ESTUDO SOBRE TEXTOS LIDOS NA MANHÃ DE HOJE
1º Passso. o Hegemonicon - ἡγεμονικόν:
"A filosofia não visa a assegurar qualquer coisa externa ao homem. Isso seria admitir algo que está além de seu próprio objeto. Pois assim como o material do carpinteiro é a madeira, e o do estatuário é o bronze, a matéria-prima da arte de viver é a própria vida de cada pessoa." (Epiteto. D. I, XV : 2)
Mais uma das brevíssimas reflexões tendo como base o Hegemonikon.
Hegemonikon: para os estoicos, o que dá unidade a toda vida psíquica humana, a fonte da vida da alma e do conjunto psicofísico, da consciência e das faculdades cognitivas superiores, como capacidade representativa, julgamento e razão.
E, partindo dessa palavra: Hegemonicon - ἡγεμονικόν, reflito na manhã de hoje sobre o que pode ser entendido como “verdadeira liberdade”; tentando uma aproximação com Pierre Hadot que desenvolve uma discussão sobre a noção de “cidadela interior - em seu livro: Inner citadel” ao que tenho sempre acrescentado minhas reflexões sobre as “leis naturais”.
E mais, por estar trabalhando nesse sentido, de reviravolta, de compreensão racional das “Leis naturais”, Hegemonicon - ἡγεμονικόν passou a servir como uma referência fundamental a um poder interior que se posiciona como quem domina e comanda as ações a partir dessa “compreensão racional” das “leis naturais”; uma atividade embasada na razão e especificamente humana.
Ora, foi um momento para essa manhã; na vida, em que paramos e aplicamo-nos no esforço em fazer a coisa certa, a escolha certa; a melhor tomada de decisão, desviando (clinâmen) das absurdidades do presente "caótico" que se nos afigura "catastroficamente" (para alguns), mas que, sem desânimo, tentamos fazer disso momentos de recomeços, de refazimento.
A tarefa se insere numa meta mais ampla, portanto, fortalecermo-nos e nos sustentarmos na direção da tão almejada “tranquilidade” (ἀπάθεια - apatheia), e a mais "imperturbável paz de espírito” (Ἀταραξία - ataraxia)
É mais um momento de refletir estoicamente... ou, no mínimo, sermos coerentes na caminhada. Serena e solitária caminhada.
Ademais:
“Não comeces tu a fazer os teus males mais graves do que são e a afligires-te com queixumes. Toda dor é ligeira quando não a julgamos a partir da opinião comum. Se, pelo contrário, começares a exortar-te a ti mesmo e a dizer: “Isto não é nada, ou pelo menos não é nada de importância! O que é preciso é paciência [Duremus]! Isto passa já!” — pelo próprio fato de considerares ligeiras as tuas dores, já estás a torná-las de fato ligeiras. Todos os nossos juízos estão suspensos da opinião comum. Não são apenas a ambição, o luxo, a avareza que se regulam por ela: também sentimos as dores de acordo com a opinião [ad opinionem dolemus]. Cada um só é desgraçado na justa medida em que se considera tal. Em meu entender, há que pôr termo às lamentações por dores já passadas, e que evitar palavras como: “Nunca alguém esteve tão mal como eu! Que dores, que sofrimentos eu padeci! Ninguém imaginava que eu iria recuperar! Quantas vezes a família chegou a chorar-me e os médicos a abandonarem-me como morto! Os supliciados na mesa de tortura não sofrem tormentos iguais aos meus!”. Mesmo que tudo isto fosse verdade, pertence já ao passado. O que é que se ganha em re-sentir os sofrimentos passados, qual a vantagem de, por o ter sido uma vez, continuar a sentir-se desgraçado? E não é verdade que toda gente exagera consideravelmente os próprios males, mentindo, afinal, a si mesma?” (Sêneca, L. A. Cartas a Lucílio, LXXVIII, 13-14, 2014.)
2º passo: para a "cura das paixões" o "prokopton - προκόπτων" buscando o "progresso moral" e "domínio de si"
Hoje 04 de junho de 2026, também acrescento uma leitura da Carta LXXV, (§§ 1-18) de Sêneca, uma das mais cartas em que fala com Lucílio sobre o “progresso moral”. Em linguagem didática faz-se valer de um comparação com a medicina (que também me fez lembrar de Musônio Rufo, professor de Epicteto numa certa recomendação de dever agir com médicos : “Devemos viver como médicos, tratando a nós mesmos com a razão, contra os males de não usá-la" (Musónio Rufo)” . O “prokopton - προκόπτων ” é comparado com o doente em tratamento...
Como ia dizendo, acho as cartas de Sêneca muito didáticas e extremamente elucidativas. Mas, Lucílio teria reclemado da simplicidade com que Sêneca redigia suas cartas e este, responde que é assim que a Filosofia deve ser transmitida para ser compreendida. (eu mesmo, de minha parte, acho impressionante como Sêneca desenvolve suas cartas sem conceitos rebuscados)
Como tenho estudado o estóicos como filósofos que estão sempre propondo uma filosofia prática e de “cura das paixões” aprendi com esse texto de Sêneca que há, nesse sentido, três classes (Carta LXXV, §§ 9-18) “entre os estudiosos da filosofia existem consideráveis diferenças” que podem ser divididas em:
A primeira classe: “abarca aqueles que, embora ainda não atingindo a sapiência, já se encontram perto de o conseguir; o próprio facto de estarem perto, contudo, implica que a sapiência ainda lhes é exterior.”
A segunda classe: “compreende aqueles que se conseguiram libertar das principais enfermidades da alma e das paixões, mas não a ponto de gozarem definitivamente de um estado de perfeita tranquilidade. Por outras palavras, estão ainda sujeitos a retroceder ao estádio precedente.”
A terceira classe: “já está liberta de numerosos e consideráveis vícios, mas ainda não de todos. Está livre de avareza, mas sujeita ainda à ira; já não é tentada pelo prazer, mas é-o pela ambição; está liberta do deseja, mas não do temor e, no que toca aos objetos de temosr, pode mostrar-se firme perante alguns mas ceder perante outros: por exemplo, não recear a morte, mas ter medo da dor física.”
Portanto, nisso consiste nosso trabalho: “[...] em não desejarmos nada que seja imoral ou excessivo; em termos o maior domínio sobre nós próprios: sermos donos de nó mesmos é bem inestimável”
______.
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