sexta-feira, 8 de maio de 2026

REFLEXÃO VESPERTINA CLXIV: ANOTAÇÔES ESPARSAS SOBRE "MUDANÇA DE HÁBITOS"

(IMAGEM: "Pinterest")

Em desenvolvimento...

Andei meditando, novamente, sobre o mesmo tema e textos e elaborando novos "exercícios":  

LE - "Quando o homem se acha, de certo modo, mergulhado na atmosfera do vício, o mal não se lhe torna um arrastamento quase irresistível?

Arrastamento, sim; irresistível, não; porquanto, mesmo dentro da atmosfera do vício, com grandes virtudes às vezes deparas. São Espíritos que tiveram a força de resistir e que, ao mesmo tempo, receberam a missão de exercer boa influência sobre os seus semelhantes. (L. E. 2013. Q. 361; 645; 845)

É sabido que vivemos em meio a muita confusão. Momentos de profunda tristeza, donde sempre nos recuperamos e nos colocamos a pensar no hábito a que tantos se deixam seduzir (eu mesmo me deixei levar noutro tempo):

  • do pessimismo, por um lado e do extremo esforço em 
  • do extremo esforço em "mudar o mundo", por outro lado.

Assim, de algum tempo para cá, nos que me imponho em "mudança de hábitos", passou a ser fundamental, para mim, exercitar a superação de concepções pessimistas e abraçar com mais afinco o que mero desejo de mudar o que nos é externo; que está fora do nosso alcance.

Como tenho postado aqui, na medida em que vou estudando e tentando a pratica, "medito andando".

Dessa decisão, parti para busca de aprofundamento sistemático para a intensa busca por "eustatheia" (tranquilidade) e "euthymia" (crença em si), como já disse, é projeto em andamento “há séculos” e que, às vezes, por descuido, foi interrompido.

No entanto, retomando sigo o conselho sugerido por alguns estoicos e outros grandes sábios, como os que acrescento na Bibliografia no final do texto.

Por exemplo, sobre a mudança de hábitos antigos por novos hábitos (mais saudáveis), trabalho constantemente. E, é bastante caraterística a reflexão proposta por Epictetus em relação ao hábito e o habituar-se a determinadas ações. Segundo ele, estreitamente ligadas aos aspectos mentais de cada indivíduo.

A preocupação, portanto, sempre notada nas leituras que se faço de sua obra, como acima, é a distinção entre o que é interno (encargos nossos) e o que é externo (que não são encargos nossos), conforme EPICTETUS, no Encheiridion, I.

Ou seja, disso resulta que não é necessário o reconhecimento nas opiniões alheias, mas as próprias opiniões. Importante aqui, os hábitos novos entre os quais se refere:

  • autodomínio (enkrateia).
  • perseverança (karteria).
  • à paciência (anexikakia). 

 Também extraído do Encherídion, anoto:

“Quanto a cada uma das coisas que sucedem contigo, lembra, voltando a atenção para ti mesmo, de buscar alguma capacidade que sirva para cada uma delas. Caso vires um belo homem ou uma bela mulher, descobrirás para isso a capacidade do autodomínio. Caso uma tarefa extenuante se apresente, descobrirás a perseverança. Caso a injúria, a paciência. Habituando-te desse modo, as representações não te arrebatarão.”

Assim, ao voltar-se para si, é imperativo que cada um de nós que se proponha tal “exercício” esteja empenhado e adotar novos hábitos, contrários ao mero vício. O que se obtém de tais conselhos é que, estando cientes de que desejamos a mudança, de que o vício incomoda, devemos mudar de direção. O estoico Epictetus chega a propor que quem não se opõe a antigos hábitos; quem não os supera nem se torna filósofo.

Reforçando, portanto:

É mera reflexão pessoal. Dado o interesse na proposta, "há muitas auroras que brilharam ainda", ou seja, há muito a fazer! E,

"A semente da plena consciência se encontra em cada um de nós, mas nos esquecemos de regá-la. Acreditamos que só seremos felizes no futuro, quando conseguirmos uma casa, um carro ou um doutorado. Mantemos uma luta em nossa mente e em nosso corpo e não sentimos a paz e a alegria que temos ao nosso alcance neste preciso instante: o céu azul, as folhas verdes e os olhos de nosso ser querido."

"[...] Manter a calma interior mesmo nas situações mais caóticas e viver uma vida satisfatória [...] não requer longas horas de meditação."

Uma reflexão, entre as que acho belíssimas e costumo associar com a que segue abaixo, em que se lê os preceitos seguintes:


“Não deixe teu sono cair sobre seus olhos lassos

Antes de ter pesado todos os atos do dia:

Em que falhei? Que fiz, qual dever omiti?

Começa por aí e prossegue o exame: após o que 

Condena o malfeito, alegra-te pelo Bem.” [1]

...

Antes de ir para a cama, portanto:

Reflita sobre as coisas mais importantes que aconteceram no dia que encerrou e o que de mais importante relaciona-se com uma ética pessoal.

Pergunte a ti mesmo:

  1. O que fiz errado?
  2. O que fiz certo?
  3. E o que ainda precisa ser feito?

...

Acrescento ainda, nessa mesma perspectiva, numa outra abordagem para uma “visão de mundo” (Weltanschauung), temos as seguintes questões:

“Qual o meio prático mais eficaz que tem o homem de se melhorar nesta vida e de resistir à atração do mal?[2]

“Um sábio da Antiguidade vo-lo disse: Conhece-te a ti mesmo.”

a) - Conhecemos toda a sabedoria desta máxima; porém a dificuldade está precisamente em cada um conhecer-se a si mesmo. Qual o meio de consegui-lo?

Fazei o que eu fazia quando vivi na Terra: ao fim do dia, interrogava a minha consciência, passava revista ao que fizera e perguntava a mim mesmo se não faltara a algum dever, se ninguém tivera motivo para de mim se queixar. Foi assim que cheguei a me conhecer e a ver o que em mim precisava de reforma. Aquele que, todas as noites, evocasse todas as ações que praticou durante o dia e inquirisse de si mesmo o bem ou o mal que fez, rogando a Deus e ao seu anjo guardião que o esclarecessem, grande força adquiriria para se aperfeiçoar, porque, crede-me, Deus o assistiria. Dirigi, pois, a vós mesmos perguntas, interrogai-vos sobre o que tendes feito e com que objetivo procedestes em tal ou tal circunstância, sobre se fizestes alguma coisa que, feita por outrem, censuraríeis, sobre se obrastes alguma ação que não ousaríeis confessar. Perguntai ainda mais: “Se aprouvesse a Deus chamar-me neste momento, teria que temer o olhar de alguém, ao entrar de novo no mundo dos Espíritos, onde nada pode ser ocultado?” Examinai o que pudestes ter obrado contra Deus, depois contra o vosso próximo e, finalmente, contra vós mesmos. As respostas vos darão, ou o descanso para a vossa consciência, ou a indicação de um mal que precise ser curado.

“O conhecimento de si mesmo é, portanto, a chave do progresso individual. Mas, direis, como há de alguém julgar-se a si mesmo? Não está aí a ilusão do amor-próprio para atenuar as faltas e torná-las desculpáveis? O avarento se considera apenas econômico e previdente; o orgulhoso julga que em si só há dignidade. Isto é muito real, mas tendes um meio de verificação que não pode iludir-vos. Quando estiverdes indecisos sobre o valor de uma de vossas ações, inquiri como a qualificaríeis, se praticada por outra pessoa. Se a censurais noutrem, não a podereis ter por legítima quando fordes o seu autor, pois que Deus não usa de duas medidas na aplicação de Sua justiça. Procurai também saber o que dela pensam os vossos semelhantes e não desprezeis a opinião dos vossos inimigos, porquanto esses, nenhum interesse têm em mascarar a verdade, e Deus muitas vezes os coloca ao vosso lado como um espelho, a fim de que sejais advertidos com mais franqueza do que o faria um amigo. Perscrute, conseguintemente, a sua consciência aquele que se sinta possuído do desejo sério de melhorar-se, a fim de extirpar de si os maus pendores, como do seu jardim arranca as ervas daninhas. Faça o balanço de seu dia moral, como o comerciante faz o de suas perdas e seus lucros; e eu vos asseguro que a primeira operação será mais proveitosa do que a segunda. Se puder dizer que foi bom o seu dia, poderá dormir em paz e aguardar sem receio o despertar na outra vida.

“Formulai, pois, de vós para convosco, questões nítidas e precisas e não temais multiplicá-las. Justo é que se gastem alguns minutos para conquistar uma felicidade eterna. Não trabalhais todos os dias com o fito de juntar haveres que vos garantam repouso na velhice? Não constitui esse repouso o objeto de todos os vossos desejos, o fim que vos faz suportar fadigas e privações temporárias? Ora, que é esse descanso de alguns dias, turbado sempre pelas enfermidades do corpo, em comparação com o que espera o homem de bem? Não valerá este outro a pena de alguns esforços? Sei haver muitos que dizem ser positivo o presente e incerto o futuro. Ora, esta exatamente a ideia que estamos encarregados de eliminar do vosso íntimo, visto desejarmos fazer que compreendais esse futuro, de modo a não restar nenhuma dúvida em vossa alma. Por isso foi que primeiro chamamos a vossa atenção por meio de fenômenos capazes de ferir-vos os sentidos e que agora vos damos instruções, que cada um de vós se acha encarregado de espalhar. Com este objetivo é que ditamos O Livro dos Espíritos.

______

PARA "EXERCÍCIOS":

1. "Não é possível estudar. Mas é possível conter a arrogância (hybris). É possível vencer os prazeres e os prazeres e os sofrimentos. É possível estar acima da mísera fama. É possível não se irritar com os insensíveis e ingratos. É possível mesmo cuidar deles." (AURÉLIO, Marco. Meditações. Trad. Aldo Dinucci. São Paulo: Companhia das Letras, 2023.

2. (Sêneca, Vida feliz. XVII, XVII, 3). Acrescentarei algumas reprovações depois, e trarei mais acusações contra mim mesmo: para o presente, farei a seguinte resposta. "Eu não sou um homem sábio, e eu não serei um a fim de alimentar o seu despeito: então não exija que eu esteja no mesmo nível do melhor dos homens, mas meramente ser melhor do que o pior: eu estou satisfeito, se todo dia eu tirar algo de meus vícios e corrigir meus defeitos, não cheguei a perfeita perfeição mental, de fato, nunca chegarei a ela.”

3. Ainda nessa pausa nas leituras frequentes necessárias, relendo um pequeno texto, de muita importância prática!

EPICTÈTE. Entretiens. Livre II. Paris: Les Belles Lettres, 2002. (Prosseguindo. Relendo hoje, o cap. XVI: "Que nous ne nous exerçons a faire l'appication de nos jugements concernant les biens et les maux." (p. 62-68)

Destacando, do capítulo:

- "Procurar as nossas falhas ..."

- "Buscar em nós os remédios para as nossas inquietudes"

- "Retificar nossos juízos"

Mantenhamo-nos no caminho.

[1] Entretiens. Livre III. 40; Conversações III, 10. 3 (tradução Souilhé), (1956).

[2] KARDEC, A. Le Livre des Esprits. 2013. (Q.919-919a).

ARRIANO FLÁVIO. O Encheirídion de Epicteto. Edição Bilíngue. Tradução do texto grego e notas Aldo Dinucci; Alfredo Julien. Textos e notas de Aldo Dinucci; Alfredo Julien. São Cristóvão. Universidade Federal de Sergipe, 2012.

DINUCCI, A.; JULIEN, A. O Encheiridion de Epicteto. Coimbra: Imprensa de Coimbra, 2014.

EPICTETO. Entretiens. Livre I, II, III, IV. Trad. Joseph Souilhé. Paris: Les Belles Lettres, 1956.

______. Epictetus Discourses. Book I. Trad. Dobbin. Oxford: Clarendon, 2008.

______. O Encheirídion de Epicteto. Trad. Aldo Dinucci; Alfredo Julien. São Cristóvão: EdiUFS, 2012. (Edição Bilíngue)

______. Testemunhos e Fragmentos. Trad. Aldo Dinucci; Alfredo Julien. São Cristóvão: EdiUFS, 2008.

EPICTETUS. The Discourses of Epictetus as reported by Arrian; fragments; Encheiridion. Trad. Oldfather. Harvard: Loeb, 1928.  https://www.loebclassics.com/

HADOT, Pierre. The inner citadel: the meditations of Marcus Aurelius. London: Harvard University Press, 2001.

HANH, Thich Nhat. Silêncio: o poder da quietude em um mundo barulhento. Rio de Janeiro, RJ: Harper Collins, 2018.

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IRVINE, William B. A guide to the good life: the ancient art of Stoic joy. New York: Oxford University Press, 2009.

KANT, Immanuel. Crítica da razão pura. 3. ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbekian, 1994. (B 832-847)

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______. Lições de Metafísica. Trad. Bruno Cunha. Petrópolis: Vozes/São Francisco, 2021

______. Textos pré-críticos. São Paulo: Editora Unesp, 2005.

______. Textos seletos. Petrópolis, RJ: Vozes, 2008.

______. Investigação sobre a clareza dos princípios da teologia e da moral. Lisboa: Imprensa Casa da Moeda, 2007.______. A religião nos limites da simples razão. Edições 70, Lisboa, 1992.

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_____. Antropologia de um ponto de vista pragmático. Tradução Clélia Aparecida Martins. São Paulo: Iluminuras, 2006.

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KARDEC, A. Le Livre des Esprits. Paris, Dervy-Livres, s.d. (dépôt légal 1985). (O Livro dos Espíritos. Trad. Guillon Ribeiro, ______. O livro dos Espíritos. 93. ed. - 1. reimpressão (edição histórica). Brasília, DF: Feb, 2013.

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