quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

"ESCUTAR O SILÊNCIO" SEGUNDO PETER BURKE

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"São Paulo, Domingo, 19 de Setembro de 1999 – Caderno +mais "


O historiador Peter Burke aponta as vantagens de ficar de boca fechada Escutar o silêncio.

PETER BURKE
(especial para a Folha)

Para nós é comum pensar o silêncio como algo negativo, a mera ausência do som. Neste artigo eu tentarei persuadir você a pensar o silêncio de uma maneira mais positiva.
Os silêncios -é melhor pensar no plural- podem ser longos ou curtos. Variam tanto em qualidade quanto em quantidade. Podem ser naturais ou culturais, por exemplo. Podem ser voluntários ou forçados, espontâneos ou estratégicos, cálidos ou frios ou, como às vezes dizemos, "um silêncio de pedra". Podem ser normais ou patológicos. A ausência do falar pode igualmente expressar discrição ou humildade. Um silêncio desdenhoso ou insolente precisa ser distinguido de um ameaçador. As pessoas se encontram sem palavras por assombro, embaraço ou até raiva. Enfim, o silêncio não é um fenômeno puramente negativo.
O silêncio de um mestre hábil é novamente distinto dos exemplos que já citei. É a arte de fazer uma pergunta difícil e depois dar ao aluno tempo suficiente para meditar, para pensar na resposta. Nos mosteiros zen-budistas, como conta a história, o mestre está preparado para passar anos à espera de uma boa resposta. Sócrates foi mestre desse método, e nós perdemos mais do que nos damos conta quando lemos um relato de suas palavras em lugar de ouvi-las diretamente. Passados 2.000 anos, já não podemos ouvir seus silêncios claramente.
Em outras palavras, vale a pena tentar escutar os silêncios, embora às vezes seja difícil interpretá-los. Os "atos de silêncio" humanos, como os chamam os linguistas, sempre têm um sentido, seja esse consciente ou inconsciente, embora certos silêncios sejam mais valiosos ou mais carregados de significação que outros. Nós os chamamos às vezes de silêncios "significativos" ou "eloquentes", aconteçam eles ora nos discursos, ora nos sermões, ora nas peças de teatro ou nos concertos musicais. Esses silêncios são eloquentes porque são pausas deliberadas que acontecem na hora apropriada, equivalentes aos espaços vazios na arquitetura ou na pintura. Podem ser até mais efetivos quando são inesperados.
Em outras palavras, o silêncio é uma arte, como diziam nossos antepassados, a arte de domar a nossa língua. É um saber que pode e precisa ser aprendido. Poderia ser considerado uma forma de conhecimento, o conhecimento de quando, onde e em quais situações é melhor não falar. Ou, como diriam os sociolinguistas de hoje, o silêncio em si é uma forma de comunicação que, como as outras formas de comunicação, tem suas próprias regras e convenções.
O exemplo mais impressionante e sofisticado que eu conheço vem do Oriente. Era conhecido como a "fala de pincel", na época em que os pincéis eram usados em vez das canetas para escrever. O sentido do termo é que os chineses e os japoneses não podem entender a língua falada dos outros. Ao contrário, os ideogramas escritos são igualmente legíveis e têm o mesmo significado em ambas as culturas. Como resultado dessa herança comum, os chineses e os japoneses podem usar papel e caneta para levar a cabo uma conversa silenciosa.
Mas de certa forma a maioria de nós participa da comunicação silenciosa todo o dia, quando indicamos algo com a cabeça, piscamos os olhos, levamos um dedo aos lábios ou levantamos os olhos para os céus, sem mencionar os gestos menos gentis dos que estão atrás de um volante.
A minha preocupação principal, aqui, é com a particular variedade do silêncio, o silêncio da conversação. Hoje talvez nos achemos liberados de tudo isso, mas ainda passamos um bom tempo obedecendo a essas leis da conversação, conscientemente ou não. Essas leis incluem também os seus contrários, as leis do silêncio, que tratam daquilo que não é permitido dizer: quando, onde, por quem, a quem e também, com certeza, sobre o quê -em outras palavras, as leis dos temas proibidos.
As regras variam de um lugar para outro, de um contexto social para outro e de um tempo para outro. Há uma geografia, uma sociologia e uma história do silêncio. Vamos começar pela geografia.
Alguns povos falam menos do que outros; os europeus do norte, por exemplo, menos do que os do sul, como os italianos ou os gregos. A minha impressão dos brasileiros é que eles acham os ingleses artificial, incrível e até patologicamente silenciosos. Ora, os ingleses acham que os suecos são bastante silenciosos, um estereótipo reforçado pelo famoso filme do diretor Ingmar Bergman, "O Silêncio" (1963). Para os suecos, por outro lado, o povo silencioso por excelência são os finlandeses.
Vamos continuar com o inglês por um momento. Somos realmente tão silenciosos como pensamos, ou será esta imagem mais um estereótipo bobo? Ao que sei, nenhum sociolinguista tentou medir diferenças nacionais em silêncio, embora não seja muito difícil levar a cabo um experimento desse tipo. Mas contar os segundos de silêncio não é a única maneira de enfrentar o problema. Considere o nosso vocabulário, por exemplo. Temos uma grande variedade de palavras para nomear as pessoas que falam demais, e a maioria delas é pejorativa. Essas pessoas são chamados de "chatterboxes" (caixa de conversa) ou de "garrulous" (tagarela), de "loquacious" (loquaz), "talkative" (falastrão), "wordy" (verboso) e assim por diante. Nós parecemos ser muito menos críticos com as pessoas que falam pouco demais. Na verdade, algumas mulheres dizem que preferem um "homem forte e silencioso".
Vamos abordar a questão de outra perspectiva, a experiência de conversar ou tentar conversar numa cultura na qual as regras são diferentes das nossas, mesmo que essa diferença pareça muito pequena. Eu por acaso passei um bom tempo nas culturas latinas, desde a Itália até o Brasil, e uma grande parte desse tempo passei conversando. Desfrutei muito essa experiência, embora tenha a certeza de que nessas culturas sou percebido como uma pessoa bastante silenciosa. Uma razão do meu silêncio é que fui criado na crença de que é pouco gentil interromper as pessoas e portanto eu espero até elas acabarem de falar. Mas elas nunca acabam!
Mais exatamente, as culturas diferem no tamanho da pausa depois da qual é considerado aceitável entrar na conversação. Os ingleses esperam um segundo mais que os latinos. Talvez não seja um segundo, mas uma fração de um segundo, eu nunca tentei medi-lo. O importante é que a demora, por mais curta que seja, é fatal, porque alguém sempre se adianta na minha frente. Portanto eu quase nunca consigo dizer nada, pelo menos em grupos de quatro pessoas ou mais, a não ser que alguém me faça uma pergunta direta e aguarde uma resposta.
A conclusão óbvia -mas importante- dessa tentativa de penetrar o silêncio inglês é que quase tudo é relativo, inclusive o silêncio. No século 17, quando os ingleses começaram a colonizar a Nova Inglaterra, notaram que os seus vizinhos índios gostavam ainda menos da "tagarelice" do que eles mesmos. Certos povos indígenas americanos, como os apaches do Oeste, que moram no Arizona, são famosos por ficar em silêncio quando se encontram com um desconhecido, ou nas fases iniciais de um namoro, ou quando as crianças reencontram os seus pais depois de uma longa ausência, enfim, sempre e quando uma pessoa ou uma situação lhes é desconhecida. Nessas ocasiões os apaches "desistem das palavras", como dizem eles mesmos, até se acostumarem ao novo estado das coisas.
Em outras palavras, a questão do silêncio não é só uma questão de certas pessoas ou de certos povos que recusam fazer discursos longos. Igualmente importante é a existência de diferenças culturais consideráveis quanto ao que se poderia chamar de "tolerância" com o silêncio das outras pessoas, diferenças no tempo que o silêncio pode durar até tornar incômoda a situação.
A tolerância inglesa do silêncio, embora claramente mais baixa do que a tolerância dos finlandeses ou dos apaches do Oeste, sempre foi suficiente para surpreender muitos visitantes estrangeiros. Um visitante da Suíça no século 18, por exemplo, nos deixou um relato vívido dos jantares nas casas de campo inglesas, os cavalheiros retirando-se à sala de fumar não para conversar, muito menos para debater, mas apenas para pitar os seus cachimbos e, de quando em quando, a fim de impedir que o silêncio se torne frio, soltar uma frase como "How d'ye do?" (Como vai?).
O visitante estrangeiro achou esse costume um pouco estranho, mas não de todo desagradável. Decerto ele deu uma interpretação notavelmente generosa, elogiando a sinceridade de um povo que não falava quando não tinha nada para dizer e contrastando esse autocontrole com a loquacidade dos franceses. Os ingleses do século 18 parecem ter sido bem menos generosos com eles próprios. De todo jeito, já faziam piadas sobre si mesmos nesse aspecto. Numa época em que os clubes só começavam a entrar em moda em Londres e noutras partes, o famoso jornal "The Spectator" descreveu a fundação de um "Mum Club" que proibia os sócios de falarem entre si.
E assim, nos anos 1950, quando o dramaturgo romano-francês Eugène Ionesco satirizava um casal típico de ingleses na sua comédia "A Cantora Careca", incluindo nas suas marcações de cena "um longo momento de silêncio inglês", ele estava se inserindo numa longa tradição. Silêncio, por favor, somos ingleses.
Os estereótipos servem no palco do teatro, mas nós precisamos ter cuidado para não os confundir com a realidade. Por essa razão, com o propósito de minar o estereótipo tradicional inglês de um italiano falador, gostaria de falar sobre a história do silêncio na Itália. Vou enfocar o século 16, a época de algumas discussões famosas sobre a arte da conversação, como as de Baldassare Castiglione, Giovanni Della Casa e Stefano Guazzo (três textos que foram traduzidos no século 16 e eram bem conhecidos na Inglaterra elisabetana).
Vamos voltar às leis da conversação -quem diz o quê, para quem, quando e onde- e traduzir essas leis do silêncio. Quem exatamente deve ficar calado, segundo esses escritores? Em primeiro lugar, as crianças na presença de adultos. Essa idéia de que as crianças devem ser vistas, mas não ouvidas, não foi uma invenção dos vitorianos. É muito mais velha.
Em segundo lugar, as mulheres deviam ficar em silêncio, especialmente em público, ou seja, na presença de homens que não fossem parentes delas. O silêncio era um símbolo da modéstia feminina. Até uma proposta de casamento, segundo um moralista italiano, devia ficar sem resposta, sendo o silêncio sinal suficiente de consentimento. Os homens sempre citavam o elogio de São Paulo à mulher calada.
"Por meio do silêncio", conta um outro livro italiano de boa conduta, "as mulheres logram a fama da eloquência". Ele não se referia aos olhares eloquentes pelos quais as damas de Gênova em particular eram famosas. "Elas sabem escrever uma carta inteira com um só olhar", declarou um visitante. Ao contrário, o silêncio que os livros elogiavam nas mulheres era o silêncio da submissão.
Ainda mais surpreendente, talvez, é descobrir que até os homens adultos eram aconselhados a "falar pouco" na Itália. A reserva era marca da discrição. Um provérbio italiano recomendava ficar de olhos abertos e de boca fechada. O propósito de todos esses conselhos era mais prático do que moral: era para não divulgar os assuntos particulares às pessoas desconhecidas, para não dar informação aos rivais ou inimigos potenciais.
Esses livros italianos expressam o que se pode chamar de "cultura da desconfiança", em que as outras pessoas, pelo menos fora da família, são consideradas hostis por suposição -ou no mínimo prontas para aproveitar qualquer fraqueza. O silêncio era um escudo. Esse "silêncio da discrição" recomendado aos homens adultos contrasta com o silêncio de submissão esperado das mulheres e das crianças.
Essas regras não eram absolutas, decerto. Em alguns locais, desde cortes a mosteiros, e em certas ocasiões, o silêncio era considerado particularmente importante. Os italianos aparentemente achavam difícil ficar calados dentro da igreja e frequentemente conversavam no teatro durante o espetáculo. Por outro lado, eram supostamente capazes de ficar calados nos cassinos de Veneza, os famosos "ridotti".
Os criminosos tinham orgulho da sua capacidade de ficar calados sob interrogatório.
O silêncio da resistência mais geral, que os sicilianos chamam de "omertà" (hombridade), tem sido uma grande força na sua história em particular. O silêncio é também uma forma de resolução de conflitos. No caso da Itália de hoje, um sociólogo sugeriu que os conflitos menores são associados ao barulho, enquanto as brigas mais sérias são resolvidas em ou pelo silêncio. Se as pessoas gritarem quando você encostar no carro delas, não fique com medo. Só quando elas ficam caladas há motivo de preocupação, porque as ações podem vir em lugar das palavras.
E com isso chegamos ao objeto do silêncio das pessoas. Em muitas partes do mundo a religião e o silêncio são vinculados. Pode ser uma forma de mostrar respeito aos deuses. Uma outra alternativa seria a crença ou a suposição de que as verdades religiosas são inefáveis, impossíveis de expressar por meio da linguagem humana.
Na Itália do século 16, os livros de conselhos frequentemente recomendavam aos leitores falarem pouco sobre a política, especialmente às pessoas desconhecidas, para não as ofender. A cultura da desconfiança também era a cultura em que ambos, o ofender e o ofender-se, eram extremamente fáceis -e muitos adultos habitualmente carregavam um punhal ou pelo menos uma faca. O punhal pode não estar mais na moda, mas a tradição do silêncio político continua. Perguntar a um desconhecido sobre o partido político que ele apóia é considerado descortês. Na verdade, até pouco tempo atrás a palavra "máfia" não se ouvia na Sicília, ao menos em público, até que o tabu foi propositalmente quebrado pelo prefeito de Palermo.
Há uma tentação de argumentar que na Europa do sul a política é um tema proibido, enquanto na Europa do norte o tabu é o sexo. Novamente, devemos estar atentos aos estereótipos simplistas, especialmente quando se trata de divisão norte-sul. Afinal de contas, no século 16 as damas italianas eram aconselhadas a ter cuidado com as possíveis conotações sexuais dos seus comentários. Um escritor até as aconselhou a falar "castanhas" quando na verdade queriam dizer "figos", uma fruta que era vinculada à sexualidade. Nesse campo minado das palavras, o silêncio total deve ter sido às vezes a saída mais segura. Não há que estranhar que as pessoas falassem do silêncio como de uma arte. Ele implicava muito mais do que saber escutar bem."





Peter Burke é historiador inglês, autor de "A Arte da Conversação" e "História Social da Linguagem" (Ed. da Unesp). Tradução de Polina Vasiliev.

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

REVISITANDO, MAIS UMA VEZ, A OBRA DE LEIBNIZ: "INATISMO", CONHECIMENTO, MORAL, METAFÍSICA.

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Por estar "na esteira" dessas discussões, de há alguns anos pra cá, retorno sempre aos clássicos. 

Aqui, sem sair das leituras tradicionais, retorno à discussão entre Leibniz e Locke.

Os Novos ensaios sobre o entendimento humano apresentam a teoria do conhecimento de Leibniz e sua crítica ao empirismo clássico de John Locke. Vê-se abaixo um pouco do teor do debate que se estabelece na obra de Leibniz sobre a obra de Locke:


“Ora, a reflexão não constitui outra coisa senão uma atenção àquilo que está em nós, já que os sentidos não nos dão aquilo que já trazemos dentro de nós. Sendo assim, poder-se-á porventura negar que existem muitas coisas inatas no nosso espírito, visto que somos por assim dizer, inatos a nós mesmos? Poder-se-á negar que existe dentro de nós tudo isto: Ser, Unidade, Substância, Duração, Mudança, Ação, Percepção, Prazer e mil outros objetos das nossas ideias intelectuais? E se tais objetos são mediatos ao nosso entendimento e sempre presentes (ainda que não sejam sempre percebidos, devido às nossas distrações e necessidades), por que admirar-se ante a afirmação de que tais idéias nos são inatas, juntamente com tudo o que delas depende?

[...]

Assim sendo, inclino-me a crer que, no fundo, a opinião do nosso autor não difere da minha, ou melhor, da opinião geral, na medida em que esta reconhece duas fontes dos nossos conhecimentos, a saber, os sentidos e a reflexão


Na leitura, à medida que se avança, podemos também notar que  longo da obra Leibniz discute a questão inatismo para o conhecimento da moral e da metafísica. Uma das questões que nos fizeram retornar a essa obra é uma possível abordagem   da subjetividade humana.

Mas, quanto ao que se refere à crítica de Leibniz ao Ensaio sobre o entendimento humano de Locke, a maneira com que dá a aquisição do conhecimento e as idéias inatas. Locke defende que os sentidos são como janelas da alma, ou seja:

a) “Afirmar que uma noção está impressa na mente e, ao mesmo tempo, afirmar que a mente a ignora e jamais teve dela qualquer conhecimento, implica reduzir estas impressões a nada” (LOCKE).

O que Leibniz analisa é o fato, segundo ele, de que Locke não teria aprofundado nos estudos sobre o significado de idéias inatas e dos sentidos. Defende que as idéias inatas estão na alma e que os sentidos as colocam em movimento.

b) "Ora, a reflexão não constitui outra coisa senão uma atenção àquilo que está em nós, já que os sentidos não nos dão aquilo que já trazemos dentro de nós” (LEIBNIZ).

Prossigo ...
______.

JOLLEY, Nicholas. Leibniz and Locke: a Ssudy of the New Essays on Human Understanding, with a translation of Leibniz's Ad Christophori Stegmanni Metaphysicam Unitariorum. Oxford University Press, 1987.

LEIBNIZ. G. W. Novos ensaios sobre o entendimento humano. Lisboa: Edições Colibri, 1993

LOCKE, John. Ensaio sobre o entendimento humano. São Paulo: Martins Fontes, 2012. 

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

BUBER E O "ECLIPSE DE DEUS"



"Considerações sobre a relação entre religião e filosofia" 

"Para Buber, o eclipse de Deus provocado pelo pensamento moderno impede o acesso do ser humano ao verdadeiro Deus, que se abre para um relacionamento pessoal com o homem. Algo se interpôs entre o divino e o humano. As reflexões do pensador judeu-austríaco podem ajudar a fazer com que o sol se manifeste novamente."

Entre os livros que li durante as férias, destaco esse, mais um entre os que reli. Desde sua aquisição, num momento especial (bem acompanhado) até aqui, um livro que me surpreendeu e muito cresci com ele. Sempre aproveitamos as férias para lermos além do que estamos estudando por exigências acadêmicas e profissionais. Uma bela reflexão em associação com a Filosofia, a História da religião e a psicologia em que também faz uma bela discussão com Carl Gustav Jung.

Em "Eclipse De Deus", o filósofo de origem judaica Martin Buber procura discutir o tema da relação com o Absoluto a partir da filosofia e da história da religião.

Traça um percurso desde os filósofos pré-socráticos e chega ao século XX. 

"Buber expõe sua interpretação do pensamento e das crenças ocidentais, com ênfase nas relações da religião com a filosofia, com a ética e com a psicologia junguiana. Vivemos atualmente, diz Buber, o tempo do eclipse de Deus. Como no eclipse do sol, parece que ele não existe mais, se não se sabe que de fato está encoberto. No entanto, o eclipsar da luz de Deus não é um apagar-se. Amanhã, o que se interpôs sobre ele já poderá ter ido embora. Num dos capítulos centrais deste livro, Buber faz uma crítica à maneira como Carl G. Jung trata o fenômeno religioso, o que motivou uma réplica de Jung e, posteriormente, uma tréplica de Buber. Esse rico diálogo sobre as relações entre religião e psicologia pode ser inteiramente lido em Eclipse de Deus."

(os grifos e destaques são meus) 

 

segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

A UNIÃO ENTRE CIÊNCIA E ARTE E A FILOSOFIA SOCRÁTICA


Há pouco tempo atrás, não me lembro bem em que mês mas o ano, estou certo: 2015, visitando uma livraria; quando podia fazer isso mais frequência, encontrei o livro que adiciono. Aqui, tem sido um espaço de não muitas pretensões, a não ser a possibilidade de registrar algumas leituras em consonância com as leituras obrigatórias - às quais me obrigo, eu diria. Trata-se de um livro soberbamente escrito por Émile Boutroux, a meu ver. Li a tradução, não cotejei com o original mas valeu a leitura.


"Uma união entre ciência e arte é o gérmen mesmo da filosofia socrática. Sócrates não inicia por cultivar separadamente a ciência e a arte, para em seguida fazer que uma sirva a outra. Ele considera que as duas dispersam quando pretendem caminhar sozinhas. É em seu concurso íntimo, e em sua mútua penetração, que reside a condição de sua existência e de seu êxito." 


Em "Sócrates, Fundador da Ciência Moral" (1883), Émile Boutroux demonstra como Sócrates foi o primeiro pensador do Ocidente a buscar uma base sólida para discernir entre o certo e o errado. Observando o que físicos e sofistas faziam, Sócrates vislumbrou as possibilidades de aproveitar aspectos de suas especulações e de aplicá-las à pesquisa de um novo e surpreendente objeto: a moral. Pela primeira vez desde sua publicação, o leitor brasileiro tem em mãos esta obra simples e didática por que mergulhar no pensamento do grande filósofo, um dos homens mais sábios da história da humanidade." 

(FONTE: https://www.amazon.com.br) - (grifos meus)


domingo, 31 de dezembro de 2017

REFLEXÃO MATINAL VI



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(IMAGEM: "Lago Wanaka" - Nova Zelândia)

A corrupção da natureza humana

"O ser humano nasce com uma inclinação na direção da virtude."  


( Musonius Rufus)

É bastante comum encontrarmos reflexões sobre a “natureza humana” na obra dos Estoicos, aliás, tema fundamental para eles. O mesmo Musonius Rufus teria dito que “Todos nós fomos feitos pela natureza, de forma que possamos viver livre de erros e de forma nobre, não que um possa e outro não possa, todos podemos.”
Também não é difícil encontrar, atualmente, opositores ensandecidos, desequilibrados, a insistirem na negação de que se possa nascer com inclinação para as virtudes. Preferem defender que possa haver no homem uma natureza corrupta em si mesma do que admitir que, na verdade, haveria a possibilidade de que uma certa “natureza humana” pudesse ter se corrompido; que se tenha tomado direções equivocadas e desviado da meta, a qual como diz Musonius Rufus: “todos podemos” chegar. A filosofia seria uma ferramenta para retorno à nossa verdadeira “natureza humana”.
O que se aprenderá com a filosofia, no modo defendido aqui é que ela pode sim revelar-nos uma "essência" em nós. O erro será uma constante mesmo na vida de quem persista em agir corretamente, daí não se poder ratificar que há uma natureza corrompida; pelo contrário, o que haveria é que, no exercício cotidiano a ocorrência dos erros e dos desvios de rota sempre se apresentam.
Isso, exigirá sempre, uma profunda e repetida reflexão, por parecer apontar na direção de uma solução distante e quase impossível. Os Estoicos, defendem que qualquer um pode reverter um mau comportamento, reparar os erros e se reorientar na direção no caminho das Virtudes dedicando-se ao estudo regular, constante e disciplinado da filosofia. Para eles a prática das virtudes começa por aí e prossegue-se aprendendo a separar o que é bom (virtude) do que é mau (vícios).
A meta, portanto: aprendermos a admitir que há coisas às quais podemos impor nosso controle e há coisas que fogem da nossa alçada e é pífio o poder de termos controle sobre elas. O que a proposta dos Estóicos sugere é que se exercite as ações em consonância com as que fogem ao nosso domínio, que estariam, talvez, no domínio das leis naturais. A Filosofia é tomada, portanto, como prática diária na correção dos erros e na compreensão e aceitação das próprias limitações.

terça-feira, 19 de dezembro de 2017

REFLEXÃO MATINAL (V)

Capa

DAVIS, P. J. aSeneca: Thyestes. Companions to Greek and Roman Tragedy. Bloomsbury Academic (Universidade de Michigan), 2003.


À maneira estóica, essa foi a meditação matinal de hoje...

"A morte paira sobre mim, pesada, eu, que fui conhecido excessivamente bem por todos, mas que morro estranho a mim mesmo." ( Sêneca em Thyestes)

Muitos somos os que de alguma forma procuramos preservar nosso conjunto de valores e sustentar princípios para orientarmo-nos no mundo.

À medida em me aprofundo na leitura atenta dos estóicos percebo a preocupação deles com a filosofia na prática.  Ao agirmos, assim o fazemos fundamentados nos valores e princípios que acreditamos?

Perceptível que a Filosofia para eles é uma forma “um método" para ação, não para falar, como já defendia Sêneca. As nossas ações ratificam, endossam a Verdade contida nas nossas premissas básicas?

Se, por repetidas vezes nos deparamos agindo em oposição àquelas premissas, temos um trabalho de reeducação a implementar. Educarmo-nos; a nós mesmos... Rever as nossas crenças e o quanto elas destoam ou se harmonizam com as nossa ações.

Devemos opor, para nossa reflexão e corrigenda, o feito e o pensado, de forma que essa conjunção possa guiar nossa Vida prática, cotidiana.

Por trás de tamanho projeto estaria o “conhece-te a ti mesmo”, bastante conhecido e atribuído a Sócrates.

Mas somente enfrenta-se como desafio fazendo-o ponto de partida quem se obriga admitir essa necessidade. Ora, ou fazemos ou perdemos... outra vez, colocando a culpa em algo estranho e exterior a nós.

Tarefa a ser iniciada...

“Para o alto e avante”

sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

RECONSTRUÇÃO DE UM CONFRONTO

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O livro do prof. Oswaldo Giacoia Junior nos mostra dois projetos filosóficos em confronto. “Nietzsche X Kant: uma disputa permanente a respeito de liberdade, autonomia e dever”. 

Giacoia Junior apresenta os assuntos para o debate contemporâneo, ao tratar de temas como as normas que ditam comportamentos individuais, os limites do Estado, nossos direitos e deveres.
"Um estudo essencial para se pensar o cenário contemporâneo, marcado por uma latente crise de valores e modelos."
...
“Essa crise permanente torna não apenas atual, mas incontornável uma revisitação dos clássicos ... no caso, da herança filosófica de Kant e Nietzsche..., no que respeita àquilo que o confronto entre eles ainda pode conservar de seminal e fecundo, em termos de orientação para o pensar e agir”

Giacoia Jr. Ao encerrar Nietzsche x Kant destaca que o próprio Kant teria bons argumentos para opor-se a Nietzsche. As diferenças entre os dois projetos ultrapassa essa constatação:

É notória, portanto, ao longo da obra a “[...] impossibilidade de conciliar uma legislação filosófica de Si-Próprio - uma estilística moral de si – com uma legislação universal da razão pura prática, inteiramente formal e categórica” (GIACOIA JUNIOR, 2012, p. 277).


______.
GIACOIA JUNIOR, Owaldo. Nietzsche x Kant: uma disputa permanente a respeito de liberdade, autonomia e dever. Rio de Janeiro: Casa da palavra; São Paulo: Casa do saber, 2012.

“A MÚSICA E O INEFÁVEL”: JANKÉLÉVITCH


1. 2. 3.

Escrita por Vladimir Jankélévitch (1903-1985) “A música e o inefável”, terá sua primeira tradução para a língua portuguesa, a ser publicada em 2018 pela Editora Perspectiva, na coleção “Estudos”, obra de interesse para a filosofia da arte e, da estética musical. Já estou planejando um tempinho para essa leitura em 2018, com certeza!

"Il y a dans la musique une double complication, génératrice de problèmes métaphysiques et de problèmes moraux, et bien faite pour entretenir notre perplexité. Car la musique est à la fois expressive et inexpressive, sérieuse et frivole, profonde et superficielle ; elle a un sens et n'a pas de sens. La musique est-elle un divertissement sans portée ? ou bien est-elle un langage chiffré et comme le hiéroglyphe d'un mystère ? Ou peut-être les deux ensemble ? Mais cette équivoque essentielle a aussi un aspect moral : il y a un contraste déroutant, une ironique et scandaleuse disproportion entre la puissance incantatoire de la musique et l'inévidence foncière du beau musical."

“Was ist Musik? Bedeutungslose Unterhaltung oder eine chiffrierte Sprache, die Hieroglyphe eines Mysteriums? Ist ihr Zauber Betrug oder Grundlage einer Weisheit? Das sind die tiefen Fragen, denen der bedeutende französische Philosoph Vladimir Jankélévitch in seinem musikphilosophischen Meisterwerk auf den Grund geht. Erstmals 1961 in Frankreich erschienen, ist es nun endlich in deutscher Übersetzung zu entdecken”

“Qual o significado da música? É possível amá-la incontestadamente ou sua natureza dúbia impossibilita sua definição a tal ponto que seus encantos recaem ao vazio Para Bachelard, como para Bergson, no que se refere à percepção psicológica do tempo e da sua duração , Jankélévitch esmiúça a construção musical e seus reflexos na percepção do ouvinte. A música é o prazer que age sobre o sistema nervoso. Não uma ciência, como querem os musicólogos e estudiosos dessa arte, mas sim um encanto que embriaga e se aloja no íntimo, uma operação irracional mais aparentada à magia que às ciências exatas.”

...

“Publicada, em 1961, pela primeira vez em sua versão integral, “A música e o inefável” pode ser incluída, sem hesitação, entre tais títulos. A relevância da obra em questão se manifesta, sobretudo, em sua particular abordagem da arte sonora, fruto de um pensamento singular, no qual confluem harmoniosamente diversos vetores, como a filosofia ocidental, a literatura russa, as intuições de artistas, os relatos de místicos cristãos.” (GONTIJO, 2017)

...

“Filósofo e musicólogo de ascendência russa, Vladimir Jankélévitch nasceu em 1903, em Bourges, na França. Estudou na Escola Normal Superior, em Paris, e foi influenciado pelo pensamento do filósofo Henri Bergson.

Judeu, Jankélévitch atuou na resistência antinazista durante a Segunda Guerra Mundial e foi professor de filosofia moral na Universidade Sorbonne entre 1951 e 1979. Para ele, a moral é o problema central na reflexão filosófica.

O pensador morreu na capital francesa em 1985. No Brasil, foram publicados os seus livros "Curso de Filosofia Moral" e "O Paradoxo da Moral" (ambos pela ed. WMF Martins Fontes) e "Primeiras e Últimas Páginas" (Papirus, esgotado)”

Fonte: Caderno Mais (Folha de São Paulo. São Paulo, domingo, 06 de setembro de 2009.

______.

JANKÉLÉVITCH,  Vladimir. A música e o inefável. São Paulo: Editora Perspectiva, 2018.

______. La Musique et l'ineffable. Paris: Essais,  1961.

______. Die Musik und das Unaussprechliche. Suhrkamp Verlag, 2016.





quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

A RELIGIÃO NOS LIMITES DA SIMPLES RAZÃO: PROSSEGUINDO COM OS TRABALHOS DESDE 2018

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"[...] longe da posição de Kant está a visão secularista que trata a religião com desprezo, considerando-a como nada mais que uma relíquia do passado ou um deplorável refúgio para os ignorantes e supersticiosos" (A. W., 2009)

Iniciando os trabalhos com mais uma releitura,  na "tônica dominante" das leituras para 2018. Nesta obra, já no prólogo à primeira edição sobre a religião, Immanuel Kant delimita sua investigação: 

“dos quatro tratados seguintes, para tornar manifesta a relação da religião com a natureza humana, a qual possui em parte disposições boas e em parte disposições más, eu represento a relação do bom e do mau princípio tal como de duas causas operantes por si subsistentes e que influem no homem”. Seu objetivo apresentar a relação da religião com a natureza humana. 

Importante estar atento ao uso do termo religião que pode seguir por duas linhas no texto:

a) numa, há uma tendência a toma-la num conjunto de dogmas e crenças; convencional. 

b) noutra, o texto considera o conceito como de religião de um ponto de vista subjetivo, relacionada ao “reconhecimento de todos os nossos deveres - Pflichten - como mandamentos divinos.

A religião nos limites da simples razão, considerada nesses termos, leva em conta, um certo consentimento do indivíduo à medida que considera os seus deveres como se fossem mandamentos divinos; ou seja, o objetivo é estudar a questão dos deveres à medida que cada indivíduo estaria sujeito a disposições boas e más. Kant investiga em que sentido as disposições más, tendo corrompido o indivíduo, podem ser dominadas e restituídas as disposições boas.
Kant parte, portanto, de uma relação entre religião e natureza humana relacionada a partir dos princípios bom e mau, tomados como causas que atuam na natureza humana. Daí, o texto sobre a religião ser tomado como uma investigação sobre a corrupção moral do homem. Logo nos dois primeiros livros; no terceiro e no quarto, tenta pensar em que sentido o indivíduo corrompido pode restabelecer-se moralmente. 
No fundo de toda a discussão estão os conceitos de mal radical (Radicale Böse) e de comunidade ética (ethischen gemeinen Wesens). Ora, com o conceito de mal radical, Kant discute a ruína moral humana; empregando o conceito de comunidade ética, enquanto um mecanismo de aperfeiçoamento moral, ele defende a possibilidade da esperança à medida que propõe um caminho para que daí o homem possa orientar-se por princípios morais.
______.

KANT, Immanuel. A religião nos limites da simples razão. Edições 70, Lisboa, 1992. 

______.Vorlesung über die philosophische Encyclopädie. In: Kant gesalmmelte Schriften, XXIX, Berlin, Akademie, 1980, pp. 8 e 12).

______. Observações sobre o sentimento do belo e do sublime; Ensaio sobre as doenças mentais. Tradução e estudo de Vinicius de Figueiredo. São Paulo: Editora Clandestina, 2018.

______. Observações sobre o sentimento do Belo e do Sublime; Ensaio sobre as doenças mentais. (Trad. Vinícius Figueiredo). Campinas, SP: Ed. Papirus, 1993.

______. Observações sobre o sentimento do Belo e do Sublime; Ensaio sobre as doenças mentais. Lisboa: Edições 70, 2012.

______. Die Religion innerhalb der Grenzen der bloßen Vernunft. W. de Gruyter, 1968.

 

...

Um pouco mais e Atualizando: 


quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

Um "Clinâmen"...

1. 2.
... pós tensão das provas e exames... para conhecer (o que diz?) um pouco da obra desse autor, de quem li alguns textos somente à época de graduação.
1. A UNIÃO DA ALMA E DO CORPO: "Este livro transcreve o curso que MerleauPonty ofereceu em 1947-1948, na Escola Normal Superior (Paris). Para muito além do aspecto oficial de aulas preparatórias com vistas à seleção de professores no ensino público francês, o leitor tem em mãos um texto de primeira grandeza. Nele se ouve a dicção do professor que reflete com Malebranche, por exemplo, a entrada do irrefletido na cena filosófica; com Maine de Biran, o papel da dúvida na gênese da evidência; com Bergson, o começo de uma precisa delimitação da criatividade em história da filosofia. Assim, apresenta-se um pensamento orgânico sobre a união da alma e do corpo, sem descurar do campo temático cartesiano, especialmente pelo que este comporta de mítico , no sentido platônico do termo, e de histórico , em acepção bastante peculiar. Já na primeira aula, Merleau-Ponty dirá- Toda a história da filosofia é uma retomada pessoal pelo filósofo do problema que ele estuda . De modo que a objetividade da história da filosofia só se encontra no exercício da subjetividade, fórmula que anuncia questões retomadas em Elogio da filosofia (aula inaugural no Collège de France). Mas importa salientar que neste livro se ouve principalmente a voz do filósofo. Na unidade da reflexão, Merleau-Ponty pratica um estilo de interrogação singular em que o pensamento, longe de se apreender como coisa , é, em certo sentido, um ato . Se o leitor é convidado a satisfazer o seu gosto pela evidência e aprimorar o seu senso para ambiguidades fecundas, é porque, no fundo, pensar é captar os resultados dos quais não temos todas as premissas . Também para o leitor-ouvinte é preciso, portanto, fundar o pensamento possível sobre o pensamento atual, e não o inverso."
2. FENOMENOLOGIA DA PERCEPÇÃO: "Desde o início da obra o problema da percepção aparece sob uma luz diferente - Para Merleau-Ponty, o essencial é captar a percepção viva, a percepção em via de realização. Para isso, é preciso se livrar de todos os preconceitos dogmáticos que proporcionam apenas percepções fossilizadas, espécies de cadáveres de objetos."

REFLEXÃO DA MATINAL IV

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Imagem: Charles-François Daubigny (1817 - 1878) -
Imagem: Charles-François Daubigny -"LANDSCAPE WITH COWS"

Andastes ausente e não tens o hábito de frequentar os banquetes, tão frequentes, onde são servidos os manjares da maledicência... onde se diz algo de quem não estando presente também não pode defender-se? Tranquiliza-te, no entanto, pois...

"[33.9] ἐὰν τίς σοι ἀπαγγείλῃὅτι ὁδεῖνάσε κακῶς λέγει, μὴἀπολογοῦπρὸς τὰλεχθέντα, ἀλλ' ἀποκρίνου διότι ‘ἠγνόει γὰρ τὰἄλλα τὰπροσόντα μοι κακά, ἐπεὶοὐκ ἂν ταῦτα μόνα ἔλεγεν’.

[33.9] Se te disserem que alguém, maldosamente, falou coisas terríveis de ti, não te defendas das coisas ditas, mas responde que "Ele desconhece meus outros defeitos, ou não mencionaria somente esses”.

______.
(Ἐπικτήτου Ἐγχειρίδιον. O Encheirídion de Epicteto. Edição Bilíngue. Tradução do texto grego e notasi; Alfredo Julien. Textos e notas de Aldo Dinucci; Alfredo Julien. São Cristóvão. Universidade Federal de Sergipe, 2012. 96p.)

domingo, 19 de novembro de 2017

REFLEXÃO MATINAL (III)

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Exercícios estoicos.

"A essência da filosofia é o espírito de simplicidade. Quer encaremos o espírito filosófico nele mesmo ou em suas obras, quer comparemos a filosofia à ciência ou uma filosofia às demais filosofias, sempre verificamos que a complicação é superficial, a construção um acessório, a síntese uma aparência: filosofar é um ato simples" (BERGSON, 1911)

Tem sido bastante produtivo, em termos existenciais, refletir sobre o que é possível identificar nos textos estoicos como "sabedoria prática". Há anos sigo com essas atividades...  Aqui somei a citação de Henri Bergson que para mim, em certa medida, aproxima-se da reflexão pretendida. Ali, onde no texto Epictetus trata de temas específicos de seu tempo, basta que substituamos por atividades hodiernas "similares" e que da mesma forma, nas conversas, devem ser evitados. Conversas frívolas são sempre dispensáveis.

Ἐπικτήτου Ἐγχειρίδιον

“[33.1] Τάξον τινὰἤδη χαρακτῆρα σαυτῷκαὶτύπον, ὃν φυλάξεις ἐπίτε σεαυτοῦὢν καὶἀνθρώποις ἐντυγχάνων. [33.2] σιωπὴτὸπολὺἔστω ἢλαλείσθω τὰἀναγκαῖα καὶδι' ὀλίγων. σπανίως δέποτε καιροῦπαρακαλοῦντος ἐπὶτὸλέγειν τι ἥξομεν, ἀλλὰπερὶοὐδενὸς τῶν τυχόντων·μὴπερὶμονομαχιῶν, μὴπερὶἱπποδρομιῶν, μὴπερὶἀθλητῶν, μὴπερὶβρωμάτων ἢπομάτων, τῶν ἑκασταχοῦλεγομένων, μάλιστα δὲμὴπερὶἀνθρώπων ψέγονταἢἐπαινοῦνταἢσυγκρίνοντα. [33.3] ἂν μὲν οὖν οἷός τε ᾖς, μετάγαγε τοῦς σοῦς λόγους καὶτοὺς τῶν συνόντων ἐπὶτὸπροσῆκον. εἰδὲἐν ἀλλοφύλοις ἀποληφθεὶς τύχοις, σιώπα. [33.4] γέλως μὴπολὺς ἔστω μηδὲἐπὶπολλοῖς μηδὲἀνειμένος.”

“[33.1] Fixa, a partir de agora, um caráter e um padrão para ti próprio, que guardarás quando estiveres sozinho, ou quando te encontrares com outros. [33.2] Na maior parte do tempo, fica em silêncio, ou, com poucas palavras, fala o que é necessário. Raramente, quando a ocasião pedir, fala algo, mas não sobre coisa ordinária: nada sobre lutas de gladiadores, corridas de cavalos, nem sobre atletas, nem sobre comidas ou bebidas –assuntos falados por toda parte. Sobretudo não fales sobre os homens, recriminando-os, ou elogiando-os, ou comparando-os. [33.3] Então, se fores capaz, conduz a tua conversa e a dos que estão contigo para o que é conveniente. Porém, se te encontrares isolado em meio a estranhos, guarda silêncio. [33.4] Não rias muito, nem sobre muitas coisas, nem de modo descontrolado.”
_____.
(Ἐπικτήτου Ἐγχειρίδιον. O Encheirídion de Epicteto. Edição Bilíngue. Tradução do texto grego e notasi; Alfredo Julien. Textos e notas de Aldo Dinucci; Alfredo Julien. São Cristóvão. Universidade Federal de Sergipe, 2012. 96p.)

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

O EXISTENCIALISMO DE KIERKEGAARD

Resultado de imagem para duvidar de tudoOu-Ou: Um Fragmento de Vida - Primeira Parte

Fazendo aqui algumas leituras e anotações sobre a obra de Kierkegaard; dadas as minhas limitações, sempre na mesma linha do que frequentemente leio e estudo. Já li outras obras dele, essas só recentemente. Trazem um desafio "existencial" em cada uma de suas linhas.
  
1. “É preciso duvidar de tudo.”

“Filósofo religioso e crítico do racionalismo, é considerado o fundador do existencialismo, que se assumiu como uma das mais profundas e renovadoras correntes filosóficas do século XX. Dinamarquês, nasceu em Copenhague em 1813 e morreu nesta cidade em 1855. Segundo Kierkegaard, o homem tem que renunciar a si mesmo para superar as limitações que a realidade lhe impõe e assim aceder ao transcendente, a Deus e à verdadeira individualidade. Neste sentido, realçou o existir concreto de um homem que anseia pela transcendência focando, consequentemente, os sentimentos de angústia e desespero inerentes a tal condição.”

A obra é dividida em quatro partes, com a introdução. Abra com uma citação de Espinosa no seu “Tratado sobre a reforma do intelecto” sobre a “dúvida real” e uma recomendação de que ninguém deve desperdiçar sua juventude dão a tonalidade da obra; uma tensa reflexão sobre a dúvida existencial e a história de um jovem filósofo Johannes Clímacus com suas frustrações. Aproxima essas duas imagens para apontar os equívocos da tentativa da filosofia moderna em superar a Filosofia Antiga sem mesmo entender-se a si mesmo. A dúvida como elemento moderno não se caracterizaria como existencial e por isso tende a tornar-se um “dogma”. A única saída dessa dificuldade segundo a obra é tentar pensar por si mesmo, com todas as dores daí advindas. Aventurar-se nessa perspectiva causa ansiedade. Um grande desafio.

Outra sugestão, obra do mesmo autor:

2. “Ou – ou: um fragmento de vida”


“Uma obra ímpar dentro da literatura e da filosofia ocidentais, a todos os níveis e vista de todos os ângulos; não fosse a circunstância de, na Europa de então, como na actual, a língua dinamarquesa ficar submersa por outros idiomas dominantes, e certamente que teria sido reconhecida universalmente como um clássico da literatura e da filosofia.” (Da Introdução).

REFLEXÃO MATINAL CXLV: AINDA O PROBLEMA DA METAFÍSICA E "SORGE"

( Esboço e continuidade dos estudos) O texto em que me empenho, doravante, como exigência de um curso e preparação para o próximo Colóquio, ...