domingo, 31 de dezembro de 2017

REFLEXÃO MATINAL VI



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(IMAGEM: "Lago Wanaka" - Nova Zelândia)

A corrupção da natureza humana

"O ser humano nasce com uma inclinação na direção da virtude."  


( Musonius Rufus)

É bastante comum encontrarmos reflexões sobre a “natureza humana” na obra dos Estoicos, aliás, tema fundamental para eles. O mesmo Musonius Rufus teria dito que “Todos nós fomos feitos pela natureza, de forma que possamos viver livre de erros e de forma nobre, não que um possa e outro não possa, todos podemos.”
Também não é difícil encontrar, atualmente, opositores ensandecidos, desequilibrados, a insistirem na negação de que se possa nascer com inclinação para as virtudes. Preferem defender que possa haver no homem uma natureza corrupta em si mesma do que admitir que, na verdade, haveria a possibilidade de que uma certa “natureza humana” pudesse ter se corrompido; que se tenha tomado direções equivocadas e desviado da meta, a qual como diz Musonius Rufus: “todos podemos” chegar. A filosofia seria uma ferramenta para retorno à nossa verdadeira “natureza humana”.
O que se aprenderá com a filosofia, no modo defendido aqui é que ela pode sim revelar-nos uma "essência" em nós. O erro será uma constante mesmo na vida de quem persista em agir corretamente, daí não se poder ratificar que há uma natureza corrompida; pelo contrário, o que haveria é que, no exercício cotidiano a ocorrência dos erros e dos desvios de rota sempre se apresentam.
Isso, exigirá sempre, uma profunda e repetida reflexão, por parecer apontar na direção de uma solução distante e quase impossível. Os Estoicos, defendem que qualquer um pode reverter um mau comportamento, reparar os erros e se reorientar na direção no caminho das Virtudes dedicando-se ao estudo regular, constante e disciplinado da filosofia. Para eles a prática das virtudes começa por aí e prossegue-se aprendendo a separar o que é bom (virtude) do que é mau (vícios).
A meta, portanto: aprendermos a admitir que há coisas às quais podemos impor nosso controle e há coisas que fogem da nossa alçada e é pífio o poder de termos controle sobre elas. O que a proposta dos Estóicos sugere é que se exercite as ações em consonância com as que fogem ao nosso domínio, que estariam, talvez, no domínio das leis naturais. A Filosofia é tomada, portanto, como prática diária na correção dos erros e na compreensão e aceitação das próprias limitações.

terça-feira, 19 de dezembro de 2017

REFLEXÃO MATINAL (V)

Capa

DAVIS, P. J. aSeneca: Thyestes. Companions to Greek and Roman Tragedy. Bloomsbury Academic (Universidade de Michigan), 2003.


À maneira estóica, essa foi a meditação matinal de hoje...

"A morte paira sobre mim, pesada, eu, que fui conhecido excessivamente bem por todos, mas que morro estranho a mim mesmo." ( Sêneca em Thyestes)

Muitos somos os que de alguma forma procuramos preservar nosso conjunto de valores e sustentar princípios para orientarmo-nos no mundo.

À medida em me aprofundo na leitura atenta dos estóicos percebo a preocupação deles com a filosofia na prática.  Ao agirmos, assim o fazemos fundamentados nos valores e princípios que acreditamos?

Perceptível que a Filosofia para eles é uma forma “um método" para ação, não para falar, como já defendia Sêneca. As nossas ações ratificam, endossam a Verdade contida nas nossas premissas básicas?

Se, por repetidas vezes nos deparamos agindo em oposição àquelas premissas, temos um trabalho de reeducação a implementar. Educarmo-nos; a nós mesmos... Rever as nossas crenças e o quanto elas destoam ou se harmonizam com as nossa ações.

Devemos opor, para nossa reflexão e corrigenda, o feito e o pensado, de forma que essa conjunção possa guiar nossa Vida prática, cotidiana.

Por trás de tamanho projeto estaria o “conhece-te a ti mesmo”, bastante conhecido e atribuído a Sócrates.

Mas somente enfrenta-se como desafio fazendo-o ponto de partida quem se obriga admitir essa necessidade. Ora, ou fazemos ou perdemos... outra vez, colocando a culpa em algo estranho e exterior a nós.

Tarefa a ser iniciada...

“Para o alto e avante”

sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

RECONSTRUÇÃO DE UM CONFRONTO

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O livro do prof. Oswaldo Giacoia Junior nos mostra dois projetos filosóficos em confronto. “Nietzsche X Kant: uma disputa permanente a respeito de liberdade, autonomia e dever”. 

Giacoia Junior apresenta os assuntos para o debate contemporâneo, ao tratar de temas como as normas que ditam comportamentos individuais, os limites do Estado, nossos direitos e deveres.
"Um estudo essencial para se pensar o cenário contemporâneo, marcado por uma latente crise de valores e modelos."
...
“Essa crise permanente torna não apenas atual, mas incontornável uma revisitação dos clássicos ... no caso, da herança filosófica de Kant e Nietzsche..., no que respeita àquilo que o confronto entre eles ainda pode conservar de seminal e fecundo, em termos de orientação para o pensar e agir”

Giacoia Jr. Ao encerrar Nietzsche x Kant destaca que o próprio Kant teria bons argumentos para opor-se a Nietzsche. As diferenças entre os dois projetos ultrapassa essa constatação:

É notória, portanto, ao longo da obra a “[...] impossibilidade de conciliar uma legislação filosófica de Si-Próprio - uma estilística moral de si – com uma legislação universal da razão pura prática, inteiramente formal e categórica” (GIACOIA JUNIOR, 2012, p. 277).


______.
GIACOIA JUNIOR, Owaldo. Nietzsche x Kant: uma disputa permanente a respeito de liberdade, autonomia e dever. Rio de Janeiro: Casa da palavra; São Paulo: Casa do saber, 2012.

“A MÚSICA E O INEFÁVEL”: JANKÉLÉVITCH


1. 2. 3.

Escrita por Vladimir Jankélévitch (1903-1985) “A música e o inefável”, terá sua primeira tradução para a língua portuguesa, a ser publicada em 2018 pela Editora Perspectiva, na coleção “Estudos”, obra de interesse para a filosofia da arte e, da estética musical. Já estou planejando um tempinho para essa leitura em 2018, com certeza!

"Il y a dans la musique une double complication, génératrice de problèmes métaphysiques et de problèmes moraux, et bien faite pour entretenir notre perplexité. Car la musique est à la fois expressive et inexpressive, sérieuse et frivole, profonde et superficielle ; elle a un sens et n'a pas de sens. La musique est-elle un divertissement sans portée ? ou bien est-elle un langage chiffré et comme le hiéroglyphe d'un mystère ? Ou peut-être les deux ensemble ? Mais cette équivoque essentielle a aussi un aspect moral : il y a un contraste déroutant, une ironique et scandaleuse disproportion entre la puissance incantatoire de la musique et l'inévidence foncière du beau musical."

“Was ist Musik? Bedeutungslose Unterhaltung oder eine chiffrierte Sprache, die Hieroglyphe eines Mysteriums? Ist ihr Zauber Betrug oder Grundlage einer Weisheit? Das sind die tiefen Fragen, denen der bedeutende französische Philosoph Vladimir Jankélévitch in seinem musikphilosophischen Meisterwerk auf den Grund geht. Erstmals 1961 in Frankreich erschienen, ist es nun endlich in deutscher Übersetzung zu entdecken”

“Qual o significado da música? É possível amá-la incontestadamente ou sua natureza dúbia impossibilita sua definição a tal ponto que seus encantos recaem ao vazio Para Bachelard, como para Bergson, no que se refere à percepção psicológica do tempo e da sua duração , Jankélévitch esmiúça a construção musical e seus reflexos na percepção do ouvinte. A música é o prazer que age sobre o sistema nervoso. Não uma ciência, como querem os musicólogos e estudiosos dessa arte, mas sim um encanto que embriaga e se aloja no íntimo, uma operação irracional mais aparentada à magia que às ciências exatas.”

...

“Publicada, em 1961, pela primeira vez em sua versão integral, “A música e o inefável” pode ser incluída, sem hesitação, entre tais títulos. A relevância da obra em questão se manifesta, sobretudo, em sua particular abordagem da arte sonora, fruto de um pensamento singular, no qual confluem harmoniosamente diversos vetores, como a filosofia ocidental, a literatura russa, as intuições de artistas, os relatos de místicos cristãos.” (GONTIJO, 2017)

...

“Filósofo e musicólogo de ascendência russa, Vladimir Jankélévitch nasceu em 1903, em Bourges, na França. Estudou na Escola Normal Superior, em Paris, e foi influenciado pelo pensamento do filósofo Henri Bergson.

Judeu, Jankélévitch atuou na resistência antinazista durante a Segunda Guerra Mundial e foi professor de filosofia moral na Universidade Sorbonne entre 1951 e 1979. Para ele, a moral é o problema central na reflexão filosófica.

O pensador morreu na capital francesa em 1985. No Brasil, foram publicados os seus livros "Curso de Filosofia Moral" e "O Paradoxo da Moral" (ambos pela ed. WMF Martins Fontes) e "Primeiras e Últimas Páginas" (Papirus, esgotado)”

Fonte: Caderno Mais (Folha de São Paulo. São Paulo, domingo, 06 de setembro de 2009.

______.

JANKÉLÉVITCH,  Vladimir. A música e o inefável. São Paulo: Editora Perspectiva, 2018.

______. La Musique et l'ineffable. Paris: Essais,  1961.

______. Die Musik und das Unaussprechliche. Suhrkamp Verlag, 2016.





quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

A RELIGIÃO NOS LIMITES DA SIMPLES RAZÃO: PROSSEGUINDO COM OS TRABALHOS DESDE 2018

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"[...] longe da posição de Kant está a visão secularista que trata a religião com desprezo, considerando-a como nada mais que uma relíquia do passado ou um deplorável refúgio para os ignorantes e supersticiosos" (A. W., 2009)

Iniciando os trabalhos com mais uma releitura,  na "tônica dominante" das leituras para 2018. Nesta obra, já no prólogo à primeira edição sobre a religião, Immanuel Kant delimita sua investigação: 

“dos quatro tratados seguintes, para tornar manifesta a relação da religião com a natureza humana, a qual possui em parte disposições boas e em parte disposições más, eu represento a relação do bom e do mau princípio tal como de duas causas operantes por si subsistentes e que influem no homem”. Seu objetivo apresentar a relação da religião com a natureza humana. 

Importante estar atento ao uso do termo religião que pode seguir por duas linhas no texto:

a) numa, há uma tendência a toma-la num conjunto de dogmas e crenças; convencional. 

b) noutra, o texto considera o conceito como de religião de um ponto de vista subjetivo, relacionada ao “reconhecimento de todos os nossos deveres - Pflichten - como mandamentos divinos.

A religião nos limites da simples razão, considerada nesses termos, leva em conta, um certo consentimento do indivíduo à medida que considera os seus deveres como se fossem mandamentos divinos; ou seja, o objetivo é estudar a questão dos deveres à medida que cada indivíduo estaria sujeito a disposições boas e más. Kant investiga em que sentido as disposições más, tendo corrompido o indivíduo, podem ser dominadas e restituídas as disposições boas.
Kant parte, portanto, de uma relação entre religião e natureza humana relacionada a partir dos princípios bom e mau, tomados como causas que atuam na natureza humana. Daí, o texto sobre a religião ser tomado como uma investigação sobre a corrupção moral do homem. Logo nos dois primeiros livros; no terceiro e no quarto, tenta pensar em que sentido o indivíduo corrompido pode restabelecer-se moralmente. 
No fundo de toda a discussão estão os conceitos de mal radical (Radicale Böse) e de comunidade ética (ethischen gemeinen Wesens). Ora, com o conceito de mal radical, Kant discute a ruína moral humana; empregando o conceito de comunidade ética, enquanto um mecanismo de aperfeiçoamento moral, ele defende a possibilidade da esperança à medida que propõe um caminho para que daí o homem possa orientar-se por princípios morais.
______.

KANT, Immanuel. A religião nos limites da simples razão. Edições 70, Lisboa, 1992. 

______.Vorlesung über die philosophische Encyclopädie. In: Kant gesalmmelte Schriften, XXIX, Berlin, Akademie, 1980, pp. 8 e 12).

______. Observações sobre o sentimento do belo e do sublime; Ensaio sobre as doenças mentais. Tradução e estudo de Vinicius de Figueiredo. São Paulo: Editora Clandestina, 2018.

______. Observações sobre o sentimento do Belo e do Sublime; Ensaio sobre as doenças mentais. (Trad. Vinícius Figueiredo). Campinas, SP: Ed. Papirus, 1993.

______. Observações sobre o sentimento do Belo e do Sublime; Ensaio sobre as doenças mentais. Lisboa: Edições 70, 2012.

______. Die Religion innerhalb der Grenzen der bloßen Vernunft. W. de Gruyter, 1968.

 

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Um pouco mais e Atualizando: 


quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

Um "Clinâmen"...

1. 2.
... pós tensão das provas e exames... para conhecer (o que diz?) um pouco da obra desse autor, de quem li alguns textos somente à época de graduação.
1. A UNIÃO DA ALMA E DO CORPO: "Este livro transcreve o curso que MerleauPonty ofereceu em 1947-1948, na Escola Normal Superior (Paris). Para muito além do aspecto oficial de aulas preparatórias com vistas à seleção de professores no ensino público francês, o leitor tem em mãos um texto de primeira grandeza. Nele se ouve a dicção do professor que reflete com Malebranche, por exemplo, a entrada do irrefletido na cena filosófica; com Maine de Biran, o papel da dúvida na gênese da evidência; com Bergson, o começo de uma precisa delimitação da criatividade em história da filosofia. Assim, apresenta-se um pensamento orgânico sobre a união da alma e do corpo, sem descurar do campo temático cartesiano, especialmente pelo que este comporta de mítico , no sentido platônico do termo, e de histórico , em acepção bastante peculiar. Já na primeira aula, Merleau-Ponty dirá- Toda a história da filosofia é uma retomada pessoal pelo filósofo do problema que ele estuda . De modo que a objetividade da história da filosofia só se encontra no exercício da subjetividade, fórmula que anuncia questões retomadas em Elogio da filosofia (aula inaugural no Collège de France). Mas importa salientar que neste livro se ouve principalmente a voz do filósofo. Na unidade da reflexão, Merleau-Ponty pratica um estilo de interrogação singular em que o pensamento, longe de se apreender como coisa , é, em certo sentido, um ato . Se o leitor é convidado a satisfazer o seu gosto pela evidência e aprimorar o seu senso para ambiguidades fecundas, é porque, no fundo, pensar é captar os resultados dos quais não temos todas as premissas . Também para o leitor-ouvinte é preciso, portanto, fundar o pensamento possível sobre o pensamento atual, e não o inverso."
2. FENOMENOLOGIA DA PERCEPÇÃO: "Desde o início da obra o problema da percepção aparece sob uma luz diferente - Para Merleau-Ponty, o essencial é captar a percepção viva, a percepção em via de realização. Para isso, é preciso se livrar de todos os preconceitos dogmáticos que proporcionam apenas percepções fossilizadas, espécies de cadáveres de objetos."

REFLEXÃO DA MATINAL IV

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Imagem: Charles-François Daubigny (1817 - 1878) -
Imagem: Charles-François Daubigny -"LANDSCAPE WITH COWS"

Andastes ausente e não tens o hábito de frequentar os banquetes, tão frequentes, onde são servidos os manjares da maledicência... onde se diz algo de quem não estando presente também não pode defender-se? Tranquiliza-te, no entanto, pois...

"[33.9] ἐὰν τίς σοι ἀπαγγείλῃὅτι ὁδεῖνάσε κακῶς λέγει, μὴἀπολογοῦπρὸς τὰλεχθέντα, ἀλλ' ἀποκρίνου διότι ‘ἠγνόει γὰρ τὰἄλλα τὰπροσόντα μοι κακά, ἐπεὶοὐκ ἂν ταῦτα μόνα ἔλεγεν’.

[33.9] Se te disserem que alguém, maldosamente, falou coisas terríveis de ti, não te defendas das coisas ditas, mas responde que "Ele desconhece meus outros defeitos, ou não mencionaria somente esses”.

______.
(Ἐπικτήτου Ἐγχειρίδιον. O Encheirídion de Epicteto. Edição Bilíngue. Tradução do texto grego e notasi; Alfredo Julien. Textos e notas de Aldo Dinucci; Alfredo Julien. São Cristóvão. Universidade Federal de Sergipe, 2012. 96p.)

domingo, 19 de novembro de 2017

REFLEXÃO MATINAL (III)

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Exercícios estoicos.

"A essência da filosofia é o espírito de simplicidade. Quer encaremos o espírito filosófico nele mesmo ou em suas obras, quer comparemos a filosofia à ciência ou uma filosofia às demais filosofias, sempre verificamos que a complicação é superficial, a construção um acessório, a síntese uma aparência: filosofar é um ato simples" (BERGSON, 1911)

Tem sido bastante produtivo, em termos existenciais, refletir sobre o que é possível identificar nos textos estoicos como "sabedoria prática". Há anos sigo com essas atividades...  Aqui somei a citação de Henri Bergson que para mim, em certa medida, aproxima-se da reflexão pretendida. Ali, onde no texto Epictetus trata de temas específicos de seu tempo, basta que substituamos por atividades hodiernas "similares" e que da mesma forma, nas conversas, devem ser evitados. Conversas frívolas são sempre dispensáveis.

Ἐπικτήτου Ἐγχειρίδιον

“[33.1] Τάξον τινὰἤδη χαρακτῆρα σαυτῷκαὶτύπον, ὃν φυλάξεις ἐπίτε σεαυτοῦὢν καὶἀνθρώποις ἐντυγχάνων. [33.2] σιωπὴτὸπολὺἔστω ἢλαλείσθω τὰἀναγκαῖα καὶδι' ὀλίγων. σπανίως δέποτε καιροῦπαρακαλοῦντος ἐπὶτὸλέγειν τι ἥξομεν, ἀλλὰπερὶοὐδενὸς τῶν τυχόντων·μὴπερὶμονομαχιῶν, μὴπερὶἱπποδρομιῶν, μὴπερὶἀθλητῶν, μὴπερὶβρωμάτων ἢπομάτων, τῶν ἑκασταχοῦλεγομένων, μάλιστα δὲμὴπερὶἀνθρώπων ψέγονταἢἐπαινοῦνταἢσυγκρίνοντα. [33.3] ἂν μὲν οὖν οἷός τε ᾖς, μετάγαγε τοῦς σοῦς λόγους καὶτοὺς τῶν συνόντων ἐπὶτὸπροσῆκον. εἰδὲἐν ἀλλοφύλοις ἀποληφθεὶς τύχοις, σιώπα. [33.4] γέλως μὴπολὺς ἔστω μηδὲἐπὶπολλοῖς μηδὲἀνειμένος.”

“[33.1] Fixa, a partir de agora, um caráter e um padrão para ti próprio, que guardarás quando estiveres sozinho, ou quando te encontrares com outros. [33.2] Na maior parte do tempo, fica em silêncio, ou, com poucas palavras, fala o que é necessário. Raramente, quando a ocasião pedir, fala algo, mas não sobre coisa ordinária: nada sobre lutas de gladiadores, corridas de cavalos, nem sobre atletas, nem sobre comidas ou bebidas –assuntos falados por toda parte. Sobretudo não fales sobre os homens, recriminando-os, ou elogiando-os, ou comparando-os. [33.3] Então, se fores capaz, conduz a tua conversa e a dos que estão contigo para o que é conveniente. Porém, se te encontrares isolado em meio a estranhos, guarda silêncio. [33.4] Não rias muito, nem sobre muitas coisas, nem de modo descontrolado.”
_____.
(Ἐπικτήτου Ἐγχειρίδιον. O Encheirídion de Epicteto. Edição Bilíngue. Tradução do texto grego e notasi; Alfredo Julien. Textos e notas de Aldo Dinucci; Alfredo Julien. São Cristóvão. Universidade Federal de Sergipe, 2012. 96p.)

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

O EXISTENCIALISMO DE KIERKEGAARD

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Fazendo aqui algumas leituras e anotações sobre a obra de Kierkegaard; dadas as minhas limitações, sempre na mesma linha do que frequentemente leio e estudo. Já li outras obras dele, essas só recentemente. Trazem um desafio "existencial" em cada uma de suas linhas.
  
1. “É preciso duvidar de tudo.”

“Filósofo religioso e crítico do racionalismo, é considerado o fundador do existencialismo, que se assumiu como uma das mais profundas e renovadoras correntes filosóficas do século XX. Dinamarquês, nasceu em Copenhague em 1813 e morreu nesta cidade em 1855. Segundo Kierkegaard, o homem tem que renunciar a si mesmo para superar as limitações que a realidade lhe impõe e assim aceder ao transcendente, a Deus e à verdadeira individualidade. Neste sentido, realçou o existir concreto de um homem que anseia pela transcendência focando, consequentemente, os sentimentos de angústia e desespero inerentes a tal condição.”

A obra é dividida em quatro partes, com a introdução. Abra com uma citação de Espinosa no seu “Tratado sobre a reforma do intelecto” sobre a “dúvida real” e uma recomendação de que ninguém deve desperdiçar sua juventude dão a tonalidade da obra; uma tensa reflexão sobre a dúvida existencial e a história de um jovem filósofo Johannes Clímacus com suas frustrações. Aproxima essas duas imagens para apontar os equívocos da tentativa da filosofia moderna em superar a Filosofia Antiga sem mesmo entender-se a si mesmo. A dúvida como elemento moderno não se caracterizaria como existencial e por isso tende a tornar-se um “dogma”. A única saída dessa dificuldade segundo a obra é tentar pensar por si mesmo, com todas as dores daí advindas. Aventurar-se nessa perspectiva causa ansiedade. Um grande desafio.

Outra sugestão, obra do mesmo autor:

2. “Ou – ou: um fragmento de vida”


“Uma obra ímpar dentro da literatura e da filosofia ocidentais, a todos os níveis e vista de todos os ângulos; não fosse a circunstância de, na Europa de então, como na actual, a língua dinamarquesa ficar submersa por outros idiomas dominantes, e certamente que teria sido reconhecida universalmente como um clássico da literatura e da filosofia.” (Da Introdução).

domingo, 12 de novembro de 2017

APONTAMENTOS SOBRE PROGRESSO DO ESPÍRITO: FILOSOFIA, METAFÍSICA E HISTÓRIA EM KANT

 

....

 

DESENVOLVENDO...

 

I. INTRODUÇÃO AO TEMA

"Diferentes ordens de Espíritos

96. São iguais os Espíritos, ou há entre eles qualquer hierarquia?

“São de diferentes ordens, conforme o grau de perfeição que tenham alcançado.”

97. As ordens ou graus de perfeição dos Espíritos são em número determinado?

“São ilimitadas em número, porque entre elas não há linhas de demarcação traçadas como barreiras, de sorte que as divisões podem ser multiplicadas ou restringidas livremente. Todavia, considerando-se os caracteres gerais dos Espíritos, elas podem reduzir-se a três principais.

“Na primeira, colocar-se-ão os que atingiram a perfeição: os Espíritos puros. Formam a segunda os que chegaram ao meio da escala: o desejo do bem é sua preocupação. Pertencem à terceira os que ainda se acham na parte inferior da escala: os Espíritos imperfeitos. A ignorância, o desejo do mal e todas as paixões más que lhes retardam o progresso, eis o que os caracteriza.”

98. Os Espíritos da segunda ordem, que desejam apenas o bem, têm o poder de praticá-lo?

“Cada um deles dispõe desse poder, de acordo com o grau de perfeição a que chegou. Assim, uns possuem a ciência, outros a sabedoria e a bondade. Todos, porém, ainda têm que sofrer provas.”

99. Os da terceira ordem são todos essencialmente maus?

“Não; uns há que não fazem nem o mal nem o bem; outros, ao contrário, se comprazem no mal e ficam satisfeitos quando se lhes depara ocasião de praticá-lo. Há também os levianos ou estouvados, mais perturbadores do que malignos, que se comprazem antes na malícia do que na malvadez, e cujo prazer consiste em mistificar e causar pequenas contrariedades, de que se riem.”

Escala espírita

100. Observações preliminares. – A classificação dos Espíritos se baseia no grau de adiantamento deles, nas qualidades que já adquiriram e nas imperfeições de que ainda terão de despojar-se. Essa classificação, aliás, nada tem de absoluta. Apenas no seu conjunto cada categoria apresenta caráter definido. De um grau a outro a transição é insensível, nos limites os matizes se apagam, como nos reinos da Natureza, como nas cores do arco-íris, ou, também, como nos diferentes períodos da vida do homem. Podem, pois, formar-se maior ou menor número de classes, conforme o ponto de vista donde se considere a questão. Dá-se aqui o que se dá com todos os sistemas de classificação científica, que podem ser mais ou menos completos, mais ou menos racionais, mais ou menos cômodos para a compreensão. Sejam, porém, quais forem, em nada alteram o fundo da ciência. Assim, é natural que inquiridos sobre este ponto, hajam os Espíritos divergido quanto ao número das categorias, sem que isso tenha nenhuma conseqüência. Entretanto, não faltou quem se agarrasse a esta contradição aparente, sem refletir que os Espíritos nenhuma importância ligam ao que é puramente convencional. Para eles, o pensamento é tudo. Deixam-nos a nós a forma, a escolha dos termos, as classificações, numa palavra, os sistemas.

Façamos ainda uma consideração que se não deve jamais perder de vista, a de que entre os Espíritos, do mesmo modo que entre os homens, há os muito ignorantes, de maneira que nunca serão demais as cautelas que se tomem contra a tendência a crer que, por serem Espíritos, todos devam saber tudo. Toda classificação exige método, análise e conhecimento aprofundado do assunto. Ora, no mundo dos Espíritos os que possuem limitados conhecimentos são, como os ignorantes deste nosso mundo, inaptos a apreender um conjunto, a formular um sistema. Só muito imperfeitamente percebem ou compreendem uma classificação qualquer. Consideram da primeira ordem todos os Espíritos que lhes são superiores, por não poderem apreciar as gradações de saber, de capacidade e de moralidade que os distinguem, como sucede entre nós a um homem inculto com relação aos civilizados. Mesmo os que sejam capazes de tal apreciação podem divergir quanto aos detalhes, conforme o ponto de vista em que se achem, sobretudo se se trata de uma divisão que nenhum cunho absoluto apresente. Lineu, Jussieu e Tournefort tiveram cada um o seu método, sem que a botânica houvesse em conseqüência experimentado modificação alguma. É que nenhum deles inventou as plantas, nem seus caracteres. Apenas observaram as analogias, segundo as quais formaram os grupos ou classes. Foi assim que também nós procedemos. Não inventamos os Espíritos, nem seus caracteres. Vimos e observamos, julgamo-los pelas suas palavras e atos, depois os classificamos pelas semelhanças, baseando-nos em dados que eles próprios nos forneceram.

Os Espíritos, em geral, admitem três categorias principais, ou três grandes divisões. Na última, a que fica na parte inferior da escala, estão os Espíritos imperfeitos, caracterizados pela predominância da matéria sobre o espírito e pela propensão para o mal. Os da segunda se caracterizam pela predominância do espírito sobre a matéria e pelo desejo do bem: são os Espíritos bons. A primeira, finalmente, compreende os Espíritos puros, os que atingiram o grau supremo de perfeição.

Essa divisão nos pareceu perfeitamente racional e com caracteres bem delimitados. Só nos restava pôr em relevo, mediante subdivisões em número suficiente, os principais matizes do conjunto. Foi o que fizemos, com o concurso dos Espíritos, cujas benévolas instruções jamais nos faltaram.

Com o auxílio desse quadro, fácil será determinar-se a ordem, assim como o grau de superioridade ou de inferioridade dos Espíritos com os quais podemos travar relações e, por conseguinte, o grau de confiança ou de estima que mereçam. É, de certo modo, a chave da ciência espírita, porquanto só ele pode explicar as anomalias que as comunicações apresentam, esclarecendo-nos acerca das desigualdades intelectuais e morais dos Espíritos. Faremos, todavia, notar que eles não ficam pertencendo, exclusivamente, a tal ou tal classe. Sendo sempre gradual o progresso deles e muitas vezes mais acentuado num sentido do que em outro, pode acontecer que reúnam em si os caracteres de várias categorias, o que seus atos e linguagem tornam possível apreciar-se.

Terceira ordem. – Espíritos imperfeitos
101. Características gerais. – Predominância da matéria sobre o espírito. Propensão para o mal. Ignorância, orgulho, egoísmo e todas as paixões que lhes são conseqüentes.

Têm a intuição de Deus, mas não O compreendem.

Nem todos são essencialmente maus. Em alguns há mais leviandade, irreflexão e malícia do que verdadeira maldade. Uns não fazem o bem nem o mal; mas, pelo simples fato de não fazerem o bem, já denotam a sua inferioridade. Outros, ao contrário, se comprazem no mal e rejubilam quando uma ocasião se lhes depara de praticá-lo.

A inteligência pode achar-se neles aliada à maldade ou à malícia; seja, porém, qual for o grau que tenham alcançado de desenvolvimento intelectual, suas idéias são pouco elevadas e mais ou menos abjetos seus sentimentos.

Restritos conhecimentos têm das coisas do mundo espírita e o pouco que sabem se confunde com as idéias e preconceitos da vida corporal. Acerca dessas coisas, não nos podem dar senão noções falsas e incompletas; entretanto, nas suas comunicações, mesmo imperfeitas, o observador atento encontra a confirmação das grandes verdades ensinadas pelos Espíritos superiores.

Na linguagem de que usam se lhes revela o caráter. Todo Espírito que, em suas comunicações, trai um mau pensamento pode ser classificado na terceira ordem. Conseguintemente, todo mau pensamento que nos é sugerido vem de um Espírito desta ordem.

Eles vêem a felicidade dos bons e esse espetáculo lhes constitui incessante tormento, porque os faz experimentar todas as angústias que a inveja e o ciúme podem causar.

Conservam a lembrança e a percepção dos sofrimentos da vida corpórea e essa impressão é muitas vezes mais penosa do que a realidade. Sofrem, pois, verdadeiramente, pelos males de que padeceram em vida e pelos que ocasionaram aos outros. E, como sofrem por longo tempo, julgam que sofrerão para sempre. Deus, para puni-los, quer que assim julguem.

Podem ser divididos em cinco classes principais.

102. Décima classe. Espíritos impuros. – São inclinados ao mal, de que fazem o objeto de suas preocupações. Como Espíritos, dão conselhos pérfidos, sopram a discórdia e a desconfiança e se mascaram de todas as maneiras para melhor enganar. Ligam-se aos homens de caráter bastante fraco para cederem às suas sugestões, a fim de induzi-los à perdição, satisfeitos com o conseguirem retardar-lhes o adiantamento, fazendo-os sucumbir nas provas por que passam.

Nas manifestações dão-se a conhecer pela linguagem. A trivialidade e a grosseria das expressões, nos Espíritos, como nos homens, é sempre indício de inferioridade moral, senão também intelectual. Suas comunicações exprimem a baixeza de seus pendores e, se tentam iludir, falando com sensatez, não conseguem sustentar por muito tempo o papel e acabam sempre por se traírem.

Alguns povos os arvoraram em divindades maléficas; outros os designam pelos nomes de demônios, maus gênios, Espíritos do mal.

Quando encarnados, os seres vivos que eles animam se mostram propensos a todos os vícios gerados pelas paixões vis e degradantes: a sensualidade, a crueldade, a felonia, a hipocrisia, a cupidez, a avareza sórdida. Fazem o mal por prazer, as mais das vezes sem motivo, e, por ódio ao bem, quase sempre escolhem suas vítimas entre as pessoas honestas. São flagelos para a humanidade, pouco importando a categoria social a que pertençam, e o verniz da civilização não os forra ao opróbrio e à ignomínia.

103. Nona classe. Espíritos levianos. – São ignorantes, travessos, irrefletidos e zombeteiros. Metem-se em tudo, a tudo respondem, sem se incomodarem com a verdade. Gostam de causar pequenos desgostos e ligeiras alegrias, de aborrecer, de induzir maliciosamente em erro, por meio de mistificações e de espertezas. A esta classe pertencem os Espíritos vulgarmente tratados de duendes, trasgos, gnomos, diabretes. Acham-se sob a dependência dos Espíritos superiores, que muitas vezes os empregam, como fazemos com os nossos servidores.

Em suas comunicações com os homens, a linguagem de que se servem é, por vezes, espirituosa e faceta, mas quase sempre sem profundidade. Exploram as falhas e o lado ridículo dos homens e da coisas, comentando-os em traços mordazes e satíricos. Se tomam nomes supostos, geralmente é mais por malícia do que por maldade.

104. Oitava classe. Espíritos pseudo-sábios. – Dispõem de conhecimentos bastante amplos, porém, crêem saber mais do que realmente sabem. Tendo realizado alguns progressos sob diversos pontos de vista, a linguagem deles aparenta um cunho de seriedade, de natureza a iludir com respeito às suas capacidades e luzes. Mas, em geral, isso não passa de reflexo dos preconceitos e idéias sistemáticas que nutriam na vida terrena. É uma mistura de algumas verdades com os erros mais absurdos, através dos quais penetram a presunção, o orgulho, o ciúme e a obstinação, de que ainda não puderam despir-se.

105. Sétima classe. Espíritos neutros. – Nem bastante bons para fazerem o bem, nem bastante maus para fazerem o mal. Pendem tanto para um como para o outro e não ultrapassam a condição comum da Humanidade, quer no que concerne ao moral, quer no que toca à inteligência. Apegam-se às coisas deste mundo, de cujas grosseiras alegrias sentem saudades.

106. Sexta classe. Espíritos batedores e perturbadores. – Estes Espíritos, propriamente falando, não formam uma classe distinta pelas suas qualidades pessoais. Podem caber em todas as classes da terceira ordem. Manifestam geralmente sua presença por efeitos sensíveis e físicos, como pancadas, movimento e deslocamento anormal de corpos sólidos, agitação do ar, etc. Afiguram-se, mais do que outros, presos à matéria. Parecem ser os agentes principais das vicissitudes dos elementos do globo, quer atuem sobre o ar, a água, o fogo, os corpos duros, quer nas entranhas da terra. Reconhece-se que esses fenômenos não derivam de uma causa fortuita ou física, quando denotam caráter intencional e inteligente. Todos os Espíritos podem produzir tais fenômenos, mas os de ordem elevada os deixam, de ordinário, como atribuições dos subalternos, mais aptos para as coisas materiais do que para as coisas da inteligência; quando julgam úteis as manifestações desse gênero, lançam mão destes últimos como seus auxiliares.

Segunda ordem. – Espíritos bons

107. Características gerais. – Predominância do espírito sobre a matéria; desejo do bem. Suas qualidades e poderes para o bem estão em relação com o grau de adiantamento que hajam alcançado; uns têm a ciência, outros a sabedoria e a bondade. Os mais adiantados reúnem o saber às qualidades morais. Não estando ainda completamente desmaterializados, conservam mais ou menos, conforme a categoria que ocupem, os traços da existência corporal, assim na forma da linguagem, como nos hábitos, entre os quais se descobrem mesmo algumas de suas manias. De outro modo, seriam Espíritos perfeitos.

Compreendem Deus e o infinito e já gozam da felicidade dos bons. São felizes pelo bem que fazem e pelo mal que impedem. O amor que os une lhes é fonte de inefável ventura, que não tem a perturbá-la nem a inveja, nem os remorsos, nem nenhuma das más paixões que constituem o tormento dos Espíritos imperfeitos. Todos, entretanto, ainda têm que passar por provas, até que atinjam a perfeição absoluta.

Como Espíritos, suscitam bons pensamentos, desviam os homens da senda do mal, protegem na vida os que se lhes mostram dignos de proteção e neutralizam a influência dos Espíritos imperfeitos sobre aqueles a quem não é grato sofrê-la.

Quando encarnados, são bondosos e benevolentes com os seus semelhantes. Não os movem o orgulho, nem o egoísmo, ou a ambição. Não experimentam ódio, rancor, inveja ou ciúme e fazem o bem pelo bem.

A esta ordem pertencem os Espíritos designados, nas crenças vulgares, pelos nomes de bons gênios, gênios protetores, Espíritos do bem. Em épocas de superstições e de ignorância, eles foram elevados à categoria de divindades benfazejas.

Podem ser divididos em quatro grupos principais:

108. Quinta classe. Espíritos benévolos. – A bondade é neles a qualidade dominante. Apraz-lhes prestar serviço aos homens e protegê-los. Limitados, porém, são os seus conhecimentos. Progrediram mais no sentido moral do que no sentido intelectual.

109. Quarta classe. Espíritos de ciência. – Distinguem-se especialmente pela amplitude de seus conhecimentos. Preocupam-se menos com as questões morais, do que com as de natureza científica, para as quais têm maior aptidão. Entretanto, só encaram a Ciência do ponto de vista da sua utilidade e jamais dominados por quaisquer paixões próprias dos Espíritos imperfeitos.

110. Terceira classe. Espíritos de sabedoria. – As qualidades morais da ordem mais elevada são o que os caracteriza. Sem possuírem ilimitados conhecimentos, são dotados de uma capacidade intelectual que lhes faculta juízo reto sobre os homens e as coisas.

111. Segunda classe. Espíritos superiores. – Esses em si reúnem a ciência, a sabedoria e a bondade. A linguagem que empregam só respira benevolência; é invariavelmente digna, elevada e, muitas vezes, sublime. Sua superioridade os torna mais aptos do que os outros a nos darem as mais justas noções sobre as coisas do mundo incorpóreo, dentro dos limites do que é permitido ao homem saber. Comunicam-se de bom grado com os que procuram de boa-fé a verdade e cuja alma já está bastante desprendida das ligações terrenas para compreendê-la. Afastam-se, porém, daqueles a quem só a curiosidade impele, ou que são desviados da prática do bem por influência da matéria. 

Quando, por exceção, encarnam na Terra, é para cumprir missão de progresso e então nos oferecem o tipo da perfeição a que a Humanidade pode aspirar neste mundo.

Primeira ordem. – Espíritos puros

112. Características gerais. – Nenhuma influência da matéria. Superioridade intelectual e moral absoluta, com relação aos Espíritos das outras ordens.

113. Primeira classe. Classe única. – Os Espíritos que a compõem percorreram todos os graus da escala e se despojaram de todas as impurezas da matéria. Tendo alcançado a soma de perfeição de que é suscetível a criatura, não têm mais que sofrer provas, nem expiações. Não estando mais sujeitos à reencarnação em corpos perecíveis, realizam a vida eterna no seio de Deus.

Gozam de inalterável felicidade, porque não se acham submetidos às necessidades, nem às vicissitudes da vida material. Essa felicidade, porém, não é a de ociosidade monótona, a transcorrer em perpétua contemplação. Eles são os mensageiros e os ministros de Deus, cujas ordens executam para a manutenção da harmonia universal. Comandam a todos os Espíritos que lhes são inferiores, auxiliam-nos na obra de seu aperfeiçoamento e lhes designam as suas missões. Assistir os homens nas suas aflições, concitá-los ao bem ou à expiação das faltas que os conservam distanciados da suprema felicidade, constitui para eles ocupação gratíssima. São designados às vezes pelos nomes de anjos, arcanjos ou serafins.

Podem os homens pôr-se em comunicação com eles, mas extremamente presunçoso seria aquele que pretendesse tê-los constantemente às suas ordens."

...

II. IMMANUEL KANT

Quase sempre me convenço, sem novidades nem originalidade nisso, de que certas obras são melhor apreendidas quando estudadas detidamente, e por muito tempo. Um bom motivo para publicar estes, lidos há muito tempo, sempre retomados, dado que estudo o autor e agora com muito maior empenho e com desafios ampliados.

Os que adiciono reúnem artigos de Immanuel Kant.  Precisei retornar à leitura de alguns e decidi postar aqui, nesse blog, que criei com esse objetivo: esboçar textos a serem melhor desenvolvidos à medida que a pesquisa for avançando.

Inicialmente, precisei relê-los, a partir de desafios que me foram impostos recentemente, no original inclusive; dessa vez pensando já em compreender melhor o idioma do autor e avançar estudando dessa perspectiva. Bastante surpreso com a releitura de alguns, por exemplo: “Que significa orientar-se no pensamento”?“Começo conjectural da história humana”“O fim de todas as coisas”. 

Os dois últimos, principalmente, com detalhes que só percebi nessa última releitura. Ou seja, como se diz: “Alea jacta est”.

Acrescento ainda "Começo conjectural da história humana": Kant, nesse artigo de 1786 faz um exame sobre a passagem do ser humano de sua natureza puramente animal "estado de rudeza animal" para o "estado de ser racional e social" estabelecendo "[...] que a ruptura entre o instinto e a razão marca o começo da história humana.".

...

"[...] Sinceridade mascarada...

"Saber enganar delicadamente passou a compor certa 'science du temps', uma adequada 'sabedoria' à la mode, cujo agente principal se especializa em ser prudente (Nequitia disciplina) e dono de uma malícia instruída e disciplinada; em outras palavras, o hipócrita:

'Eles [os hipócritas] agem como veneno quando entorpecem os sentimentos pelas doçuras, enquanto sua maldade vai secretamente às entranhas e busca as partes mais nobres. Eles nos fazem mal com suas palavras; eles nos servem cicuta numa taça de rubis e esmeraldas; eles nos sufocam sob rosas e pedras preciosas; eles nos matam com espadas douradas; 'sic inventum est aliquando quomodo aurum non ametur'. Eis como o desregramento dos nossos costumes corrompe o uso de todas as coisas'

Conclusão: Desconfiemos, portanto, do exterior."

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Para estudos acrescento uma resenha:

CONCEIÇÃO, Jorge Wanderlei Costa da. Kant y laBiblia: principios kantianos de exégesis bíblica. Disponível em: https://periodicos.sbu.unicamp.br/ojs/index.php/kant/article/view/8672573/31404 . Acesso em: 04 de abril de 2025. 

______.

CUNHA, Bruno. A gênese da ética em Kant. São Paulo: Editora LiberArs, 2017.

DUPLÁ, Leonardo Rodriguez. Mal y la gracia: la religión natural de Kant. Barcelona: Herder; 2019.

KANT, Immanuel. Começo conjectural da história humana. São Paulo: Unesp, 2010. (p.80-81).
______. Ideia de uma história de um ponto de vista cosmopolita. São Paulo: Martins Fontes, 2004.

______. Dissertação de 1770. De mundi sensibilis ataque inteligibilis forma et princípio. Akademie-Ausgabe. Acerca da forma e dos princípios do mundo sensível e inteligível. Trad. apres. e notas de Leonel Ribeiro dos Santos. Lisboa: Imprensa Casa da Moeda. FCSH da Universidade de Lisboa, 1985.

______. Prolegômenos a qualquer metafísica futura que possa apresentar-se como ciência. Trad. José Oscar de Almeida Marques. São Paulo: Estação Liberdade, 2014)

______. Prolegômenos a toda metafísica futura. Lisboa: Edições 70, 1982.

______. Crítica da razão pura. "Do ideal de Sumo Bem como um fundamento determinante do fim último da razão pura. Segunda seção". (A805, 806 - B833, 834). Lisboa: Fundação Calouste Gulbekian, 1994.
______. Crítica da razão pura. Tradução Valerio Rohden e Udo Moosburguer. Coleção Os Pensadores. São Paulo,Abril Cultural, 1983.
______. Crítica da razão pura. 3. ed. Trad. Fernando Costa Matos. Petrópolis, RJ: Vozes; Bragança Paulista, SP: Editora Universitária São Francisco, 2013.

______. Sobre a Pedagogia. Tradução de Francisco Cock Fontenella. Piracicaba, SP: Editora Unimep, 1996.

______. Sobre a Pedagogia. Petrópolis, RJ, Editora Vozes, 2021.

______. Antropologia de um ponto de vista pragmático. Tradução Clélia Aparecida Martins. São Paulo: Iluminuras, 2006.

______. Cursos de Antropologia: a faculdade de conhecer (Excertos). Seleção, tradução e notas de Márcio Suzuki. São Paulo: Editora Clandestina, 2017.

______. Resposta à pergunta: o que é “esclarecimento”?. In: Immanuel Kant textos seletos. Petrópolis, RJ: Vozes, 1985.

______. Lições de ética. Trad. Bruno Cunha e Charles Fedhaus. São Paulo: Editora Unesp, 2018.

______. A religião nos limites da simples razão. Edições 70, Lisboa, 1992.

______. A religião nos limites da simples razão. Trad. Bruno Cunha. Petrópolis, RJ: Editora Vozes, 2024.

______.Vorlesung über die philosophische Encyclopädie. In: Kant gesalmmelte Schriften, XXIX, Berlin, Akademie, 1980, pp. 8 e 12).

______. Observações sobre o sentimento do belo e do sublime; Ensaio sobre as doenças mentais. Tradução e estudo de Vinicius de Figueiredo. São Paulo: Editora Clandestina, 2018.

______. Observações sobre o sentimento do Belo e do Sublime; Ensaio sobre as doenças mentais. (Trad. Vinícius Figueiredo). Campinas, SP: Ed. Papirus, 1993.

______. Observações sobre o sentimento do Belo e do Sublime; Ensaio sobre as doenças mentais. Lisboa: Edições 70, 2012.

______. Die Religion innerhalb der Grenzen der bloßen Vernunft. W. de Gruyter, 1968.

______. Fundamentação da metafísica dos costumes. Trad. Guido A. de. São Paulo: Discurso editoria: Barcarola, 2009.

______. A metafísica dos costumes. Trad. Clélia Aparecida Martins. Petrópolis, RJ: Vozes, 2013.

______. Textos pré-críticos. São Paulo: Editora Unesp, 2005.

______. Sobre um suposto direito de mentir por amor à humanidade. In: Textos seletos. Petrópolis, RJ: Vozes, 2008.

______. Investigação sobre a clareza dos princípios da teologia e da moral. Lisboa: Imprensa Casa da Moeda, 2007.

KARDEC, A. Le Livre des Esprits. Paris, Dervy-Livres, s.d. (dépôt légal 1985). ______. O livro dos Espíritos. Trad. Guillon Ribeiro, 93. ed. - 1. reimpressão (edição histórica). Brasília, DF: Feb, 2013. (Q. 893-919: "As virtudes e os vícios”; “Paixões"; “Caracteres do homem de bem”; “Conhecimento de si mesmo” e 920-933: "Felicidade"; Q. 614-648: "Caracteres da Lei natural"; "Origem e conhecimento da Lei natural"; "O bem e o mal"; "Divisão da Lei natural").

LEMA-HINCAPIÉ, Andrés. Kant y la Biblia: principios kantianos de exégesis bíblica. Antropos Editorial: México: Universidad Autónoma Metropolitana -Iztapalapa. División de CienciasSociales y Humanidades, 2006. 




REFLEXÃO MATINAL CXLV: ÉTICA DAS VIRTUDES "SEELSORGE"(III)

  “ Recolhe-te a estas coisas mais tranquilas, mais seguras, melhores! [...] elevar-se às coisas sagradas e sublimes para conhecer qual é a ...