge University Presss, 1991.

DALGALARRONDO, Paulo. Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais. 3. ed. – Porto Alegre, RS: Artmed, 2019.

HEIJDER, Was Beethoven een asperger?: een 21ste-eeuwse visie op een 19de-eeuws genie. Uitgeverij Ludwig, 2016

______. Beethoven: the Asperger connection.  Independently Published, 2020.

JASPERS, Karl. Il medico nell'età della técnica. Con un saggio introduttivo di Umberto Galimberti. Milano: Raffaello Cortina Editore, 1991.

______. Der Arzt im technischen Zeitalter: Technik und Medizin. Arzt und Patient. Kritik der Psychotherapie. 2. ed. München: Piper, 1999.

______. Psicopatologia geral: psicologia compreensiva, explicativa e fenomenologia. São Paulo: Atheneu, 1979. (2 vols.)

______. Plato and Augustine. Edited by Hannah Arendt. Translated by Ralph Manheim. New York: Harvest Book, 1962.

______. Introdução ao pensamento filosófico. 16. ed. São Paulo: Cultirx, 1971.

KANNER, Leo. "Autistic disturbances of affective contact". New York: Nervous Child 2:217-50, 1943.

KIERKEGAARD. S. A. Œuvres Complètes. Tome XX. Index Terminologique. Principaux concepts de Kierkegaard par Gregor Malantschuk. Traduit du danois, adapté e complété par Else-marie Jacquet-Tisseau. Paris, Éditions de L’orante, 1986.

______. O conceito de angústia: uma simples reflexão psicológico-demonstrativa direcionada ao problema dogmático do pecado hereditário de Virgilius Haufniensis. Tradução e Posfácio Álvaro Luiz Montenegro Valls. 3. edição, Petrópolis, Vozes, 2015. (Vozes de bolso)

LOCKWOOD, Lewis. Beethoven: the musica and the life. W. W. Norton & Company, 2005.

PARK, Clara Claiborne. The Siege: a family's journey into the world of an autistic child.  Back Bay Books; Revised ed. Edição, 1982.

RIMLAND, Bernard. Infantile autism: the syndrome and its implicationsfor a mental theory of behavior. Nova York: Apple-Century-Crofts, 1964.

RODRIGUES, Adriano Carvalho Tupinambé. Karl Jasper e a abordagem fenomenológica em psicopatologia. (Rev, Latinoam. de Psicopatologia. VIII, 4, 754-76. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rlpf/a/xwYw4QxWhhxHSDQjjyhMyQB/?format=pdf&lang=pt. Acesso em: 28 de dezembro de 2021.

SACHS, Harvey. "A nona sinfonia: a obra-prima de Beethoven e o mundo na época de sua criação". Rio de Janeiro, RJ: José Olimpio, 2017.

SACKS, Oliver. Um antropólogo em marte: sete histórias paradoxais. São Paulo: Companhia das letras, (edição de bolso), 2006.

______. O olhar da mente. São Paulo: Companhia das letras, 2010.

SCHILLER, J. C. Friedrich. Cartas sobre a educação estética do homem. São Paulo: Iluminuras, 1995.

______. Kallias ou sobre a beleza: a correspondência entre Schiller e Körner (jan-fev. 1793. Trad. Ricardo Barbosa. Rio de Janeiro: J. Zahar Editores, 2002.

SHEFFER, Edith. Crianças de Asperger: as origens do autismo na Viena nazista. Rio de Janeiro, RJ: Record, 2019.

______. Asperger's children: the origins of autism in nazi Vienna. W. W. Norton & Company. Illustrated edition, 2018.

SWAFFORD, Jan. Beethoven: angústia e triunfo. Amarilys, 2017.

TEMPO DE ESTUDOS. LEITURA DE "AMOR AO BELO E AO BEM: ESTUDOS SOBRE O BANQUETE E A REPÚBLICA DE PLATÃO" (II)

 Amor ao belo e ao bem: estudos sobre o Banquete e a República de Platão “ O Amor é o anseio de imortalidade. ” ( Platão - Banquete   Termin...